quinta-feira, 1 de maio de 2014

[HSF] “Ninguém quer essa vida assim, não, Zambi”

Nos anos de 1940 e 1950, segundo relatos dos entrevistados, como o Velho Bruxo, as pessoas que gostavam de samba só podiam exteriorizar isso tranquilamente nas escolas de samba. E durante o carnaval. No resto do ano, restavam os botecos, tendinhas e festas de família. Mas quem frequentava os botecos e tendinhas não costumava ser muito benquisto perante a sociedade. Um reflexo da divisão social da cidade. Mesmo que alguns dos músicos de rádio morassem nos morros. Zininho era morador do Morro da Mariquinha. Mas era profissional do rádio. Seu Nelson do Cavaquinho, por exemplo, era morador do Morro da Caixa. Mas era profissional dos “botiquins mais vagabundos”, como diz um samba de Moacyr Luz, fazeno referência aos botequins sem acabamento, com paredes salpicadas, balcões tortos, chão de cimento, mesas pensas, mas cervejas sempre geladas. Zininho e Nelson eram de famílias distintas. Enquanto um tinha um sobrenome conhecido na sociedade florianopolitana, mal se sabia o sobrenome de Nelson.

Florianópolis era uma cidade pequena e que primava muito pelo sobrenome. E quem tinha determinado sobrenome, zelava por ele para manter a sua imagem e a de sua família perante a sociedade e, consequentemente, seu sobrenome. Florianópolis também era uma cidade muito urbana. Boa parte da população era formada por funcionários de órgrãos do governo, prefeitura. Poucos sobrenomes ditavam as regras da cidade. Basicamente ligados à política e aqueles que eles consideravam de bem. Paralelo a isso, os donos de comércio privavam de certa influência. Isso porque todos precisam comer, se vestir, se locomover. No mais, só teriam grande êxito na vida se tivessem sorte. Então quem fazia parte desse ciclo não costumava se misturar com quem não fazia parte. Embora quem não fizesse parte fosse tão ou mais trabalhador quanto as ditas famílias de bem. Talvez até trabalhassem mais.

Além, claro, das disputas políticas entre Arena e UDN, Avaí e Figueirense. Era mais ou menos assim que era dividida Florianópolis. E no carnaval, a elite frequentava a Praça XV, e se dividiam entre as grandes sociedades Tenentes do Diabo e Granadeiros da Ilha, enquanto o povo ia pra Conselheiro Mafra. Por mais que sejam poucos metros de distância.

E é do povo que surge em maior quantidade, e menos conhecidos da grande mídia, os sambistas. Os que tocavam nas rádios são mais famosos. Estavam na mídia. Eram sempre citados. Conhecidos por toda a cidade. Já os que tinham outros empregos e nos fins de semana frequentavam os “botequins mais vagabundos”, só eram conhecidos entre os que tinham outros empregos e fins de semana frequentavam os “botequins mais vagabundos”. No carnaval ajudavam a colocar os blocos ou escolas na rua. São estes sambistas, “famosos anônimos”, que irão contribuir positivamente na influência aos sambistas que surgem depois.

A primeira geração de músicos, os que vieram do Rio de Janeiro trazendo os instrumentos, os sambas e as formas de tocar, incentivou os que criaram as escolas de samba Protegidos e Copa Lord, e serviu de incentivo para os que viam as rodas de samba e tinham interesse em participar dessas confraternizações.

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