terça-feira, 25 de março de 2014

[HSF] As influências e as escolas

Continuando a reportagem sobre a história do samba de Florianópolis.


As principais influências do povo de Florianópolis eram os marinheiros que vinham do Rio de Janeiro com algum conhecimento, mas também, e principalmente, as rádios. Dos marinheiros se tem poucas notícias. Os mais velhos, que foram entrevistados para esta reportagem, já não se recordam, ou ainda nem eram nascidos quando os primeiros marinheiros aportaram em Florianópolis, desde 1857, quando foi instalado a Escola de Aprendizes Marinheiros, com notícias sobre o samba do Rio de Janeiro. Os marinheiros que podem ser citados e rememorados são Silvio Serafim da Luz, Boaventura Libânio da Silva, Benjamim João Pereira e Íbio Rosa, fundadores do Grêmio Recreatio Escola de Samba Os Protegidos da Princesa, em 1948, considerada por muitos como a primeira escola de samba de Florianópolis.

Desfile da Protegidos da Princesa em 1962. A frente, Armandino Gonzaga, que
também pertenceu à Copa Lord, tendo sido o presidente mais lembrado entre os
copalordenses. Acervo Velho Bruxo.

Seu Silvio Serafim, o único fundador ainda vivo, contou, em entrevista realizada em 2011, que, em uma bela tarde, estavam os quatro na garagem da família Célio Veiga, alugada pela Marinha para o 5º Distrito Naval, local onde atualmente existe o Instituto Federal de Santa Catarina, o IFSC, na Avenida Mauro Ramos. Conversa puxa conversa e da conversa nasce a luz. Surgiu a ideia de fundar uma escola de samba. A primeira sede foi na casa do senhor Boaventura, na Rua Nova, atual Rua Nestor Passos, no Centro, a direita de quem sobe o Morro da Caixa, numa pequena vila do Seu Kinzeski, na época, dono de muitas casas no morro.

Seu Abelardo Henrique Blumenberg, o popular Avez-vous* (lê-se“Avevú” - ganhou o apelido em uma desatenção na aula de francês) fundador da escola de samba Copa Lord em 1955, afirma que, na opinião dele, a primeira escola de samba foi a Narciso e Dião, na qual ele desfilou em 1946, junto com seu amigo Juventino João Machado, o Nego Quirido, que empresta o nome para o Sambódromo de Florianópolis, inaugurado em 1989. Avez-vous também desfilou no bloco Aí Vem a Marinha, fundado em 1940, e no bloco do Lira, do Lira Tênis Clube.

Primeiro desfile da Copa Lord, em 1955. De cartola, à frente, Avezvous.
Registro de Artur de Bem do acervo de Seu Mário César.

Em 1955 não aconteceria o desfile das escolas de samba, como não aconteceu em 2013 e também em 1998, 1997, 1994, 1988, 1954, 1953 e 1952. Seria, portanto, o 4º ano seguido. Eis que Avez-vous, jovem festeiro, se prontificou a criar uma escola de samba para desfilar naquele ano.

Avez-vous sentia a apatia tomar conta das pessoas, em plena véspera de carnaval, e em janeiro de 1955 juntou 3 amigos, Nego Quirido, que tocava cuíca e era considerado o maior cuiqueiro do sul do mundo, Jorge Costa (o Jorginho), e Laudelino José da Silva (o Lô), para colocar em prática seu plano. A ideia surgiu após uma partida de futebol, enquanto conversavam na frente do Bar do Segundo (atualmente Bar do Jorge, na Rua Major Costa, no pé do Morro da Caixa, região chamada pelos mais velhos de Canudinhos). Lá, ouviam sambas do Rio de Janeiro na rádio e bebiam cachaça com coca-cola. Um néctar que eles chamavam de “Samba em Berlim”. Avez-vous tinha uma irmã que morava no Rio de Janeiro, e lembrou de uma expressão muito usada por lá: “estar numa copa lord”, que significava “estar numa boa”. O termo “copa lord” deu nome à nova escola: Grêmio Recreativo Escola de Samba Embaixada Copa Lord. Seu Secundino, dono do Bar, foi o primeiro a assinar o livro de ouro da nova escola, em que as pessoas assinavam a quantia que doariam à agremiação.

