quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Centenário de Chico Santana


Dia 22 de setembro de 1911 nascia Francisco Felisberto Santana, conhecido como Chico Santana, ou Chico Traidor.

No país inteiro, desde janeiro, tem ocorridas rodas de samba em homenagem ao mestre: Uberlândia, São Paulo (Glória ao Samba, Terreiro de Mauá e Terra Brasileira) e Porto Alegre (com o Projeto Resgate). Participei de Uberlândia, Mauá e Porto Alegre.

Dia 24 de setembro, neste sábado, haverá a última roda, na Portelinha, sede da Velha Guarda da Portela, da qual Chico Santana fazia parte.

Em breve, publicarei algum material dele. Sambas inéditos, fotos e vídeos dessas homenagens todas!


Mais informações sobre o mestre Chico Santana, podem ser obtidas no Dicionário Cravo Albin.

Mas eu prefiro este texto, do meu amigo André Carvalho, publicado no seu blog O Couro do Cabrito sobre a primeira roda, em Uberlândia.

E salve Chico Santana! Foi traído e não traiu jamais!



Samba da traição
(Chico Santana)

Quem vê cara não vê coração
Um sorriso também pode ser uma traição
Cristo também foi traído
Por Judas fingindo seu amigo
Com tanta ternura um beijo na testa lhe deu
E por trinta dinheiros lhe vendeu

Com um sorriso Cristo recebeu o beijo de ironia
Dando a impressão que nada sabia
Judas estremeceu ao ouvir sua voz:
"Existe um traidor entre nós"

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Samba do paranormal

Pressentimento
(Nermal)

Pressentimento

Em minha mente eu tenho demais
Sanidade que eu tinha, nunca mais
Depois daquele dia
Em que eu fui observador
Que a mulher que eu tanto via
Em vida me teve amor

Hoje ela pensa que estou alucinado
Mas é mentira
Já estou desesperado
Agora estou resolvido
A não enxergar mais ninguém
Porque se só eu vejo
Que graça tem?


Samba original de Mijinha

sábado, 10 de setembro de 2011

Ninguém quer essa vida, Zambi!

Esses dias, perto do meio dia, eu estava numa tendinha num morro - morro como qualquer outro, com escola, malandros e trabalhadores, muitos trabalhadores - e na tv passava uma reportagem sobre um caso policial envolvendo adolescentes de uma outra favela - favela como qualquer outra, com escola, malandros e trabalhadores, muitos trabalhadores.

Até o repórter informar de onde eram os adolescentes, não havia nenhuma manifestação estranha, além das "minha nossa" e "que barbaridade", já esperadas. Quando ouve-se a procedência dos autores, ouço um homem dizer: "Ahn... tinha que ser, mesmo!".

Como assim, "tinha que ser"? O fato dos autores do crime serem de uma favela não significa nada.

O que me espantou foi um, em princípio, morador de um morro, também favela, falar mal de outra favela, no caso, sem ser no morro.

Na teoria, o sujeito rouba por necessidade. É um problema social.
Na teoria, o sujeito que mora em uma favela carece de alguns itens de sobrevivência como saneamento básico, alimentação, água, energia elétrica...
Na teoria. Porque na prática não vive nenhum miserável que passe fome nessas localidades em especial.

Claro que o crime não foi impulsionado por uma questão de sobrevivência. Mais provável que tenha sido por uma questão de sobrevivência social. Eram jovens que praticaram os crimes provavelmente para se manter no ciclo de convivência deles.

Mas o comentário do homem sobre a reportagem foi de uma forma como se o morro onde ele estava fosse melhor - ou pior - do que a favela da reportagem. Lá tem moradores iguais aos do morro. Era o sujo falando do mal lavado.




