quinta-feira, 26 de junho de 2014

[HSF] “Teve um tremendo pagode que você nem pode imaginar”

Essa é a última parte da série de postagens com a reportagem que eu fiz pro meu TCC sobre a história do samba de Florianópolis com o título de "Os famosos anônimos na construção do samba em Florianópolis", defendida em dezembro de 2013.


“Pagode” sempre foi definido como uma festa com música. Não necessariamente samba. No nordeste, por exemplo, esse termo também é usado para definir uma festa regada a forró. De “festa onde tem samba” para um apelido para o próprio samba, é um pulo. As pessoas usavam este termo de várias formas: “Fui num pagode bom”, “Eu sou do pagode”, “Fiz um pagode novo, escuta só”.

Foto de 2003 com os sambistas do Morro da Caixa que faziam sambas na década de 1980. De boné branco e óculos escuros na cabeça, Jorge Nascimento. Acervo Jorge Nascimento.

Os anos de 1980 foram uma época de transição. O termo “pagode” começa a ter nova definição. O que era usado como uma festa, ou sinônimo para samba, passa a ser usado como uma variante do samba. Um ritmo mais lento, temas mais românticos, inclusão de outros instrumentos como o teclado e a guitarra. As gravadoras percebem que há um nicho de mercado ainda a ser explorado e começa a investir neste meio e difundir o “pagode” com esse formato mais romântico. Disputando com esse novo formato de pagode, há os que ainda utilizam o termo “pagode” pra designar um sinônimo de samba. Esta confusão persiste até hoje em dia.

Com a popularização do pagode, André Calibrina, da Aeronáutica, Chulapa, da Marinha, e outros marinheiros, trazem este estilo para Florianópolis em fins de 1985. Às sextas-feiras organizavam um pagode (ou samba) no Bar do Petit (atual Bar Canto do Noel), na Travessa Ratclif, no Centro da capital, com uma caixa de cerveja fornecida pelo dono do bar para o grupo. Pela facilidade de poder usar os aviões da Base Aérea, eram trazidos vários vinis do Rio de Janeiro, com as novidades dos sambas de lá: Fundo de Quintal, Zeca Pagodinho, Jovelina Pérola Negra. Maguila, um dos participantes do pagode, sugeriu então montar um grupo. Nascia o Mistura Fina.

André Calibrina conta que o Mistura Fina e demais amigos, iam até a Barra da Lagoa pra fazer um samba descompromissado, sem cobrança de ingresso. Iam de ônibus mesmo. O repertório era recheado de Bezerra da Silva. Passados cerca de 40 anos desde os primeiros registros de samba, com uma quantidade muito maior de músicos, os espaços para sambas ainda eram escassos.

Depois do surgimento do Mistura Fina, vários outros grupos são formados para acompanhar a moda. Segundo o sambista Bira Pernilongo, o “Pagode pra Senti Firmeza”, de Celinho da Copa Lord, foi feito em homenagem a um desses grupos.

No Mercado Público, como tinha movimentação de samba, criou-se o Projeto Fundo de Quintal, de terça a sexta, das 19h à meia noite. O evento terminava, efetivamente, faltando 15 minutos para meia noite, para que houvesse tempo dos músicos e público pegarem o último ônibus que saía do Terminal Cidade de Florianópolis. Os locais afloram: Clube Tiro Alemão, na Avenida Mauro Ramos (atual Igreja Universal do Reino de Deus), onde Frank e Carvalhinho embalavam o público com samba-rock; Bar do Ênio (atual Centro Sul), aos sábados à tarde, onde o “Samba Sete” tocava; Quiosque do Umbu (atual Associação dos Empregados da Eletrosul – Elase), onde o Mistura Fina tocava; próximo da Praça do Saco dos Limões (atualmente há uma Igreja); sede da escola de samba Copa Lord, no Morro da Caixa; sede da escola de samba Coloninha; Bar do Cal, próximo da sede da Coloninha; Clube Barrufa; Sociedade Recreativa e Cultural Limoense, no Saco dos Limões; Cobra Criada, próximo do Shopping Itaguaçu, em São José.

