Só queria pedir a compreensão de uns e outros que ainda dizem que músico é vagabundo, que só vive na madrugada, só vive de bar em bar, vive fazendo música, etc. Isso tudo é verdade - menos a parte do vagabundo. Mas é um serviço. Um emprego. Um trabalho. Enquanto dormes, ele trabalha. Enquanto o músico dorme, trabalhas. Não há diferença nenhuma.
Então o sujeito resolve ser músico.
Passa horas em casa escutando músicas. Não por prazer. Muitas vezes por obrigação. Pra escutar com detalhes cada parte da música. Se é cantor, dá mais atenção à letra, melodia e interpretação do cantor daquela música. Se tem mais uma gravação, ouve-se as outras gravações pra conhecer os outros arranjos e outras interpretações.
Se é músico de harmonia, dá mais atenção à melodia, interpretação do cantor e em todos os instrumentos de harmonia. Principalmente no seu. Se tem mais uma gravação, idem.
Se é percussionista, melodia, interpretação do cantor e em todos os instrumentos de percussão. Principalmente no seu. Se tem mais uma gravação, idem.
Lá se vão algumas horas de estudo.
Sim. Estudo. Pois quando um músico ouve música não é somente por prazer. Dependendo do vício do músico pelo trabalho, todas as vezes que escuta uma música qualquer, tira algum proveito, faz alguma crítica pessoal sobre a música.
Depois há os ensaios com o grupo.
Gasta-se com passagem de ônibus, ou gasolina, dependendo do local do ensaio. E cansa. Geralmente, o tempo empregado no ensaio costuma ser o mesmo de uma apresentação. Lá se vão mais algumas horas de estudo.
Sim. Estudo. Pois quando o grupo se encontra, não é somente por prazer. O intuito não é sentar e tomar uma cerveja ou cachaça. Por mais que isso aconteça, há estudo. Ensaio. Pra todos terem em mente o que fazer exatamente na hora da apresentação.
E aí chega a hora de apresentação.
Digamos que o show seja às 22h.
O músico tem que estar no local, pelo menos, às 21h pra passar o som. O músico chega no local, descarrega todos os instrumentos, monta o que tem que montar, passa cabo, levanta pedestal, arrasta caixa de som do retorno, etc. Equaliza os instrumentos, volume, voz, do grupo todo, pra que o público ouça a música com a maior perfeição possível. Sem um instrumento mais alto que o outro, atrapalhando a harmonia do grupo.
Aí vem a apresentação.
Veja bem. Até agora o público não ouviu a música. E o músico já teve certo trabalho.
Quando o músico não tem roadie, ele passa o show inteiro preocupado com o som que o público está ouvindo. O som que o público ouve muitas vezes não é o mesmo som que ecoa no palco.
Enquanto o público está no seu momento de lazer, o músico está trabalhando. E por vezes o músico não está com vontade de tocar. Mas toca por obrigação. É seu ganha-pão. Se não tocar, não recebe.
Ou vai dizer que o leitor tem vontade de ir trabalhar todo dia, por mais que seja sentadinho numa sala com ar condicionado na frente de um computador?
Quando acaba o show, as vezes o público pede mais um. Um sinal de valorização do trabalho. E lá vai o músico tocar mais uma música em respeito ao público.
Findado o show, por volta de meia noite, 1h da manhã, o público vai embora. O músico não.
Depois de 2h, 3h de show, o músico ainda fica para comer, beber, quando a casa oferece - algumas casas vendem -, receber o salário e fazer o serviço inverso do palco. Desmontar pedestal, mesa de som, cabos, guardar instrumentos, etc.
Por vezes o dono do estabelecimento vem com uma conta na mão das águas, refris e cervejas que o músico usou durante o show.
Descontados daqui e dali, não é incomum sobrar míseros R$ 60. E não conheço nenhum músico que toque todos os dias do mês. No máximo, quatro vezes por semana. Façam os cálculos se quiserem.
