quinta-feira, 15 de maio de 2014

[HSF] “Vai pro lado de lá, vai sambar”

Os sambas na ilha continuavam, enquanto que as primeiras manifestações mais contundentes de samba surgiam do outro lado da ponte, na região continental da cidade, que já foi a região onde se originou a maioria das escolas de samba: Império do Samba, Filhos do Continente, Acadêmicos do Samba, Coloninha, Quilombo, Quilombo dos Palmares e o bloco Lufa-lufa, que virou escola de samba mais tarde.

Apesar de diversas agremiações carnavalescas, que surgiriam com maior ênfase nas décadas de 1970 e 80, nos anos 50 e 60, no continente, havia pouca movimentação de samba fora do carnaval. Somente na Coloninha: basicamente no clube Monte Castelo, aos domingos, meio dia; e no bar chamado de Casinha Azul, que mais tarde seria o local da sede da escola de samba Coloninha. O pessoal se juntava para conversar, beber, jogar um dominó ou um carteado. Sociabilizar. Costumeiramente, um samba acontecia.

Segundo o pesquisador Velho Bruxo, dizem que o bairro Coloninha tem esse nome pelo fato das casas da região serem todas iguais. Dizem os mais velhos que havia um senhor que construía uma casa por dia. Por isso, algumas casas eram meio tortas.

Sabaráh, que tempos depois fundaria o grupo Senti Firmeza, referência na década de 1980, conta como surgiu a escola de samba da Coloninha, ainda como escola mirim. Nas redondezas, num determinado dia, um grupo de crianças andava pela rua, na época de carnaval, batucando alguns sambas e passaram pela casa de Seu Porrete, onde rolava uma partida de dominó. Tita (membro da Velha Guarda da Coloninha), Cizenando e outros senhores abordaram as crianças, e lhes perguntaram se elas gostavam de samba. Com a resposta positiva, os mais velhos resolveram criar uma escola de samba mirim. Nascia, no início de 1962, a escola de samba mirim Unidos da Coloninha. Entre as crianças, estava Sabaráh.

Servidão Buchelle, na Coloninha. Ao fundo, à direita, uma das últimas casas era do “Três Beiço”. Não há registro do ano da foto. Segundo o pesquisador Velho Bruxo, a foto deve ser da década de 1960. Acervo Velho Bruxo.

No bairro da Coloninha, outro personagem do samba relembrado é Mário do Banjo. Um “preto do cabelo bom”, como se costumava chamar os negros que tinham cabelo liso. Todo sábado ele sentava na varanda de casa, ligava o banjo, estilo americano, em uma caixa amplificadora e mandava chamar Sabaráh, que aprendeu a tocar pandeiro com seu pai, para acompanhá-lo durante a tarde tocando sambas.

Além da Casinha Azul e do clube Monte Castelo, no início da década de 60, no bairro, boêmios, sambistas, batuqueiros iam ao Bar do Bugrinho, chamada de Venda do Bugrinho. Venda daquelas de vender saco de feijão, arroz por quilo, com caderneta de “fiado”. Aos sábados, Seu Nelson do Cavaco, do Morro da Caixa, e outros frequentavam esse lugar pra um samba.

A Coloninha também tinha seu batalhão de botequeiros. Tita; Seu Boca; Cizenando; Maneca; Carlito, tocador de trombone; Nego Chico, também conhecido como “Três Beiço”, tocava pistom; seu irmão, Pelé, chamado de Miganga, que tocava pandeiro; Nego César, no cavaquinho. Todos facilmente encontrados nos botiquins mais vagabundos e batucadas da Coloninha.

Muitas dessas pessoas se encontravam também atrás da Venda do Seu Oswaldo ou na casa do Três Beiço, como por exemplo: Seu Bastião, pai do Nego César, e Cizenando. A casa ficava em uma vila da Servidão Buchelle, também na Coloninha.

Outros locais eram frequentados para se ouvir um samba, porém, com menor intensidade: Sociedade Tamandaré, um salão grande, cheio de mesa de sinuca onde menor de idade não podia entrar, por conta dos jogos; Clube do Pau do Meio, cujo nome singular é oriundo do layout. O salão foi construído ao redor de um tronco de árvore, que servia para segurar o forro.

Os pais e tios dos integrantes do grupo Novos Bambas, formado em 2000, hoje com a faixa etária na média de 25 anos, lembram que na década de 1960, aos domingos, eles costumavam organizar festas em sua casa, no Morro da Caixa do continente. Eram os avós do grupo Novos Bambas. Um dos cantores da Unidos da Coloninha hoje, Sabaráh, primo deles, costumava ir, levado pelo seu pai e tio, Nilton, que tocava pandeiro. Nessa casa se reuniam Chico; Velho Charuto, cavaquinhista e avô do cantor Vlademir Rosa, que em 1997 fundaria o grupo Coisa da Antiga; Varela, seu irmão; Guaracy, no pandeiro e cuíca; Nelson do Cavaco; Placidino, também conhecido como Chatim, no cavaco; e Evaristo, o Nito, no violão, avô dos integrantes do grupo Novos Bambas; Amaro, seu irmão e pai do Seu Campos, que tempos depois fundaria o grupo Caximônia; Damião; Genésio; e Didino, pai do Cachaça, uma das figuras centrais do bar Silvelândia, que tornou-se referência de samba em fins da década de 1990. Esses 3 últimos tinham aulas de violão com Nito. As aulas não eram cobradas e eram ministradas de um jeito informal.

Todas essas pessoas se reuniam frequentemente no morro, na casa do Nito. Tudo era motivo para festa: Terno de Reis, Cacumbi, Natal, aniversários, e tudo terminava em “corinho”, como se chamava o samba. Nessas festas se usavam pandeiro, surdo, caixa de fósforo, panela, colheres, pente. Qualquer coisa parada não demorava pra se tornar um instrumento. Quando alguém atravessava o samba, tocando fora do ritmo, alguém berrada: “Te bandera!” e o sujeito parava.

Os pais e tios dos Novos Bambas contam também que Seu Charuto, Nelson, Chatim, Nito, Varela e Guaracy chegaram a formar um grupo e tocavam pela cidade. O grupo não tinha nome e não durou muito tempo.

No Morro da Caixa do continente o pessoal também costumava fazer samba no bar do Bacatela, na Venda do Cachimbo e no Bar Coringa. Este último ficava na Rua Santos Saraiva e foi por anos o principal ponto de referência da região. O Bar fechou em meados de 2005.

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