Os concursos de sambas de quadra ainda continuavam sendo realizados, no ginásio da Fundação Atlética Catarinense – FAC, no Clube Umbu ou na ELASE. Neste último, num concurso da Consulado, o compositor Cláudio Caldas chamou a cantora Maria Helena, que se apresentava na Sociedade Recreativa e Cultural Limoense, para participar defendendo o samba “Deixa que te ame”, acabando por se tornar o vencedor do primeiro concurso dessa escola.

André Calibrina conta que o compositor Paulinho Carioca organizava um encontro de grupos de pagode para difundir e divulgar os sambas e os grupos. Eles saíam a pé, tocando pelas ruas, acompanhados de uma caixa de som para amplificar alguns instrumentos e voz. Sem local fixo para se apresentar, a saída era tocar no meio da rua.

Além dos locais fixos citados, o samba acontecia em eventos aleatórios. É nesses lugares que pessoas que não participavam de grupos mostravam seu valor como compositores, cantores, improvisadores, percussionistas ou com instrumentos de corda: Paulinho Carioca; Maguila; Elias Marujo; Maranhão; Dica; Jorge Luis; Serginho Chapadão; Bira Pernilongo, Pireli; Djalma; Lagartixa, o Rei Momo; Carlinhos do Pandeiro; Carlinhos do Pandeiro, do Monte Verde; Carlinhos da Tuba, chamado de Nego Beiçola; Mestre Rato; Pirelli; as cantoras Jane, Fafá, Brenda, Elisah. Alguns destes citados atualmente estão afastados do meio do samba. Outros, infelizmente, já falecidos.

Na década de 1980, os batuqueiros do morro continuam suas atividades. Jesus, no cavaco; Jorge; Gonzaga Boca de Cantor; Adilson; Pacote, no pandeiro e tumbadora; Tonho no violão de 7 cordas; e Nego Fifi, no surdo, grupo de sambistas que se juntavam para tocar sem formar um grupo com nome. O grupo não era acostumado a usar aparelhagem de som, nem “boca de ferro”, como era chamado o microfone. Eram sambas feitos acusticamente e muitas vezes no improviso, usando caixa de leite, que o leiteiro deixava no armazém, garrafa, lata, prato e faca. O que fosse encontrado virava instrumento. Alguns moradores até paravam para ver, ouvir, e apreciar a música, muitas vezes, até de madrugada. É esse grupo que vai dar início às primeiras rodas de samba no Silvelândia, na década de 1990, lembrado até hoje pelos que frequentaram como a melhor roda de samba da história de Florianópolis.

Nos fins de 70 e início de 80, despontam, também, os grupos regionais, com violões, cavacos, bandolins, flautas e pandeiro. Choro, sambas, sambas cançõese serestas estavam em alta.

É nesse embalo que surgem os grupos Vibrações, Nosso Samba, Regional do Paulo Guimarães, do bandolim; Regional do Zequinha, também compositor; e Regional do Chiquinho, segundo Irê Silva, um barbeiro do Morro da Mariquinha, que fechava a barbearia às 18h e ficava tocando na porta do estabelecimento com seu grupo.

Na Beira-Mar Norte havia o Iate Clube Veleiros. Nesse clube, participavam João Medeiros, reconhecido como um grande cantor, manco por conta de um problema na perna; Seu Noca, o do cavaco, que também cantava; Célio, do bandolim; a cantora Cleide Amon; Aldo Gonzaga, no piano; a cantora Neide Maria Rosa; Paulo Padilha; Mazinho do Trombone; Djalma; Wagner Segura, no cavaco; e Alberto Vitor, também cavaquinista.

Wagner Segura, paulista, chegou em Florianópolis ainda criança e já adulto começou a estudar música com Laércio, que também ainda se encontra em atividade. Estudava, também, com o violonista de 7 cordas Eduardo, afastado do mundo do samba por questões pessoais, tio do sambista Dôga, que desponta nos anos 2000.

Laércio, por sua vez, aprendeu muito com o violonista Yvonésio Catão, também cantor de seresta. Yvonésio acompanhou por diversas vezes Neide Maria nas rádios e é avô de George, que viria a ser cavaquinista do samba no Silvelândia, em fins da década de 1990.

Na Lagoa da Conceição, leste da Ilha de Santa Catarina, a cantora Neide Maria Rosa era proprietária do Restaurante Saveiros, também local de encontro de sambistas e chorões. Mais tarde, Neide fundou o bar Lá na Neide, no Centro da capital, que durou poucos meses. Em sua residência também eram organizados encontros.