Músico é autônomo mas tem chefe. São os donos dos estabelecimentos que o contratam.
Diante disso tudo, lhes peço: Por favor, mais respeito com o músico!
Obrigado.
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terça-feira, 24 de janeiro de 2012
terça-feira, 13 de dezembro de 2011
Partido alto
Então um sujeito resolve pegar um pedaço de madeira com umas cordas de aço, um pedaço de casco de tartaruga e começa a raspar com o casco nas cordas.
Um outro sujeito resolve pegar um outro pedaço de madeira com um couro no meio e começa a bater nele.
Outros sujeitos aparecem, começam a cantar algo que se repete o tempo todo.
De repente, um só inventa uma música no meio daquela e quando acaba, todo mundo volta a cantar a música anterior, repetindo o tempo todo. Sem deixar o ritmo cair. Então vem outro sujeito e canta outra música. Aí acaba, e todo mundo volta a cantar a música anterior. Como mágica. Emendando uma na outra. E por aí sucessivamente.
Entre uma intervenção e outra todo mundo ri, não sei do que.
E continua o casco a raspar nas cordas, a mão a bater no couro e o povo a cantar.
Que graça tem isso?
TODA!
E salve o partido alto!
quinta-feira, 24 de novembro de 2011
Um caso de verão
Então um dia a vi. Foi um caso rápido. Alguns segundos. Logo ela foge do alcance dos meus olhos.
Isso aconteceu por algumas vezes. Acho que ela também me viu em todas as ocasiões. O que será que ela pensou? Porque fugiu?
Certo dia houve uma festa em minha casa. Ela apareceu. Estava num canto da casa. Sozinha. Não pode ser verdade. Assim também já é demais.
Fui ao encontro dela. Ela correu, mas ainda estava no meu campo de visão. Dessa vez ela não escaparia. Ela ia pra um lado, eu ia atrás. Ela voltava, eu voltava também.
Eis que consigo prensá-la contra uma parede. De forma concisa. Precisa. Firme. Forte. Ela bambeia. A deixo por uns instantes, orgulhoso. Vou buscar uma bebida. Quando volto, ela havia sumido de novo. Mas como? Depois dessa prensa ela ainda foge?
Maldita barata!!!
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
Assim é mesa de bar. Lugar de...
De vez em quando chego no bar, peço minha tradicional latinha de Antártica e fico de canto, observando os que já estão sentados à mesa, em forma de círculo, brincando.
Aqui abro um parênteses pra contar uma historinha.
(Desde sempre que o círculo simboliza união. Não há início, nem meio, nem fim. Rei Artur muito provavelmente tenha sido o maior difusor desse simbolismo. Basta lembrar do nome da história: Rei Artur e os Cavaleiros da Távola Redonda. Quando todos sentam à mesa em forma de círculo, mesmo que a mesa não seja redonda, significa que todos tem o mesmo grau de importância. Ninguém é o centro das atenções. Assim pensava Rei Artur.)
Tudo vai bem e eis, porém, que de repente, alguém me chama para sentar junto e sede seu lugar para mim. É a minha vez de brincar também.
Outras pessoas sentam junto, outras ficam em pé ao redor. Todos acabam brincando, em prol do que acontece. Há os que não gostem da intervenção de quem está fora, alguns cantam errado, mas tudo faz parte.
É bonito de se ver essa interação, mesmo com pessoas estranhas, como de vez em quando acontece. Por vezes, a brincadeira sai bonita.
E quem está sentado cuida do colega, se preocupa com quem está ao lado, tudo de forma natural, sem obrigação, pra que tudo saia na mais perfeita ordem. Há um respeito mútuo entre todos.
Quando a roda está animada, surgem olheiros de todos os cantos e todos os tipos. Todos parecem querer participar, estar dentro.
