quinta-feira, 26 de junho de 2014

[HSF] “Teve um tremendo pagode que você nem pode imaginar”

Essa é a última parte da série de postagens com a reportagem que eu fiz pro meu TCC sobre a história do samba de Florianópolis com o título de "Os famosos anônimos na construção do samba em Florianópolis", defendida em dezembro de 2013.


“Pagode” sempre foi definido como uma festa com música. Não necessariamente samba. No nordeste, por exemplo, esse termo também é usado para definir uma festa regada a forró. De “festa onde tem samba” para um apelido para o próprio samba, é um pulo. As pessoas usavam este termo de várias formas: “Fui num pagode bom”, “Eu sou do pagode”, “Fiz um pagode novo, escuta só”.

Foto de 2003 com os sambistas do Morro da Caixa que faziam sambas na década de 1980. De boné branco e óculos escuros na cabeça, Jorge Nascimento. Acervo Jorge Nascimento.

Os anos de 1980 foram uma época de transição. O termo “pagode” começa a ter nova definição. O que era usado como uma festa, ou sinônimo para samba, passa a ser usado como uma variante do samba. Um ritmo mais lento, temas mais românticos, inclusão de outros instrumentos como o teclado e a guitarra. As gravadoras percebem que há um nicho de mercado ainda a ser explorado e começa a investir neste meio e difundir o “pagode” com esse formato mais romântico. Disputando com esse novo formato de pagode, há os que ainda utilizam o termo “pagode” pra designar um sinônimo de samba. Esta confusão persiste até hoje em dia.

Com a popularização do pagode, André Calibrina, da Aeronáutica, Chulapa, da Marinha, e outros marinheiros, trazem este estilo para Florianópolis em fins de 1985. Às sextas-feiras organizavam um pagode (ou samba) no Bar do Petit (atual Bar Canto do Noel), na Travessa Ratclif, no Centro da capital, com uma caixa de cerveja fornecida pelo dono do bar para o grupo. Pela facilidade de poder usar os aviões da Base Aérea, eram trazidos vários vinis do Rio de Janeiro, com as novidades dos sambas de lá: Fundo de Quintal, Zeca Pagodinho, Jovelina Pérola Negra. Maguila, um dos participantes do pagode, sugeriu então montar um grupo. Nascia o Mistura Fina.

André Calibrina conta que o Mistura Fina e demais amigos, iam até a Barra da Lagoa pra fazer um samba descompromissado, sem cobrança de ingresso. Iam de ônibus mesmo. O repertório era recheado de Bezerra da Silva. Passados cerca de 40 anos desde os primeiros registros de samba, com uma quantidade muito maior de músicos, os espaços para sambas ainda eram escassos.

Depois do surgimento do Mistura Fina, vários outros grupos são formados para acompanhar a moda. Segundo o sambista Bira Pernilongo, o “Pagode pra Senti Firmeza”, de Celinho da Copa Lord, foi feito em homenagem a um desses grupos.

No Mercado Público, como tinha movimentação de samba, criou-se o Projeto Fundo de Quintal, de terça a sexta, das 19h à meia noite. O evento terminava, efetivamente, faltando 15 minutos para meia noite, para que houvesse tempo dos músicos e público pegarem o último ônibus que saía do Terminal Cidade de Florianópolis. Os locais afloram: Clube Tiro Alemão, na Avenida Mauro Ramos (atual Igreja Universal do Reino de Deus), onde Frank e Carvalhinho embalavam o público com samba-rock; Bar do Ênio (atual Centro Sul), aos sábados à tarde, onde o “Samba Sete” tocava; Quiosque do Umbu (atual Associação dos Empregados da Eletrosul – Elase), onde o Mistura Fina tocava; próximo da Praça do Saco dos Limões (atualmente há uma Igreja); sede da escola de samba Copa Lord, no Morro da Caixa; sede da escola de samba Coloninha; Bar do Cal, próximo da sede da Coloninha; Clube Barrufa; Sociedade Recreativa e Cultural Limoense, no Saco dos Limões; Cobra Criada, próximo do Shopping Itaguaçu, em São José.

Os concursos de sambas de quadra ainda continuavam sendo realizados, no ginásio da Fundação Atlética Catarinense – FAC, no Clube Umbu ou na ELASE. Neste último, num concurso da Consulado, o compositor Cláudio Caldas chamou a cantora Maria Helena, que se apresentava na Sociedade Recreativa e Cultural Limoense, para participar defendendo o samba “Deixa que te ame”, acabando por se tornar o vencedor do primeiro concurso dessa escola.

André Calibrina conta que o compositor Paulinho Carioca organizava um encontro de grupos de pagode para difundir e divulgar os sambas e os grupos. Eles saíam a pé, tocando pelas ruas, acompanhados de uma caixa de som para amplificar alguns instrumentos e voz. Sem local fixo para se apresentar, a saída era tocar no meio da rua.