Por um período, antes da criação do Bar do Tião, aos domingos, depois do futebol, por volta das 19h, na praçinha do bairro Monte Verde, um pessoal, a maioria anônimo, se reunia para tocar choro. Entre os identificáveis, Zequinha; Nilo Dutra, no clarinete; e Carlinhos do Pandeiro do Monte Verde, falecido em 2013.

Mais tarde, foi aberto o Bar do Tião, em 1992, anexo à residência do próprio Tião, no Monte Verde, que se tornou uma referência de samba na cidade até hoje. Esse bar foi criado por alguns motivos: entre eles, por não haver um local para se tocar samba; por pedido da esposa do Tião, que não queria mais o marido nas noitadas da cidade; e, de forma natural, pois a casa do Tião já era um ponto de encontro dos músicos e onde se faziam sambas e serestas.

Outro bom cantor e compositor dessa época é Wilmar Silveira, seresteiro. A família resolveu gravar o áudio de algumas festas em que se executavam suas músicas, a fim de que elas não fossem esquecidas. Esse acervo está com Wagner Segura.

Vez ou outra havia um intercâmbio com músicos cariocas. A história costuma se repetir. É cíclica. Foi exatamente assim que surgiram os primeiros sambistas em Florianópolis. Mas dessa vez, Wagner Segura foi estudar música no Rio de Janeiro e trouxe para Florianópolis o modo de tocar sambas por cifras. Era o início da profissionalização dos músicos na cidade. Na década de 90, Wagner abriria o Centro Musical Wagner Segura, responsável pelo ensino da maioria dos músicos de samba e choro que se tornaram profissionais. Diz-se, até, que Wagner ensinou metade dos músicos de Florianópolis. A outra metade teve aula com os alunos dele.

A década de 1980 foi de experiências. Com o surgimento de uma nova roupagem para o samba e com a popularização do choro em Florianópolis, primo musical do samba, essa geração aproveitou o momento para experimentar novas formas de tocar, cantar, novas músicas, novos lugares, instrumentos. Aproveitaram, também, para estudar. Era tudo muito novo. Quem não acompanhasse as inovações, estaria, fatalmente, fora do ambiente de samba.

No Centro da cidade, o Restaurante Gralha, fundado nos anos 90, passa a abrigar sambas e serestas. Isso porque a proprietária era a cantora Maria Helena, que vinha do Rio de Janeiro e trazia seu irmão Bira 7 Cordas para comandar a parte musical.

Silvelândia em 1999. Jeisson ao microfone, Cachaça de gorro e George no cavaquinho próximo da caixa de som. Acervo Jeisson Dias.

Atrás do Clube 12 de Agosto, na Avenida Hercílio Luz, próximo do Ministério da Fazenda, havia uma pequena garagem, o restaurante Chega Mais. Nesse lugar, reunia-se, nos fins de tarde, um grupo formado por Jesus, Jorge, Gonzaga, Adilson, Pacote, Tonho e Nego Fifi, todos do Morro da Caixa. Cerca de 300 pessoas iam assistir a roda de samba. Foi em um desses encontros que apareceu um “branco metido”, como foi internamente chamado, com um tantã, cujo som abafava a timba que o grupo usava. Era Du Seara, que despontava como percussionista. No local hoje funciona um chaveiro. Próximo do carnaval, em meados de 1994/1995, esse grupo começa a fazer samba no Silvelândia, um bar próximo da Catedral. Foi lá que o grupo conheceu outro “branco metido”, Jeisson Dias, tocando banjo, até ser interrompido por sua má execução na época.

Pouco tempo depois, em 1996/97, Jeisson começa a organizar uma roda de samba no quiosque da Praça Pereira Oliveira (Praça do Teatro Álvaro de Carvalho – TAC). Semanas depois, muda o local e passa a tocar no Silvelândia. O grupo do morro já não tocava mais. Nesse bar, Jeisson organizava, toda quarta-feira, a que é considerada por todas as fontes que frequentaram o local como a melhor roda de samba que Florianópolis já teve. Jeisson Dias, Cachaça e George, no cavaquinho, eram praticamente os únicos fixos. Nessa roda de samba, todos tocavam tudo. Guilherme Partideiro, violonista, lembra que chegava e perguntava ao Jeisson qual instrumento que gostaria que ele, Guilherme, tocasse, pra ajudar. Frequentemente sobrava o repique de mão. Muitos músicos surgiram dessa roda. Jeisson também compunha. Um samba seu era o ponto máximo do Silvelândia, “Meu lar é residência do samba”. Em 2000, houve um incêndio no bar e o samba acabou.