A união dessa mesa de bar é algo fora de série. Preto senta com branco, rico com pobre, os mais velhos sentam com os mais novos, por vezes aprendem com a astúcia dos mais jovens, mas na maioria das vezes ensinam. Há gozação pra lá, gozação pra cá, um ri do outro, o outro paga cerveja pra um, etc.
Há, claro, os que não gostam de deixar a mesa. Mas é um espaço democrático. Todos devem brincar.
Assim é mesa de bar. Lugar de jogo de dominó.
domingo, 16 de outubro de 2011
Uma leve vontade...
Bateu a Ave Maria. Hora de sair do serviço. Uma leve vontade de urinar me toma o corpo. Não fico muito a vontade usando banheiros públicos, ou do serviço, que por ser um órgão público, se torna quase um banheiro público. Como a vontade também não é grande, dá pra aguentar até em casa.
O elevador demora pra chegar. Pudera. São 18h e todos estão querendo ir embora. Até o elevador chegar no 12º andar deve demorar um pouco mesmo.
Eis que chega. Agora, a demora é pra chegar ao térreo. Pudera. São 18h e todos estão querendo ir embora.
O equipamento para em todos os andares. Em cada andar, uma breve saculejada. Sinto saculejar também a minha bexiga. Mas ainda estou no controle.
Térreo. Ainda desço mais um lance de escada para chegar até a calçada. Chove. O barulho da água é um facilitador psicológico para quem quer urinar. Eu quero. Mas não posso agora.
Do serviço até o terminal de ônibus são alguns bons metros. A calçada esburacada da cidade não ajuda em nada quem está com a bexiga cheia. E essas poças d'água estão começando a me incomodar.
Pro meu azar, o meu ônibus acabou de sair. O próximo só em 30 minutos. Ainda chove. O barulho da água no teto faz parecer que a chuva está mais forte, que há mais água caindo. Já estou começando a andar meio curvado, pra não pressionar muito a bexiga. E saber que vou demorar pra chegar em casa não ajuda.
O banheiro do terminal é bem próximo do ponto do meu ônibus. Mas não consigo urinar com tanto barulho, ou com alguém perto de mim, ou sabendo que tem alguém que também está apressado, com vontade, esperando eu acabar. Mesmo assim, arrisquei.
Chego no mictório, vejo aquele latão de ponta a ponta da parede, com água escorrendo, para escoar a urina e servindo como um facilitador psicológico para quem quer urinar. Que sorte, está vazio!
Pois foi só eu encostar no canto, que apareceu um sujeito. Olhei pra trás, dei mais um passinho pro lado, para liberar mais espaço, sendo que havia todo o resto do mictório disponível. O sujeito chega, urina e quando está saindo, quando eu penso que ia ficar sozinho novamente, só eu e o mictório, aparece outra pessoa. Eu começo a ficar encabulado de não ter urinado ainda e continuo na mesma posição, com as duas mãos na região pubiana, olhando pra baixo, parado, aguardando a urina sair. Tão perto e ao mesmo tempo tão longe. A posição, a água rolando, o mictório na minha frente. Tudo propício. A vontade aumenta. A bexiga se prepara para despejar o líquido, o corpo sabe que a urina tem que sair, mas o cérebro não deixa e o corpo trava. Não dá. Não consigo. Chega mais dois. Eu fingo que termino, embora ninguém tenha ouvido um barulho sequer do canto onde eu estava, ou ter escorrido algo mais do que a água do mictório para o ralo. Tenho a impressão de que todos estão rindo de mim por saber que eu não consegui urinar na presença de mais pessoas. Lavo a mão e saio.
Volto para fila do ônibus, mais curvado que antes. A chuva não pára. Minha barriga dói.
Fico imóvel, porque qualquer movimento piora a sensação. Até o ritmo da respiração eu diminuo. Se eu respirar fundo, o pulmão vai ocupar muito espaço dentro de mim e pressionar a bexiga. Então respiro pouco.
Entro no ônibus e consigo um último lugar pra sentar, na cozinha, ao lado da janela, vendo a chuva.