Além dos locais fixos citados, o samba acontecia em eventos aleatórios. É nesses lugares que pessoas que não participavam de grupos mostravam seu valor como compositores, cantores, improvisadores, percussionistas ou com instrumentos de corda: Paulinho Carioca; Maguila; Elias Marujo; Maranhão; Dica; Jorge Luis; Serginho Chapadão; Bira Pernilongo, Pireli; Djalma; Lagartixa, o Rei Momo; Carlinhos do Pandeiro; Carlinhos do Pandeiro, do Monte Verde; Carlinhos da Tuba, chamado de Nego Beiçola; Mestre Rato; Pirelli; as cantoras Jane, Fafá, Brenda, Elisah. Alguns destes citados atualmente estão afastados do meio do samba. Outros, infelizmente, já falecidos.

Na década de 1980, os batuqueiros do morro continuam suas atividades. Jesus, no cavaco; Jorge; Gonzaga Boca de Cantor; Adilson; Pacote, no pandeiro e tumbadora; Tonho no violão de 7 cordas; e Nego Fifi, no surdo, grupo de sambistas que se juntavam para tocar sem formar um grupo com nome. O grupo não era acostumado a usar aparelhagem de som, nem “boca de ferro”, como era chamado o microfone. Eram sambas feitos acusticamente e muitas vezes no improviso, usando caixa de leite, que o leiteiro deixava no armazém, garrafa, lata, prato e faca. O que fosse encontrado virava instrumento. Alguns moradores até paravam para ver, ouvir, e apreciar a música, muitas vezes, até de madrugada. É esse grupo que vai dar início às primeiras rodas de samba no Silvelândia, na década de 1990, lembrado até hoje pelos que frequentaram como a melhor roda de samba da história de Florianópolis.

Nos fins de 70 e início de 80, despontam, também, os grupos regionais, com violões, cavacos, bandolins, flautas e pandeiro. Choro, sambas, sambas cançõese serestas estavam em alta.

É nesse embalo que surgem os grupos Vibrações, Nosso Samba, Regional do Paulo Guimarães, do bandolim; Regional do Zequinha, também compositor; e Regional do Chiquinho, segundo Irê Silva, um barbeiro do Morro da Mariquinha, que fechava a barbearia às 18h e ficava tocando na porta do estabelecimento com seu grupo.

Na Beira-Mar Norte havia o Iate Clube Veleiros. Nesse clube, participavam João Medeiros, reconhecido como um grande cantor, manco por conta de um problema na perna; Seu Noca, o do cavaco, que também cantava; Célio, do bandolim; a cantora Cleide Amon; Aldo Gonzaga, no piano; a cantora Neide Maria Rosa; Paulo Padilha; Mazinho do Trombone; Djalma; Wagner Segura, no cavaco; e Alberto Vitor, também cavaquinista.

Wagner Segura, paulista, chegou em Florianópolis ainda criança e já adulto começou a estudar música com Laércio, que também ainda se encontra em atividade. Estudava, também, com o violonista de 7 cordas Eduardo, afastado do mundo do samba por questões pessoais, tio do sambista Dôga, que desponta nos anos 2000.

Laércio, por sua vez, aprendeu muito com o violonista Yvonésio Catão, também cantor de seresta. Yvonésio acompanhou por diversas vezes Neide Maria nas rádios e é avô de George, que viria a ser cavaquinista do samba no Silvelândia, em fins da década de 1990.

Na Lagoa da Conceição, leste da Ilha de Santa Catarina, a cantora Neide Maria Rosa era proprietária do Restaurante Saveiros, também local de encontro de sambistas e chorões. Mais tarde, Neide fundou o bar Lá na Neide, no Centro da capital, que durou poucos meses. Em sua residência também eram organizados encontros.

Por um período, antes da criação do Bar do Tião, aos domingos, depois do futebol, por volta das 19h, na praçinha do bairro Monte Verde, um pessoal, a maioria anônimo, se reunia para tocar choro. Entre os identificáveis, Zequinha; Nilo Dutra, no clarinete; e Carlinhos do Pandeiro do Monte Verde, falecido em 2013.

Mais tarde, foi aberto o Bar do Tião, em 1992, anexo à residência do próprio Tião, no Monte Verde, que se tornou uma referência de samba na cidade até hoje. Esse bar foi criado por alguns motivos: entre eles, por não haver um local para se tocar samba; por pedido da esposa do Tião, que não queria mais o marido nas noitadas da cidade; e, de forma natural, pois a casa do Tião já era um ponto de encontro dos músicos e onde se faziam sambas e serestas.

Outro bom cantor e compositor dessa época é Wilmar Silveira, seresteiro. A família resolveu gravar o áudio de algumas festas em que se executavam suas músicas, a fim de que elas não fossem esquecidas. Esse acervo está com Wagner Segura.

Vez ou outra havia um intercâmbio com músicos cariocas. A história costuma se repetir. É cíclica. Foi exatamente assim que surgiram os primeiros sambistas em Florianópolis. Mas dessa vez, Wagner Segura foi estudar música no Rio de Janeiro e trouxe para Florianópolis o modo de tocar sambas por cifras. Era o início da profissionalização dos músicos na cidade. Na década de 90, Wagner abriria o Centro Musical Wagner Segura, responsável pelo ensino da maioria dos músicos de samba e choro que se tornaram profissionais. Diz-se, até, que Wagner ensinou metade dos músicos de Florianópolis. A outra metade teve aula com os alunos dele.