“'Seu Segundo, o senhor é o presidente de honra da nossa escola!' Daí já começamos a beber de graça”, lembrou sorrindo Avez-vous sobre alguns detalhes do dia do feito histórico, em entrevista concedida em 2007. Seu Avez-vous faleceu em 2008, aos 79 anos.

Até meados dos anos 2005, na parede do lado esquerdo da entrada do Bar do Segundo, em cima da primeira mesa, havia uma placa referindo-se àquele local como sendo o de fundação da escola de samba Copa Lord. Essa primeira mesa por muitos anos era reservada para Avez-vous e Seu Vidomar (contemporâneo à fundação da escola e então integrante da Velha Guarda da Copa Lord), que frequentemente batiam ponto no bar. Dois grandes personagens da escola, já falecidos. Hoje, no Bar do Seu Secundino, já não se vê mais os dois fieis clientes e no lugar da placa da fundação da escola há uma placa com os dizeres “Mocotó e dobradinha”, em referência ao almoço servido no bar.


*Mickey, pseudônimo de C. Bernard, escreveu em seu livro “O bê-a-bá das escolas de samba” (2001) que “ninguém, em matéria de carnaval, tem uma folha tão extensa de serviços prestados a essa Cultura Popular na Ilha de Florianópolis/SC. Além dos cargos administrativos que ocupou, foi Presidente da Embaixada Copa Lord nos anos 1955, 1956 e 1958, e 1º Secretário da G.R.E.S. Protegidos da Princesa.”

quinta-feira, 20 de março de 2014

[HSF] Os famosos anônimos na construção do samba em Florianópolis

Vou publicar, aos poucos, uma grande reportagem escrita por mim sobre a história do samba de Florianópolis. Aos poucos, para não cansar o leitor.
Essa é a primeira parte, de muitas.


Desde que o samba é samba, é assim: uma grande discussão sem fim sobre o que é o samba. Mas desde quando que o samba é samba? O primeiro registro da palavra “samba” que se tem notícia, data de 1699, pelo padre Luiz Vincêncio Mamiani, na obra “Arte de Grammatica da Língua Brasílica da Nacan Kiriri”. O pesquisador Bernardo Alves (2002) defende a teoria de que os índios já faziam samba antes da chegada dos primeiros africanos. Ou alguma dança com um ritmo a que eles chamavam de samba. Com a influência europeia e africana, o ritmo e expressões corporais foram se modificando muito, até ter esse estilo que conhecemos hoje. Essa síncope e batida é o que Ismael Silva e a turma do Estácio, no Rio de Janeiro, fizeram na década de 1920, quando transformaram a batida amaxixada, do que então se chamava de samba, por uma batida marchada. E esses anos todos de transformações deixaram o universo do samba rico em diversas classificações diferentes: samba de terreiro, samba canção, partido alto, samba rock, samba enredo, pagode etc. Cada um com sua especificidade, com sua síncope, divisão, ritmo. E esse samba, ou esses sambas, se espalhou pelo país inteiro. Não é à toa que existe samba do Oiapoque ao Chuí.

Em Florianópolis não se criou nenhum estilo de samba específico, mas sempre uma tentativa de reproduzir a forma como veio do Rio. A sua especificidade está no método de tocar, peculiar de cada pessoa, de cada região.

E os que executavam esses sambas eram praticamente anônimos. A maioria nunca teve espaço na mídia para se tornar famoso pra sociedade. Porém, todos os que estão envolvidos no mundo do samba os conhecem, ou já ouviram falar, ou se lembram quando as memórias são provocadas. Por isso, ganharam o apelido de “famosos anônimos”. E são alguns destes famosos anônimos de Florianópolis que esta reportagem vai trazer à tona, tirar da raspa do tacho, e elevar ao patamar que merecem, pois ajudaram, anonimanente, a criar a história do samba de Florianópolis.