Quando o motorista liga o ônibus, dá a impressão de que ele ligou uma daquelas cadeiras do cinema do Beto Carreiro, que vai pra frente, pra trás, sobe, desce... Corre uma lágrima do meu rosto. Quando o motorista acelera, há um breve alívio, já que as batidas do motor diminuem.
Mas o trajeto até a minha casa demora, já são 19h, chove, a cidade está repleta de carros e as filas aumentam brutalmente. Abro o botão da calça para amenizar a pressão na barriga.
A rua esburacada da cidade não ajuda em nada quem está com a bexiga cheia e o local que eu encontrei no ônibus piora. A parte de trás do ônibus é a que mais balança.
São 19h20 e o motorista está com pressa. Estressado por conta do trânsito, quando há uma brecha ele acelera com tudo. Numa dessa, há uma lombada. Ele a ignora. Minha bexiga não.
Acho que escapou uma gota pela uretra. Mais 2 lágrimas escorrem.
Mas onde eu estava com a cabeça de sentar?? Para amenizar o chacoalhar do ônibus, levanto, mas numa das aceleradas do ônibus, me vem a mente aquelas aulas de física da 5ª série sobre inércia, onde aprendemos que todo corpo tende a se manter parado até que alguma força a faça se mover. O sujeito da minha frente parece ter faltado essa aula, pois numa arrancada do ônibus, o sujeito esbarra em mim e, obviamente, pela Lei de Murphy, na minha barriga, exatamente no balão cheio de urina que eu carrego dentro de mim.
Acho que escapou mais duas gotas pela uretra e meus olhos ficam rasos d'água. No piscar, dois filetes de lágrima riscam meu rosto até a mandíbula. Minha barriga dói mais. Mais pela vontade de urinar do que pelo esbarrão.
Falta pouco pra eu chegar em casa e menos ainda pra eu molhar as calças.
Pensando bem, está chovendo, ninguém ia reparar. Talvez pelo cheiro. Pensando melhor ainda, é preferível não fazer isso.
Ainda chove e a essas alturas eu já estou chorando quando, enfim, chego no meu ponto, corro, na medida do possível, até minha casa, já com a chave do portão na mão, com o corpo bem mais relaxado por estar em no meu ambiente, no meu espaço, o que piora a situação, abro o portão em tempo recorde, entro em casa como se a porta nem existisse, a calça já está totalmente aberta, avisto o vaso sanitário de longe com a tampa abaixada pensando sem um empecilho, mas se nem a porta da casa foi um agente dificultoso, uma tampa não vai atrapalhar minha glória, e com a agilidade de um gato, a urina começa a sair ao mesmo tempo em que a tampa é levantada.
Choro de novo.
Permaneço ali por minutos. As pernas amolecem. O coração dispara. Um sorriso involuntário toma conta do meu rosto. Solto alguns gemidos, também involuntários.
Lentamente, lavo as mãos. Deito na cama.
Acordo feliz e com a cama completamente encharcada, já gotejando no chão.
Nunca acordei sorrindo de um pesadelo.
O elevador demora pra chegar. Pudera. São 18h e todos estão querendo ir embora. Até o elevador chegar no 12º andar deve demorar um pouco mesmo.
Eis que chega. Agora, a demora é pra chegar ao térreo. Pudera. São 18h e todos estão querendo ir embora.
O equipamento para em todos os andares. Em cada andar, uma breve saculejada. Sinto saculejar também a minha bexiga. Mas ainda estou no controle.
Térreo. Ainda desço mais um lance de escada para chegar até a calçada. Chove. O barulho da água é um facilitador psicológico para quem quer urinar. Eu quero. Mas não posso agora.
Do serviço até o terminal de ônibus são alguns bons metros. A calçada esburacada da cidade não ajuda em nada quem está com a bexiga cheia. E essas poças d'água estão começando a me incomodar.