A década de 1980 foi de experiências. Com o surgimento de uma nova roupagem para o samba e com a popularização do choro em Florianópolis, primo musical do samba, essa geração aproveitou o momento para experimentar novas formas de tocar, cantar, novas músicas, novos lugares, instrumentos. Aproveitaram, também, para estudar. Era tudo muito novo. Quem não acompanhasse as inovações, estaria, fatalmente, fora do ambiente de samba.

No Centro da cidade, o Restaurante Gralha, fundado nos anos 90, passa a abrigar sambas e serestas. Isso porque a proprietária era a cantora Maria Helena, que vinha do Rio de Janeiro e trazia seu irmão Bira 7 Cordas para comandar a parte musical.

Silvelândia em 1999. Jeisson ao microfone, Cachaça de gorro e George no cavaquinho próximo da caixa de som. Acervo Jeisson Dias.

Atrás do Clube 12 de Agosto, na Avenida Hercílio Luz, próximo do Ministério da Fazenda, havia uma pequena garagem, o restaurante Chega Mais. Nesse lugar, reunia-se, nos fins de tarde, um grupo formado por Jesus, Jorge, Gonzaga, Adilson, Pacote, Tonho e Nego Fifi, todos do Morro da Caixa. Cerca de 300 pessoas iam assistir a roda de samba. Foi em um desses encontros que apareceu um “branco metido”, como foi internamente chamado, com um tantã, cujo som abafava a timba que o grupo usava. Era Du Seara, que despontava como percussionista. No local hoje funciona um chaveiro. Próximo do carnaval, em meados de 1994/1995, esse grupo começa a fazer samba no Silvelândia, um bar próximo da Catedral. Foi lá que o grupo conheceu outro “branco metido”, Jeisson Dias, tocando banjo, até ser interrompido por sua má execução na época.

Pouco tempo depois, em 1996/97, Jeisson começa a organizar uma roda de samba no quiosque da Praça Pereira Oliveira (Praça do Teatro Álvaro de Carvalho – TAC). Semanas depois, muda o local e passa a tocar no Silvelândia. O grupo do morro já não tocava mais. Nesse bar, Jeisson organizava, toda quarta-feira, a que é considerada por todas as fontes que frequentaram o local como a melhor roda de samba que Florianópolis já teve. Jeisson Dias, Cachaça e George, no cavaquinho, eram praticamente os únicos fixos. Nessa roda de samba, todos tocavam tudo. Guilherme Partideiro, violonista, lembra que chegava e perguntava ao Jeisson qual instrumento que gostaria que ele, Guilherme, tocasse, pra ajudar. Frequentemente sobrava o repique de mão. Muitos músicos surgiram dessa roda. Jeisson também compunha. Um samba seu era o ponto máximo do Silvelândia, “Meu lar é residência do samba”. Em 2000, houve um incêndio no bar e o samba acabou.

Na mesma época de criação do samba no Silvelândia, em 1997, surgia um grupo no bairro Jardim Dona Adélia, em São José, o Um Bom Partido. O grupo tinha o propósito de cantar sambas antigos. Era um repertório diferente de outros conjuntos da época.

No ano do incêndio do Silvelândia, formava-se, em São José, um movimento de partido alto, modalidade de samba feito de improviso. Nesse movimento, na sede do Centro Comunitário de Forquilhinhas, em São José, surge o grupo Número Baixo. No mesmo ano, no Morro da Caixa do continente, dentro de um programa social, surge o grupo Novos Bambas.

Nessa época, havia ainda os grupos Coisa da Antiga e Kadência do Samba. Esses, e mais os grupos Número Baixo, Novos Bambas e o Um Bom Partido, faziam os Encontros de Samba Raiz no Arte Brasil, no bairro Costeira.

No Casarão, na Praça XV, Maria Helena cantava sambas e sambas-canções. O Casarão também foi palco para apresentações de Um Bom Partido.

Projeto Cultural Mantendo as Tradições no Praça 11, comandado pelo grupo Número Baixo. Registro feito por Artur de Bem em 2006.

Em 2004,é inaugurado o Restaurante Praça 11, em São José, cujo proprietário é o Amarildo, exintegrante do grupo Um Bom Partido. Em fevereiro de 2005, tem início o Projeto Cultural Mantendo as Tradições, todo sábado, organizado pelo grupo Número Baixo. O objetivo principal desse encontro era apresentar sambas locais, incentivar novos instrumentistas, cantores, compositores e partideiros, aqueles que improvisam. Pretendia-se, com o formato de roda de samba, ao invés de palco, facilitar a integração e interação dos músicos com a plateia.