Assim não, Zambi!
(Martinho da Vila)

Quando eu morrer
Vou bater lá na porta do céu
E vou falar pra São Pedro
Que ninguém quer essa vida cruel
Eu não quero essa vida não Zambi
Ninguém quer essa vida assim não Zambi
Eu não quero as crianças roubando
A veinha esmolando uma xepa na feira
Eu não quero esse medo estampado
Na cara duns nêgo sem eira nem beira
Asbre as cadeias
Pros inocentes
Dá liberdade pros homens de opinião
Quando um nêgo tá morto de fome
Um outro não tem o que comer
Quando um nêgo tá num pau-de-arara
Tem nego penando num outro sofrer
Deus é pai, Deus é filho, Espírito Santo é Zambi
Eu não quero essa vida não Zambi
Clementina é filha de Zambi
Eu não quero essa vida não Zambi
Ninguém quer essa vida assim não Zambi

domingo, 4 de setembro de 2011

Vou começar a cantar

Num certo fim de semana, eu estava com uma visita de São Paulo e visitei todos os pontos que pude da cidade que tocam samba, pra mostrar pra essa visita o que temos aqui.


Depois de visitar uns 7 lugares, cheguei a uma conclusão: Vou começar a cantar na noite!
Não sou afinado. Mas e daí? Parece que isso não é uma exigência pra se cantar aqui.
Nem ter ritmo. Nem seguir a melodia das músicas.

Interpretação é isso.
Foi fiel à melodia, com uma divisão e entonação perfeitas.

Mudança de melodia, de ritmo, avacalhação com a música é isso.



Não consegui perceber, nas noites de Floripa, nenhuma preocupação em estudar as músicas que se canta, a intenção do autor, o estilo da música (se é samba de roda, canção, partido alto). As tardes de Floripa estão safas da crítica. Baseado no que eu vi, basta ter vontade de cantar. Saber cantar é apenas um mero detalhe.
Foram apresentações pífias. Mesmo as músicas banais, que se cantam há 318 anos, são interpretadas de forma inexpressiva. Aliás, não há interpretação. Há uma mera exposição da música.

Aguardem! Em breve estrearei meu show!

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Falar sozinho

Sempre falei comigo mesmo. Discuto, respondo... tudo entre eu e eu mesmo.
Certa vez, tive uma discussão feia e fiquei alguns dias sem falar comigo.

Falar consigo mesmo é bom. Se não há com quem desabafar, desabafe só. Melhor ainda pros esquizofrênicos, autistas, bipolares, que podem se auto consolar, com palavras de conforto.

Quem fala sozinho é considerado maluco. Os incompreensíveis são considerados malucos. Os gênios também são considerados malucos. Muitos dos gênios que conhecemos falavam sozinhos e eram incompreensíveis.

Esses dias passei por uma pessoa desacompanhada, séria, passos firmes, trajando roupas com tamanho adequado ao corpo, limpas, completa, falando sozinha. Após um breve recesso, como quem estivesse ouvindo a resposta, tornou a falar. Percebi que as respostas não eram bem aquilo que ela desejava ouvir, pois sua expressão e tom de voz mudavam constantemente. Sempre na linha do séria. Acompanhei-a pela rua até o fim de sua conversa. Ela estava no celular, usando um fone de ouvido. Ou seja, não falava sozinha.

Aquele sujeito que você encontra pela rua, aparentemente sempre feliz, com passos irregulares, não estranho se exalar um odor de açúcar em estado sólido natural depois de fermentado, com roupas de tamanho geralmente menor do que o corpo, doadas por algum varal, já sujas, um pé com sapato e o outro descalço, costumeiramente acompanhado de um cachorro, de vez em quando fala sozinho. Ou com o cachorro, quando o acompanha. Por vezes, ouvimos somente aquilo que desejamos ouvir. A resposta que ele obtém, dele mesmo, dessa conversa aparentemente solitária deve ser satisfatória pois ele continua falando.
Esses sujeitos são profetas! Falam sozinhos e são incompreensíveis. Gênios!!

A vida ensina. E esses, por viverem somente na rua, são PHDs na vida. Sabem de tudo. Passíveis de palestrar em qualquer ambiente. Não compreendem um funcionamento da bolsa de valores, de uma faculdade ou de um computador. Mas quem disse que precisamos? Compreender a vida é e vale muito mais que isso.

Todos falam sozinhos. Ou deveriam. É um bom exercício.
Vergonha é poder roubar e não poder carregar.

Não compreendeu o texto?
Sou um incompreensível.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

O o o o... o Noel voltooo !!!