Pro meu azar, o meu ônibus acabou de sair. O próximo só em 30 minutos. Ainda chove. O barulho da água no teto faz parecer que a chuva está mais forte, que há mais água caindo. Já estou começando a andar meio curvado, pra não pressionar muito a bexiga. E saber que vou demorar pra chegar em casa não ajuda.
O banheiro do terminal é bem próximo do ponto do meu ônibus. Mas não consigo urinar com tanto barulho, ou com alguém perto de mim, ou sabendo que tem alguém que também está apressado, com vontade, esperando eu acabar. Mesmo assim, arrisquei.
Chego no mictório, vejo aquele latão de ponta a ponta da parede, com água escorrendo, para escoar a urina e servindo como um facilitador psicológico para quem quer urinar. Que sorte, está vazio!
Pois foi só eu encostar no canto, que apareceu um sujeito. Olhei pra trás, dei mais um passinho pro lado, para liberar mais espaço, sendo que havia todo o resto do mictório disponível. O sujeito chega, urina e quando está saindo, quando eu penso que ia ficar sozinho novamente, só eu e o mictório, aparece outra pessoa. Eu começo a ficar encabulado de não ter urinado ainda e continuo na mesma posição, com as duas mãos na região pubiana, olhando pra baixo, parado, aguardando a urina sair. Tão perto e ao mesmo tempo tão longe. A posição, a água rolando, o mictório na minha frente. Tudo propício. A vontade aumenta. A bexiga se prepara para despejar o líquido, o corpo sabe que a urina tem que sair, mas o cérebro não deixa e o corpo trava. Não dá. Não consigo. Chega mais dois. Eu fingo que termino, embora ninguém tenha ouvido um barulho sequer do canto onde eu estava, ou ter escorrido algo mais do que a água do mictório para o ralo. Tenho a impressão de que todos estão rindo de mim por saber que eu não consegui urinar na presença de mais pessoas. Lavo a mão e saio.
Volto para fila do ônibus, mais curvado que antes. A chuva não pára. Minha barriga dói.
Fico imóvel, porque qualquer movimento piora a sensação. Até o ritmo da respiração eu diminuo. Se eu respirar fundo, o pulmão vai ocupar muito espaço dentro de mim e pressionar a bexiga. Então respiro pouco.
Entro no ônibus e consigo um último lugar pra sentar, na cozinha, ao lado da janela, vendo a chuva.
Quando o motorista liga o ônibus, dá a impressão de que ele ligou uma daquelas cadeiras do cinema do Beto Carreiro, que vai pra frente, pra trás, sobe, desce... Corre uma lágrima do meu rosto. Quando o motorista acelera, há um breve alívio, já que as batidas do motor diminuem.
Mas o trajeto até a minha casa demora, já são 19h, chove, a cidade está repleta de carros e as filas aumentam brutalmente. Abro o botão da calça para amenizar a pressão na barriga.
A rua esburacada da cidade não ajuda em nada quem está com a bexiga cheia e o local que eu encontrei no ônibus piora. A parte de trás do ônibus é a que mais balança.
São 19h20 e o motorista está com pressa. Estressado por conta do trânsito, quando há uma brecha ele acelera com tudo. Numa dessa, há uma lombada. Ele a ignora. Minha bexiga não.
Acho que escapou uma gota pela uretra. Mais 2 lágrimas escorrem.
Mas onde eu estava com a cabeça de sentar?? Para amenizar o chacoalhar do ônibus, levanto, mas numa das aceleradas do ônibus, me vem a mente aquelas aulas de física da 5ª série sobre inércia, onde aprendemos que todo corpo tende a se manter parado até que alguma força a faça se mover. O sujeito da minha frente parece ter faltado essa aula, pois numa arrancada do ônibus, o sujeito esbarra em mim e, obviamente, pela Lei de Murphy, na minha barriga, exatamente no balão cheio de urina que eu carrego dentro de mim.