Posso assegurar que o Projeto deu resultado. Eu fui frequentador do Praça 11 por quase 2 anos ininterruptos. A primeira vez foi dia 9 de julho de 2005, no aniversário de um amigo. A partir da segunda visita, comecei a ter contato com os músicos a ponto de me tornar amigo íntimo deles, participar de viagens, ajudar na organização de eventos e interferir, um pouco que seja, na história do samba da cidade. Atualmente assumi o posto de cavaquinista do grupo Um Bom Partido. Com a minha interferência no samba da cidade, termino a minha pesquisa. O que acontece depois disso, já não seria mais necessário fazer pesquisa. Apenas lembrar do que vivi.

A partir de 2005, decidi por não contar mais sobre a história, sobre os personagens, para evitar falar de mim mesmo. Deixemos isso a cargo de um próximo jornalista.


*Pagode pra Senti Firmeza
(Celinho da Copa Lord)

Esse é o pagode pra Senti Firmeza
Vejam, gente, que beleza
Quem quiser pode chegar
Tem samba de Guineto e Pagodinho
Alcione e Martinho
Dona Yvonne Lara
Também tem samba de João Nogueira
Beth, maior pagodeira
Clementina e Guará
Só Preto Sem Preconceito, meu senhor
Lá no Fundo de Quintal teu chamego me ganhou

E tem Bezerra que é fera no partido
No terreno do improviso Jovelina vai versar
Roberto Ribeiro, Marquinhos Sathan e Pedrinho da Flor
Isso é pra Senti Firmeza
Nosso samba arrebentou


*Meu lar é residência do samba
(Jeisson Dias)

Meu lar é a residência do samba
E não adianta a luz se apagar
Que assim mesmo existe um bamba
Balança a massa super tropical
É um ritmo fundamental
Que faz o meu povo cantar e sambar

O samba é um abraço
O samba é a corda
O samba é oração
E quem vem pra uma longa viagem
Até desafia a imaginação
Para o mundo inteiro já posso provar
Na escola de samba ou na mesa de bar
É só o samba que faz a alegria em qualquer lugar

terça-feira, 17 de junho de 2014

[HSF] Produções

Florianópolis não possui uma cultura muito forte de gravar discos, muito menos de samba. A maioria dos vinis ou CDs de grupos do gênero foram gravados no Rio de Janeiro ou São Paulo. Há alguns estúdios na cidade, mas poucos dedicados ao estilo e por vezes falta dinheiro aos grupos para bancar um bom estúdio. Com tudo isso, mesmo quando um CD é gravado em Florianópolis, dificilmente há um trabalho de continuidade e distribuição. Grava-se o CD e passado alguns meses, o CD cai no esquecimento. Do próprio grupo, as vezes. Tudo isso influi no personagem compositor. Não havendo uma cultura de gravação, consequentemente, não há cultura de composição. Até porque, desde o princípio, o samba veio do Rio de Janeiro já pronto, por vezes incluindo as músicas, apenas reproduzidas em Florianópolis.

Em fins da década de 1970, em 1978, 79, a casa da Wânia Farias, da Velha Guarda da Protegidos, na Base Aérea, era muito frequentada por alguns dos sambistas aqui apresentados como Marco do Violão; Sabaráh; Mauro Brito, músico carioca; e jogadores de futebol. É nesse local que Wagner Segura começa a tocar, cavaquinho. Depois passa pelo bandolim e se populariza no violão de 7 cordas.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

[HSF] “Assim já posso ser compositor”

Nas rodas de samba de Florianópolis, eram tocados os sambas que vinham principalmente do Rio de Janeiro. Até a década de 1970, não era costume entre os florianopolitanos compor sambas. Mesmo que sempre existindo a figura do compositor, os sambas eram feitos apenas em festas de famílias e não eram registrados de nenhuma forma. Findada a festa, as músicas eram esquecidas, junto com os autores.

Os primeiros compositores que foram reconhecidos como tais eram aqueles que faziam parte das escolas de samba. Mesmo assim, não havia entre eles o hábito de compor para as escolas e nem sempre apresentavam sambas nos carnavais. Havia uma ou outra composição, mas o mais comum era desfilar com sambas de escolas do Rio de Janeiro de anos anteriores. E mesmo quando as escolas desfilavam com sambas locais, nem todos eram catalogados. Em 1956 houve o registro. A Copa Lord desfilou com o samba “Vem forasteiro”, de Avez-vous. Na década de 1970 essa cultura muda, e as escolas passam a desfilar integralmente com produções locais.

Fora do ambiente das escolas de samba, não havia quase nenhum compositor. No fim da década de 1970 e nos anos 80, Aldírio Simões organiza concursos de músicas e de samba de quadra da Protegidos e Consulado, que incentivam os compositores já consagrados, guardadas as devidas proporções, das escolas, e estimulam o aparecimento de novos. É desses concursos que surgem, entre outros nomes, Zuvaldo, João Carlos, Nazareno, Mato Grosso, Josué Costa, Dica e C. Bernard, o Mickey. Este, africano, morou muito tempo no Rio de Janeiro e Porto Alegre antes de fixar residência em Florianópolis. Mickey era conhecido por ser um bom compositor e também por ser briguento. Tinha o costume de impor suas idéias e convicções, mas não aceitava muito uma controvérsia.