E o Bar do Noel reabre as portas!

Depois de um longo e tenebroso inverno de uma semana sem samba, o Bar do Noel reabre, sob nova direção, e já estão sendo retomadas as atividades semanais de samba.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Noel Rosa morreu! E nem completou 26 anos!

Tudo na vida tem começo, meio e fim.
Pelé foi um gênio porque, além de jogar um futebolzinho mais ou menos, era inteligente. Soube, inclusive, a hora de parar, no ápice de sua carreira, pra fechar com chave de ouro.

Ninguém é insubstituível.
Todo mundo pode ser trocado por qualquer coisa. Ainda mais no mundo de hoje, onde os itens de valor estão cada vez mais se tornando dispensáveis, meros detalhes.

Sempre falei que o Bar do Noel era o melhor ambiente da cidade e que o samba feito lá, aos sábados, era a melhor, se não única, e que nem por isso deixaria de ser a melhor, roda de samba da cidade.
O clima do buteco era muito bom. O clima da roda era muito bom. Tudo era muito bom.
Nem tudo, óbvio. Mas alguma coisa era até relevada.

Em todo lugar existe as pessoas boas e os chatos. No Noel não era diferente.
Sempre gostei dos undergrounds que andavam por lá. Até porque, desde que eu conheço aquela região (Ratclif, João Pinto), eles sempre dominavam o espaço. E o samba que era executado aos sábados é underground. Não só pelo repertório, mas pela instrumentação, o clima, a confraternização, tudo. É algo fora dos padrões, fora da moda, fora de qualquer possibilidade de entendimento das mentes sãs.

Infelizmente, com o passar do tempo, os undergrounds nativos foram deixando de frequentar naturalmente, sem desrespeito. Até aí, nada de mais.
O problema é que, recentemente, surgiram vários "donos" do espaço. Não só do bar, mas da Travessa, do samba, do sábado...
Não sei cozinhar, mas sei que se duas pessoas mexerem na mesma panela, a comida desanda.

Com grandes poderes, surgem grandes responsabilidades. Ser "dono" de um grupo musical, por exemplo, significa, praticamente, ser dono de uma empresa, onde os outros integrantes do grupo são os funcionários que fazem a empresa ir para frente. Apesar de ser um trabalho gratificante, deve-se saber administrar, pois um erro pode levar ao fim do grupo (empresa), e a consequente demissão dos integrantes (funcionários). Imagina, então, ser dono de uma empresa onde acontece semanalmente a apresentação de um grupo musical.

Devemos, sempre, respeitar os mais velhos, aqueles que chegaram primeiro. Quem é do samba, tem isso incrustrado nas veias.
Nunca se começa nada do marco zero. Primeiro, porque o tempo é cíclico. As coisas sempre se repetem. E segundo, porque sempre há uma história antecedendo a sua, e que não deve ser ignorada.
Obrigado, Seu Edson! Que reabriu o antigo Petit, ou apenas mudou de nome (não sei bem ao certo), e teve vontade, coragem, peito e responsabilidade ao iniciar algo que virou história na cidade, com o grupo Bom Partido. Uma história que respeitou o passado e deve ser respeitada no futuro.

O Bar do Noel cerrou as portas. Por tempo indeterminado. Mesmo sabendo que um dia ia acabar, assim como se sabe que depois da vida há a morte, a gente fica triste. Mesmo imaginando que o bar volte um dia, assim como volta um amigo de viagem, a gente está triste. Mesmo que o samba volte, assim como reatam os namorados, não será como era antes. Nunca é. E eu fico triste por isso.

Por isso, e pela falta de sensibilidade de alguns em não conseguir vislumbrar toda beleza que havia lá. Toda a magia. Toda a história.

Mas tudo bem. Ainda temos ar nos nossos pulmões, sangue em nossas veias, samba em nossa alma. Devemos agora lembrar dos tempos bons que passamos lá. Esquecer o passado ruim e nos reencontrarmos. Em algum samba por aí.

A gente era feliz. E sabia!