Acho que escapou mais duas gotas pela uretra e meus olhos ficam rasos d'água. No piscar, dois filetes de lágrima riscam meu rosto até a mandíbula. Minha barriga dói mais. Mais pela vontade de urinar do que pelo esbarrão.
Falta pouco pra eu chegar em casa e menos ainda pra eu molhar as calças.
Pensando bem, está chovendo, ninguém ia reparar. Talvez pelo cheiro. Pensando melhor ainda, é preferível não fazer isso.
Ainda chove e a essas alturas eu já estou chorando quando, enfim, chego no meu ponto, corro, na medida do possível, até minha casa, já com a chave do portão na mão, com o corpo bem mais relaxado por estar em no meu ambiente, no meu espaço, o que piora a situação, abro o portão em tempo recorde, entro em casa como se a porta nem existisse, a calça já está totalmente aberta, avisto o vaso sanitário de longe com a tampa abaixada pensando sem um empecilho, mas se nem a porta da casa foi um agente dificultoso, uma tampa não vai atrapalhar minha glória, e com a agilidade de um gato, a urina começa a sair ao mesmo tempo em que a tampa é levantada.
Choro de novo.
Permaneço ali por minutos. As pernas amolecem. O coração dispara. Um sorriso involuntário toma conta do meu rosto. Solto alguns gemidos, também involuntários.
Lentamente, lavo as mãos. Deito na cama.
Acordo feliz e com a cama completamente encharcada, já gotejando no chão.
Nunca acordei sorrindo de um pesadelo.
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
Falar sozinho
Sempre falei comigo mesmo. Discuto, respondo... tudo entre eu e eu mesmo.
Certa vez, tive uma discussão feia e fiquei alguns dias sem falar comigo.
Falar consigo mesmo é bom. Se não há com quem desabafar, desabafe só. Melhor ainda pros esquizofrênicos, autistas, bipolares, que podem se auto consolar, com palavras de conforto.
Quem fala sozinho é considerado maluco. Os incompreensíveis são considerados malucos. Os gênios também são considerados malucos. Muitos dos gênios que conhecemos falavam sozinhos e eram incompreensíveis.
Esses dias passei por uma pessoa desacompanhada, séria, passos firmes, trajando roupas com tamanho adequado ao corpo, limpas, completa, falando sozinha. Após um breve recesso, como quem estivesse ouvindo a resposta, tornou a falar. Percebi que as respostas não eram bem aquilo que ela desejava ouvir, pois sua expressão e tom de voz mudavam constantemente. Sempre na linha do séria. Acompanhei-a pela rua até o fim de sua conversa. Ela estava no celular, usando um fone de ouvido. Ou seja, não falava sozinha.
Aquele sujeito que você encontra pela rua, aparentemente sempre feliz, com passos irregulares, não estranho se exalar um odor de açúcar em estado sólido natural depois de fermentado, com roupas de tamanho geralmente menor do que o corpo, doadas por algum varal, já sujas, um pé com sapato e o outro descalço, costumeiramente acompanhado de um cachorro, de vez em quando fala sozinho. Ou com o cachorro, quando o acompanha. Por vezes, ouvimos somente aquilo que desejamos ouvir. A resposta que ele obtém, dele mesmo, dessa conversa aparentemente solitária deve ser satisfatória pois ele continua falando.
Esses sujeitos são profetas! Falam sozinhos e são incompreensíveis. Gênios!!
A vida ensina. E esses, por viverem somente na rua, são PHDs na vida. Sabem de tudo. Passíveis de palestrar em qualquer ambiente. Não compreendem um funcionamento da bolsa de valores, de uma faculdade ou de um computador. Mas quem disse que precisamos? Compreender a vida é e vale muito mais que isso.
Todos falam sozinhos. Ou deveriam. É um bom exercício.
Vergonha é poder roubar e não poder carregar.
Não compreendeu o texto?
Sou um incompreensível.
Certa vez, tive uma discussão feia e fiquei alguns dias sem falar comigo.