Na Copa Lord, o primeiro compositor foi Avez-vous. O hino da escola, “Quem vem lá” é cercado de lendas e boatos. O samba seria da escola de samba Canário das Laranjeiras, do Rio de Janeiro, trazido a Florianópolis por Lambreta, membro de uma das escolas de samba de Florianópolis, e apresentado a Avez-vous e Armandino Gonzaga, presidente da Copa Lord na época. O samba acabou por ser registrado com autoria de Avez-vous e Fogão, ex-goleiro do Botafogo e do Avaí, com breve passagem por Florianópolis. No Rio, na sede da Canário de Laranjeiras, a atual diretoria informou não conhecer este samba. Os fundadores da escola são membros da velha guarda, mas não foram localizados.

Depois de abertas as porteiras, surgiram outros compositores como Nelson Wagner, autor não só de sambas, mas de valsas, choros, canções. Nelson é irmão do Tazo, que foi proprietário do Bar do Segundo depois do Seu Secundino.

Em 1978, quando Armandino Gonzaga, o eterno presidente da Copa Lord, faleceu, o professor Lucas de Jesus, um admirador da escola, compôs um samba de quadra em sua homenagem, cantado até hoje pela Velha Guarda da escola. Não se tem mais registro de outro samba composto pelo professor Lucas.

Tião, que surgiu no Morro da Caixa e colocou o bairro Monte Verde no mapa do samba nacional com seu bar, também compunha, mas não para o carnaval. Suas músicas eram, na grande maioria, sambas-canções.

Além dos concursos, outro fator que contribuiu para o surgimento de novos compositores é o pagode, que explode em todo o Brasil na década de 1980. Leonel Januário, Paulinho Carioca, Bira Pernilongo, Maguila, Jorge Luiz, André Calibrina, Elias Marujo, Mato Grosso, entre outros, são alguns dos mais lembrados compositores de pagode de Florianópolis. Muitos deles já compositores com passagens pelas escolas de samba, que se voltam à produção de sambas para grupos. Não havia motivação, pois as músicas não eram gravadas e nem executadas em rádio.

Será no fim da década de 1990, com o surgimento de grupos de samba com uma nova proposta, de cantar sambas mais antigos do Rio de Janeiro, com uma roupagem diferente do que era executado em Florianópolis, é que aparecem compositores novos, como Dinho, Jandira, Fabricio Gonçalves, Jeisson Dias. Nos anos 2000, a lista aumenta: Dôga, Raphael Galcer, Guilherme Partideiro, Marçal do Samba, Rafael Leandro, Marcelo 7 Cordas, Du Kadência.

Alguns compositores como Mirandinha, Cipriano, Waldir Brasil e Zininho compunham e executavam suas músicas para serem tocadas nas rádios locais. Essa turma encontrava-se sempre no Miramar, restaurante que ficava no Trapiche Municipal, na época bastante frequentado por todos os artistas da cidade, e que foi derrubado na década de 70 por conta do aterro. Cláudia, filha de Zininho, relata que ele fez uma carta, assinada por outras pessoas, e entregou ao prefeito, solicitando que o Miramar não fosse derrubado. Tempos depois, alterou uma palavra aqui, outra ali, musicou, e saiu um samba com o nome do restaurante.


*Tributo a Armandino Gonzaga
(Lucas de Jesus)

Mas quem vem lá
De amarelo, vermelho e branco
Assim você cantava
Com seu sorriso franco
Hoje a saudade em verso se transformou
Cantando pra um amigo
Que se foi pra longe
Todo mundo viu e chorou
E quando eu me encontro no morro
Por mais que eu procure
Não vejo você
Amigo, viemos pra avenida
Com lágrimas sentidas pra lhe exaltar
Láláláiá, a Copa Lord vem homenagear
Láláláiá, ao Armandino esse amigo sem par


*Miramar
(Zininho)

Digníssimo senhor prefeito
Mui respeitosamente
Estamos diante de Vossa Excelência
Para pedir humildemente
Senhor prefeito
Por favor, mande recuperar
O nosso velho e querido Miramar
Pergunte ao Waldir Brazil
Daniel, Narciso e Dião
E a outros velhos boêmios
E eles também dirão
Que era ali
Que nasciam as serenatas
Era ali que os sambas nasciam
Ao som de um violão
Senhor prefeito
Por favor, mande recuperar
O nosso velho e querido Miramar

terça-feira, 10 de junho de 2014

A higienização da cidade

Começo do século XX, década de 1900. Rio de Janeiro. O prefeito Pereira Passos inicia um processo de limpeza urbanística. Derruba todas as pensões, os cortiços, as vilas de moradores pobres do Centro da cidade para abrir espaço para novas avenidas. Sem ter para onde morar, e sem qualquer preocupação da Prefeitura sobre que fim teriam essas pessoas, elas vão para os morros.