Na mesma época de criação do samba no Silvelândia, em 1997, surgia um grupo no bairro Jardim Dona Adélia, em São José, o Um Bom Partido. O grupo tinha o propósito de cantar sambas antigos. Era um repertório diferente de outros conjuntos da época.

No ano do incêndio do Silvelândia, formava-se, em São José, um movimento de partido alto, modalidade de samba feito de improviso. Nesse movimento, na sede do Centro Comunitário de Forquilhinhas, em São José, surge o grupo Número Baixo. No mesmo ano, no Morro da Caixa do continente, dentro de um programa social, surge o grupo Novos Bambas.

Nessa época, havia ainda os grupos Coisa da Antiga e Kadência do Samba. Esses, e mais os grupos Número Baixo, Novos Bambas e o Um Bom Partido, faziam os Encontros de Samba Raiz no Arte Brasil, no bairro Costeira.

No Casarão, na Praça XV, Maria Helena cantava sambas e sambas-canções. O Casarão também foi palco para apresentações de Um Bom Partido.

Projeto Cultural Mantendo as Tradições no Praça 11, comandado pelo grupo Número Baixo. Registro feito por Artur de Bem em 2006.

Em 2004,é inaugurado o Restaurante Praça 11, em São José, cujo proprietário é o Amarildo, exintegrante do grupo Um Bom Partido. Em fevereiro de 2005, tem início o Projeto Cultural Mantendo as Tradições, todo sábado, organizado pelo grupo Número Baixo. O objetivo principal desse encontro era apresentar sambas locais, incentivar novos instrumentistas, cantores, compositores e partideiros, aqueles que improvisam. Pretendia-se, com o formato de roda de samba, ao invés de palco, facilitar a integração e interação dos músicos com a plateia.

Posso assegurar que o Projeto deu resultado. Eu fui frequentador do Praça 11 por quase 2 anos ininterruptos. A primeira vez foi dia 9 de julho de 2005, no aniversário de um amigo. A partir da segunda visita, comecei a ter contato com os músicos a ponto de me tornar amigo íntimo deles, participar de viagens, ajudar na organização de eventos e interferir, um pouco que seja, na história do samba da cidade. Atualmente assumi o posto de cavaquinista do grupo Um Bom Partido. Com a minha interferência no samba da cidade, termino a minha pesquisa. O que acontece depois disso, já não seria mais necessário fazer pesquisa. Apenas lembrar do que vivi.

A partir de 2005, decidi por não contar mais sobre a história, sobre os personagens, para evitar falar de mim mesmo. Deixemos isso a cargo de um próximo jornalista.


*Pagode pra Senti Firmeza
(Celinho da Copa Lord)

Esse é o pagode pra Senti Firmeza
Vejam, gente, que beleza
Quem quiser pode chegar
Tem samba de Guineto e Pagodinho
Alcione e Martinho
Dona Yvonne Lara
Também tem samba de João Nogueira
Beth, maior pagodeira
Clementina e Guará
Só Preto Sem Preconceito, meu senhor
Lá no Fundo de Quintal teu chamego me ganhou

E tem Bezerra que é fera no partido
No terreno do improviso Jovelina vai versar
Roberto Ribeiro, Marquinhos Sathan e Pedrinho da Flor
Isso é pra Senti Firmeza
Nosso samba arrebentou


*Meu lar é residência do samba
(Jeisson Dias)

Meu lar é a residência do samba
E não adianta a luz se apagar
Que assim mesmo existe um bamba
Balança a massa super tropical
É um ritmo fundamental
Que faz o meu povo cantar e sambar

O samba é um abraço
O samba é a corda
O samba é oração
E quem vem pra uma longa viagem
Até desafia a imaginação
Para o mundo inteiro já posso provar
Na escola de samba ou na mesa de bar
É só o samba que faz a alegria em qualquer lugar

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