Falar consigo mesmo é bom. Se não há com quem desabafar, desabafe só. Melhor ainda pros esquizofrênicos, autistas, bipolares, que podem se auto consolar, com palavras de conforto.
Quem fala sozinho é considerado maluco. Os incompreensíveis são considerados malucos. Os gênios também são considerados malucos. Muitos dos gênios que conhecemos falavam sozinhos e eram incompreensíveis.
Esses dias passei por uma pessoa desacompanhada, séria, passos firmes, trajando roupas com tamanho adequado ao corpo, limpas, completa, falando sozinha. Após um breve recesso, como quem estivesse ouvindo a resposta, tornou a falar. Percebi que as respostas não eram bem aquilo que ela desejava ouvir, pois sua expressão e tom de voz mudavam constantemente. Sempre na linha do séria. Acompanhei-a pela rua até o fim de sua conversa. Ela estava no celular, usando um fone de ouvido. Ou seja, não falava sozinha.
Aquele sujeito que você encontra pela rua, aparentemente sempre feliz, com passos irregulares, não estranho se exalar um odor de açúcar em estado sólido natural depois de fermentado, com roupas de tamanho geralmente menor do que o corpo, doadas por algum varal, já sujas, um pé com sapato e o outro descalço, costumeiramente acompanhado de um cachorro, de vez em quando fala sozinho. Ou com o cachorro, quando o acompanha. Por vezes, ouvimos somente aquilo que desejamos ouvir. A resposta que ele obtém, dele mesmo, dessa conversa aparentemente solitária deve ser satisfatória pois ele continua falando.
Esses sujeitos são profetas! Falam sozinhos e são incompreensíveis. Gênios!!
A vida ensina. E esses, por viverem somente na rua, são PHDs na vida. Sabem de tudo. Passíveis de palestrar em qualquer ambiente. Não compreendem um funcionamento da bolsa de valores, de uma faculdade ou de um computador. Mas quem disse que precisamos? Compreender a vida é e vale muito mais que isso.
Todos falam sozinhos. Ou deveriam. É um bom exercício.
Vergonha é poder roubar e não poder carregar.
Não compreendeu o texto?
Sou um incompreensível.
quarta-feira, 20 de julho de 2011
Memória de um ladrilho
Aí vem um perdido. Droga, pisou em mim. "Tudo bem! Não foi nada. Nem doeu!" Como se ele me ouvisse.
Daqui a pouco vai começar o dia. Acho que hoje é segunda-feira, dia de movimento. Muito movimento. Odeio movimento. Odeio pessoas. E também os cachorros, crianças, pombos, sujeira, resto de comida, formigas, insetos em geral, calor, frio, vento. Odeio esses meus semelhantes que não se mexem. Ficam nessa impáfia, nessa inércia, esperando algo acontecer.
Ugrh! Droga. Não consigo me mexer. Tomara que alguém tope o dedão em mim pra eu sair daqui. É o meu sonho! E tomara que quebre uma unha.
Está amanhecendo.
Um velho para em cima de mim. Pra ajudar, tapando o sol. E eu com frio. O velho, sem se importar com o mundo que está logo ali, abaixo do seu nariz, espirra. Porque já não estava com o lenço a postos? O tempo de levar as mãos ao bolso de trás, abrir o botão, alcançar o lenço e retornar ao nariz é infinitamente maior do que um ranho leva pra sair do nariz e cair em mim.
Só espero que daqui a pouco alguém derrame uma água pra me limpar.
Conheço quase todos da cidade. Mas não conheço ninguém. Uma coisa que me deixa profundamente triste é exatamente isso: não conheço ninguém. Todos passam por mim conversando, mas nunca escuto o final das histórias. Ou o começo. Então eu misturo tudo e fico invento a vida de cada um.