100 anos depois, quando a gente pensa que o mundo estaria mais evoluído, mais civilizado, em São Paulo, Porto Alegre e demais cidades do país acontecem vários "acidentes" em diversas comunidades pobres, causando grandes incêndios, que as tira do mapa. De novo o Estado não se preocupando com as pessoas. Coincidentemente, é período de Copa do Mundo.

Em Florianópolis não haverá nenhum jogo da Copa. Nenhuma casa está sendo demolida, nenhuma comunidade está sendo devastada. Quer dizer... bem... Mas a cidade está passando por um processo semelhante. E o Centro da cidade está mudando.

Há muitos anos que os comerciantes pedem que a Prefeitura dê mais assistência para o lado pobre do Centro. Do lado de cá da Praça XV. Do lado dos Correios. Do lado da Rua João Pinto. Do lado da tendinha do Seu Cláudio. Do lado da Escola Estadual Antonieta de Barros. Do lado da Rua Tiradentes. Do lado do Hotel Royal. Do lado do Bar do Milton. Do lado da Travessa Ratclif. Do lado do Bar do Noel.

Alguns desses lugares já não existem mais. A tendinha do Seu Cláudio, que funcionou por uns 30 anos. A Escola Antonieta de Barros, que fechou as portas há uns 10 anos. O Hotel Royal, que agora é um prédio comercial. O Bar do Noel, que já não é mais o Bar do Noel, mas o Bar do Vinícius de Moraes. Moraes e bons costumes.

A Travessa, e arredores, sempre foi um lugar underground. E o que significa underground? Traduzindo literalmente do inglês, um degrau abaixo. Um nível abaixo. Submundo. A região era um local de comunistas, mendigos, vereadores, secretários, jornalistas, bêbados, adolescentes ávidos para mudar o mundo, etc. Sempre vivendo em harmonia.

Mesmo frequentada por pessoas da pior espécie, a escória da nossa sociedade imbecil, malandro não se criava na Travessa. Ela tinha figuras emblemáticas que cuidavam dela: Seu Amilton e o Sandrão, por exemplo. Talvez por serem, eles mesmos, parte dessa escória da nossa sociedade imbecil. Hoje, infelizmente, eles já não mais trabalham lá.

O que acontece agora é uma higienização da Travessa. A cerveja que era vendida a preços populares de R$ 5, R$ 6, agora é vendida a R$ 9. Com os 10% chega a R$ 9,90. Logo, arredonda-se pra R$ 10. E nem é litrão.

A Travessa sofre com um mal que assola vários locais do país: o efeito Veja. Um bar ganha o título de melhor bar do ano da revista e passa a ser frequentado por toda uma classe média. Um degrau acima. Um nível acima. O mundo. Pseudo-comunistas, cocainômanos, universitários, trabalhadores de escritório com ar condicionado.

Pra ajudar a piorar a situação, moradores de rua que moravam ali, na Travessa, João Pinto, Vitor Meirelles, Nunes Machado, na rua, estão sendo "convidados a se retirar" da região. Um deles, com uma barba grande, já foi encaminhado para sua cidade de origem, Porto Alegre. Meio contra a sua vontade, mas se ele saiu das ruas de Floripa é o que importa, né?

Trabalho muito bem realizado a partir de uma força tarefa da Polícia Militar e Prefeitura Municipal de Florianópolis. Só falta remover agora os outros cerca de 500 moradores de rua. Dispostos, PM e PMF?

E o que faz uma pessoa morar na rua? Falta de oportunidade de trabalho, falta de lugar pra morar, brigas com a família, drogas. São cerca de 500 motivos. Mas a solução é uma só: "convidar a se retirar" da rua e encaminhar pra sua cidade de origem. Pra que se importar? Pra que tentar resolver seus problemas? São só moradores de rua. Eles que procurem resolver os seus problemas sozinhos. Fora das ruas. Em casa. E pouco importa se essa casa tem estrutura. Se a família tem condições. Isso é problema deles.

Conheci alguns moradores de rua. Alguns bilíngues, outros com ensino superior completo. Músicos, atores, e demais profissões. Quem diria.

Florianópolis não está devastando comunidades? É uma questão de ponto de vista. Os moradores de rua estão sendo dizimados. O Centro da cidade está sendo devastado, descaracterizado. O Centro precisa de moradores de rua? Não. Mas eles precisam ser tratados, e não simplesmente tirados forçadamente das ruas.

A Prefeitura quer “limpar” o Centro, mas não se preocupa, por exemplo, em arrumar o sistema de esgoto, que mensalmente cisma em querer subir para as calçadas, trazendo à tona, literalmente, a merda toda. É a resistência do underground! Do submundo! E quando tem samba na Travessa, ela lembra a Lapa. Que bonito! Só que o Rio e a Lapa, principalmente, fedem a urina.

Na região, sintetizando tudo isso, tem um espaço que tem um trabalho de quase 20 anos com prostitutas, usuários de drogas, pessoas com problemas de saúde mental, presidiários. Aquela escória da nossa sociedade imbecil. Além disso, o espaço se preocupa, também, há anos, com a parte cultural. Esse ano de 2014 são 8 oficinas sendo oferecidas gratuitamente: dança afro, samba, violão, coral, capoeira, figurino, informática e percussão. Só que isso tudo está perigando acabar porque sofreram uma ação de despejo de uma universidade pública.