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Memória de um ladrilho

Aí vem um perdido. Droga, pisou em mim. "Tudo bem! Não foi nada. Nem doeu!" Como se ele me ouvisse.
Daqui a pouco vai começar o dia. Acho que hoje é segunda-feira, dia de movimento. Muito movimento. Odeio movimento. Odeio pessoas. E também os cachorros, crianças, pombos, sujeira, resto de comida, formigas, insetos em geral, calor, frio, vento. Odeio esses meus semelhantes que não se mexem. Ficam nessa impáfia, nessa inércia, esperando algo acontecer.

Ugrh! Droga. Não consigo me mexer. Tomara que alguém tope o dedão em mim pra eu sair daqui. É o meu sonho! E tomara que quebre uma unha.

Está amanhecendo.

Um velho para em cima de mim. Pra ajudar, tapando o sol. E eu com frio. O velho, sem se importar com o mundo que está logo ali, abaixo do seu nariz, espirra. Porque já não estava com o lenço a postos? O tempo de levar as mãos ao bolso de trás, abrir o botão, alcançar o lenço e retornar ao nariz é infinitamente maior do que um ranho leva pra sair do nariz e cair em mim.
Só espero que daqui a pouco alguém derrame uma água pra me limpar.

Conheço quase todos da cidade. Mas não conheço ninguém. Uma coisa que me deixa profundamente triste é exatamente isso: não conheço ninguém. Todos passam por mim conversando, mas nunca escuto o final das histórias. Ou o começo. Então eu misturo tudo e fico invento a vida de cada um.

Esse senhor que vem vindo, por exemplo. Todo raquítico, arcado, se tremendo, fedendo a limão, com uma bengala, não enxerga. Ele para aqui todo dia, senta o dia todo e fica vendendo cartão telefônico. Sei que ele é casado, que a mulher é dona de casa e que mora longe. Aí eu imagino que os filhos o abandonaram cedo, hoje são donos de grandes corporações e tem vergonha do pai.

Já é meio dia. Quente. Muito quente. Gente. Muita gente.

Essas duas meninas que vem vindo, ainda sem curvas, estudam no ensino médio, acham um tal de Rafael muito lindo e vivem mentindo para as suas respectivas mães. Elas devem mentir também a respeito desse Rafael. Devem também mentir uma pra outra sobre os planos que arquitetam em namorar esse rapaz. Não dou um ano pra essa amizade terminar.

Fim de tarde. Começa a esfriar. Um cobertor ninguém derruba.

Deus sabe o que faz em não me dar pernas e braços. Porque eu ia bater em muita gente, pra descontar minha raiva.

Já é madrugada. Até que enfim. Sem movimento.

Aí vem um perdido. Droga, pisou em mim.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Raspa do tacho

Foto novela do Bar do Noel de sábado.



Ao fim de mais uma roda no Bar do Noel, mas bem ao fim, eis que resta o resto.

A boa música atrai espectadores.

Até tarde.

Entre o lixo e a escória da sociedade, até o dono do bar apareceu.

Depois, todos foram embora juntos, espalhando alegria pelo Centro da cidade.


Ah, esses dias que duram mais que 24h...

A gente era feliz nessa época...

terça-feira, 12 de julho de 2011

Ginga do Mané lança seu primeiro CD


Um dos principais grupos de choro de Florianópolis, o Ginga do Mané, está lançando seu primeiro CD, dia 21 de julho, quinta-feira, às 21h, no Teatro Álvaro de Carvalho - TAC.

É o lançamento do primeiro CD autoral de um grupo de choro catarinense, com composições de Bernardo Sens, Raphael Galcer e Marcelo Portela.
O show conta com participações dos músicos Leandro Pacheco, no bandolim, Carlos Schimidt, no bombardino, Marcelo Portela, no violão 7 cordas, e Julio Cordoba, no violão 6 cordas.

A entrada é R$ 10 e o ingresso pode ser adquirido no Empório Mineiro (Lagoa da Conceição), no TAC, com Raphael Galcer (9904-2281) ou Cristovam Thiago (9948-6832).


Abaixo, trecho de dois choros do grupo.

O batutinha
(Bernardo Sens)


Ernesto chorando na polca
(Raphael Galcer)