Tião era um grande cantor, grande violonista e melhor ainda boêmio. E fez história como boêmio. Foram anos vivendo uma boemia para construir a sua história. Anos. Décadas.
| Neide Maria Rosa cantando com Tião a acompanhando no violão. Acervo Josué Costa. |
Mas, já dizia Clara Nunes, tudo na vida tem fim. E sua vida boemia afora acaba. Afora.
Tião montou um bar na frente da sua casa. Anexo. Assim, ele não precisaria sair de casa para frequentar a boemia.
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| Foto de internet. Não sei a autoria. |
Sua esposa teve grande influência nessa decisão. E é bem possível que não tenha sido uma grande influência, mas uma sugestão/ordem. Porque esposa não pede, manda.
E também, Tião já recebia os amigos em sua casa constantemente. Sua casa já era um ponto de referência para os outros boêmios. Só faltava um CNPJ.
Assim surge o Bar do Tião.
Lá, sua esposa deixava ele ir. Até porque, era só descer a escada da varanda. E até ela ia.
No Bar do Tião, foram mais anos de boemia, construindo uma nova história. Anos. Décadas.
Mas, já dizia Clara Nunes, tudo na vida tem fim. E sua vida boêmia acaba. De vez.
Dorival Caymmi dizia que o pescador tem 2 amor: um bem na terra e um bem no mar.
Tião tinha 2 grandes amores em sua vida: a sua esposa e a boemia. Era um triângulo amoroso funcionando com perfeição.
Um dia, o peso dos anos invadiu Tião. O médico o proibiu de ir para o Bar, mesmo sendo anexo a sua casa.
O samba e a boemia continuavam acontecendo no Bar, mas agora sem seu artista principal. Segue o Bar do Tião sem o Tião.
Tião perde 1 dos seus 2 amores. Mas ainda tem sua esposa. Por um tempo.
Alguns meses depois, sua esposa faleceu. E com ela, a outra metade de Tião se vai também.
Em poucos meses Tião perdeu seus 2 grandes amores. Tião não via mais motivos para viver. Poucos meses depois, Tião morreu de amor. Ou da falta dele.
O samba e a boemia continuam acontecendo no Bar, mas agora sem seu artista principal. Segue o Bar do Tião sem o Tião. De vez.
Eis que a Boemia, que tinha 1 grande amor, também se viu só. Não havia mais motivos para ela continuar animando o povo, sendo que ela mesma não estava feliz.
Depois de alguns anos, não décadas, anos, o Bar do Tião cerra suas portas para sempre.
Claro que a boemia continua. Em outro lugar.
Claro que o samba não morreu. Nem morrerá.
Mas aquele cantinho de Florianópolis, aquele portão pequeno de ferro, aquela parede branca sem nenhuma placa, nenhuma pintura indicando que ali existe história, continua lá.
Dizem que ao passar por ali em uma sexta-feira, por volta das 23h, você consegue ouvir acordes de plangentes violões.


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