E assim, o Centro da cidade – que tem uma história de cultura para os pobres, mendigos, moradores de rua, feito muitas vezes por eles próprios, que todo mundo acha bonito quando vê na TV, mas que ninguém quer por perto – agora vira as costas para a escória da nossa sociedade imbecil, renega seu passado, e passa a fornecer “cultura” para membros da nossa classe média, que entopem o nariz de cocaína, mas são da classe média, aí pode.

sábado, 7 de junho de 2014

Um Toco de choro

O famoso anônimo Toco Preto ganha um cd todo em sua homenagem

Artur de Bem

A primeira rotação do disco passou comigo lendo o encarte. Nunca li um encarte com tanta tranquilidade e serenidade. Mesmo com os tiros que, dizem, terem disparado no morro onde moro na tarde em que me deliciava com o disco.

Na segunda passada do disco, chorei. Chorei por causa da beleza das músicas e com o esmero da execução. Mesmo conhecendo o pouco que conheço de Agnaldo Luz e Luizinho 7 Cordas, sei que o trabalho foi realizado com muito amor e competência, que lhes compete. É o primeiro disco autoral de Agnaldo e o 2º de Luizinho, que tem 54 anos de carreira, e já participou de outros tantos álbuns.


E Agnaldo Luz estreia brilhando. A começar pela escolha do repertório. Todo em homenagem ao grande chorão Toco Preto. Depois, pelo competentíssimo Regional que o acompanha: Luizinho 7 Cordas, Ricardo Cassis no violão, Gustavo Cândido no cavaquinho e Pedro Pita no pandeiro, e as participações de Leonardo Miranda na flauta, Nailor Proveta no clarinete, Yuri Reis no cavaquinho, Oswaldinho do Acordeon, e do próprio homenageado, Toco Preto, fazendo uma participação em uma faixa, no cavaquinho. E como bem disse Pedro Amorim no texto do encarte, “neste disco não tem nota jogada fora”. O CD tem 2 músicas inéditas de Toco Preto: "Malvina" e “Recordando os velhos tempos”, em parceria com Agnaldo.

E quem é esse senhor com apelido de entidade da umbanda? É uma entidade do choro! Toco Preto, nascido Ormindo Fontes de Melo, é um dos maiores cavaquinistas do Brasil. E por ser um dos grandes da nossa cultura, quase que por regra, é um famoso anônimo. O apelido nada tem a ver com a religião. Ganhou ainda criança, quando raspou o cabelo.

Aos 8 anos começa seu interesse pela música, por influência do pai, que tocava cavaquinho. Aos 20, demonstrando muita habilidade em seu instrumento, entra para a Rádio Mayrink Veiga, que na época era uma das principais rádios do país. Já ostentando certo prestígio no meio musical, foi convidado pelo compositor, pianista e radialista Ary Barroso para integrar o conjunto musical do programa de calouros intitulado “A Hora do Calouro”, programa que obteve grande êxito e sucesso por vários anos e até os dias de hoje é copiado pela TV Brasileira.

A partir da década de 70 Toco Preto evidencia sua carreira como solista gravando 9 Lp’s. Em 1977, por iniciativa de Hermínio Bello de Carvalho, fundou, ao lado de Zé da Velha (trombone), Josias (flauta), Rubens (piston), Valdir (violão 7 cordas), Jairo (violão 6 cordas), Parada (surdo) e Jayme (pandeiro), o “Grupo Chapéu de Palha” e com o mesmo lançou dois Lp’s: o primeiro em 1977, e o segundo em 1979. Em 1980, com o fim do grupo, Toco Preto muda-se para São Paulo por intermédio de Pedro Sertanejo (pai de Oswaldinho do Acordeon), grande produtor de discos de forró e proprietário da gravadora Cantagalo, com a promessa de realizar inúmeras gravações, e assim foi feito.


Escondido em São Paulo desde a década de 1980, Toco Preto estava quase esquecido. Muitos achavam que ele já tinha morrido. Agnaldo, que mora na capital paulista, soube que o mestre estava morando na mesma cidade e foi procurar conhecê-lo. Depois de alguns dias tentando marcar um encontro, finalmente conseguiu agendar uma visita até a residência do mestre. Chegando por volta das duas horas da tarde e saindo por volta da meia noite. Foi um bom primeiro encontro. Dos encontros que se seguiram, Toco apresentou coisas que Agnaldo nunca tinha ouvido, e Agnaldo apresentou coisas do Toco que nem o próprio tinha.

Toco Preto teve a oportunidade de se apresentar ao lado de grandes nomes da música brasileira além de Ary Barroso; Odete Amaral, Dircinha Batista, Roberto Silva, Ciro Monteiro, Ademilde Fonseca, Gilberto Alves, Orlando Silva, Orlando Correia, Claudete Soares, Luiz Gonzaga, Cartola, Nelson Cavaquinho, Jamelão, Waldir Azevedo, Carmem Costa, Abel Ferreira, Altamiro Carrilho, Otaviano Pitanga, Mario Pereira, Genival Lacerda entre outros.