Esse senhor que vem vindo, por exemplo. Todo raquítico, arcado, se tremendo, fedendo a limão, com uma bengala, não enxerga. Ele para aqui todo dia, senta o dia todo e fica vendendo cartão telefônico. Sei que ele é casado, que a mulher é dona de casa e que mora longe. Aí eu imagino que os filhos o abandonaram cedo, hoje são donos de grandes corporações e tem vergonha do pai.
Já é meio dia. Quente. Muito quente. Gente. Muita gente.
Essas duas meninas que vem vindo, ainda sem curvas, estudam no ensino médio, acham um tal de Rafael muito lindo e vivem mentindo para as suas respectivas mães. Elas devem mentir também a respeito desse Rafael. Devem também mentir uma pra outra sobre os planos que arquitetam em namorar esse rapaz. Não dou um ano pra essa amizade terminar.
Fim de tarde. Começa a esfriar. Um cobertor ninguém derruba.
Deus sabe o que faz em não me dar pernas e braços. Porque eu ia bater em muita gente, pra descontar minha raiva.
Já é madrugada. Até que enfim. Sem movimento.
Aí vem um perdido. Droga, pisou em mim.
quarta-feira, 25 de maio de 2011
Corpo são ou mente sã?
Esses dias entrei numa discussão sobre isso, comigo mesmo, claro. Entre corpo são e mente sã, qual eu escolheria? Não demorou muito para a mente ser escolhida.
Nunca dei muita bola pro meu corpo. Tenho LER, constantes dores na nuca, ombro, costas, cotovelos, pulsos, dedos, pernas, se me curvar não alcanço o joelho, se correr por 40 segundos ininterruptos fico 40 horas ininterruptas de repouso e dizem as más línguas que eu criei barriga (ora, vê se pode!).
Uma vez eu pensei em fazer natação. Já fiz quando era criança. Dizem que é o esporte mais completo. Foi quando eu percebi que é muito mais barato ser sedentário.
Já pra ter a mente sã não custa muito. Não estou falando de escola ou faculdade. O aprendizado da rua é infinitamente superior. Não há nada melhor do que uma boa discussão sobre qualquer assunto na mesa de um bar. Já dizia Adoniran Barbosa e Carlinhos Vergueiro: "Vamos almoçar, sentados na calçada. Conversar sobre isso e aquilo. Coisas que nóis não entende nada".
A mente também se desenvolve a partir de um questionamento simples: "porque?"
Repetindo esta pergunta, que incomoda muita gente, e não se contentando com um "porque sim" ou "porque não", a nossa mente vai longe. Já diria o Telekid, do Castelo Rá-tim-bum: "Porque sim não é resposta!"
O que farei com meu corpo quando estiver velho? O corpo não estará tão são. Por mais que eu me cuide hoje.
Enquanto que a mente ficará mais sã, esbanjando saúde e transmitindo todo o conhecimento acumulado durante os anos aos mais novos.
Com a minha mente posso deixar cravado no mundo minhas idéias, opiniões, mostrar para o que vim.
Não é questão de vaidade, de querer aparecer. Todos tem um propósito nesse mundo. Infelizmente, nem todos descobrem. Também não sei qual o meu. Mas não creio que o propósito seja ser "bonito". Isso não é deixar marca. É passar pelo mundo sem utilidade. Literalmente, e somente, mostrando pra que veio, mas não sendo nada útil pra sociedade sem uma mente. O mundo passa por nós todos os dias, enquanto passamos pelo mundo uma vez, parodiando Manacéa. Temos um objetivo. Nessa única vez, usemos a cabeça e não castiguemos o cérebro.
Sócrates, Platão, Napoleão, Hitler, Einstein, Abdias Nascimento, Malcom X, Mandela, Luther King, Paulo da Portela, Candeia, Chiquinha Gonzaga, entre outras pessoas. Pro "bem" ou pro "mal", eles não marcaram o mundo por serem bonitos, mas por pensarem. E agir, a maioria.
Entre meu corpo cansado e minha mente a milhão, fico com minha mente.
Quando terminei esse texto, lembrei do meu amigo Jorge Jr.
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