Toco esteve ao lado de grandes nomes da música brasileira. Luizinho, apesar do diminutivo, é grande! Agnaldo é novo. Mas nem por isso diminui sua importância. Agnaldo é grande! Toco esteve ao lado de grandes nomes da música brasileira e agora, ou já há algum tempo, se torna, ele mesmo, apesar de toco, um dos grandes da música brasileira.

Dentre cerca de 300 músicas, e de um universo musical variado, que permeou por guitarras, bandolins e cavaquinhos, Toco Preto tem composições que vão de músicas pra gafieira até o choro. Para o CD, foram escolhidos os choros, para se tocar por um regional. Foi gravado, basicamente, em 3 dias de seção de estúdio. 18 horas de gravação. No último dia foram gravadas as participações. Ensaiaram, ensaiaram, para poder passar o menor tempo possível no estúdio. Gravando todos juntos. Como deve ser.


Esse CD é um marco na história do choro no país. Não houve nenhum trabalho anterior deste tipo para servir como referência. Agnaldo e Luizinho são a referência. São pioneiros. Medo da responsabilidade de ser pioneiros? “Não. Acho que não. Quando a gente põe o coração e a boa vontade na frente, as coisas acontecem com naturalidade. E a única coisa que a gente esperava era a alegria dele (Toco). E isso a gente conseguiu. Acho que o objetivo foi alcançado. O que vier agora é lucro”, responde Agnaldo.

Mais do que um belo CD, com belas músicas, belas execuções, o CD consegue transmitir a alegria e a emoção do reencontro de velhos amigos como são Toco Preto, Luizinho e Oswaldinho, amigos de longa data, recordando os velhos tempos, e os de pequena data, como Agnaldo e os músicos do regional. É um reencontro e uma reapresentação do Toco Preto aos músicos e ao mundo.

Toco Preto nasceu em 7 de junho de 1933. Hoje ele faz 81 anos.

Parabéns, Toco Preto! Você merece isso e muito mais!




E pra quem quiser adquirir essa preciosidade, pode procurar Agnaldo Luz no facebook ou enviar um e-mail para agnaldo.bandolim@gmail.com. O valor? R$ 25 com frete incluso para todo Brasil! Eu recomendo!

terça-feira, 3 de junho de 2014

[HSF] “Digníssimo senhor prefeito”

Airton de Oliveira, que até o início de 1980 respondia pela Diretoria de Turismo de Florianópolis, a Diretur, quando passou a se chamar Secretaria Municipal de Turismo pelo decreto lei número 1.674/1979, convidou Nilo Padilha, funcionário da Prefeitura, ainda na década de 1970, para trabalhar no órgão, pelo fato de Nilo ter contato com o pessoal das escolas de samba, principalmente a Protegidos. Por haver muita dificuldade de se encontrar um grupo de samba profissional, Airton pediu para Nilo montar um grupo. Criou-se, então, o Nós e o Samba. Com a saída da Airton da Diretoria, o grupo termina.

Com a dissolução do grupo “Nós e o Samba”, Nilo monta outro grupo: Máquina do Lazer Samba Show: ele no reco-reco e prato; Marquinhos do Cavaco; João Antônio, na voz; Pedrinho, no surdo; Tião, no violão; e Beto, que Nilo não se recorda o instrumento que tocava. Em seguida, após uma confusão interna, o grupo se desfez. Na mesma época, surge o grupo “Samba Sete”, que fazia um samba onde era a boate Lupus, localizado na SC-401. Da Lupus, o grupo foi tocar no restaurante que mais tarde pertenceu à cantora Neide Maria Rosa, na Lagoa.

Nilo Padilha conta que, na sequência, surge o grupo “Malícia”, que logo passou a se chamar “Senti Firmeza”, e que se tornou uma referência para os demais grupos que surgiram depois, pois o Senti Firmeza foi um dos primeiros grupos a ir para o eixo Rio-São Paulo gravar um CD. Depois do restaurante que pertenceu à Neide Maria, no começo dos anos 80, o “Samba Sete” começou a se apresentar no Mercado Público, embaixo do relógio, o Ponto 15, o único que pagava os músicos, que ficavam isolados do público por uma corda. Mais tarde, lembra Nilo, o jornalista Aldírio Simões cria o projeto Música no Mercado, com sambas às sextas, com Mazinho do Trombone e seu grupo; e o Samba Sete aos sábados, das 10h às 15h. O Samba Sete era assim composto: Toninho, no violão e voz; Dimas, no cavaco e voz; Alberto Vitor, no banjo e voz; Marinho, no tamborim; Nilo Padilha, no reco-reco, prato e afoxé; Luiz, no pandeiro e cuíca; e Pelé, no surdo.

Os sambas no Mercado Público continuam até hoje às sextas. Mas o investimento já não é mais o mesmo.