quarta-feira, 6 de maio de 2009

Escola de Samba

"O sambista não precisa ser membro da academia. Ao ser natural em sua poesia o povo lhe faz imortal" (Candeia)
"Batuque é um privilégio. Ninguém aprende samba no colégio" (Noel Rosa)

No primeiro exemplo Candeia se refere à Academia Brasileira de Letras, mas eu usei para o ambiente acadêmico (faculdade). No segundo, Noel já é mais específico.

Dizem que o ambiente acadêmico só reconhece autores que foram formados pela academia, ou aqueles que não passaram pela academia, mas que tem "notório saber" sobre o assunto. 
É... não existe escola de samba. Então como dizer que alguém é sambista e outra pessoa não? Como provar?
Será que Candeia e Noel Rosa tem esse "notório saber"?

O Samba é reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil. Isso faz dos sambistas o que? Guardiões desse patrimônio? Pessoas de "notório saber"? Ganham dinheiro com isso? Mas de novo surge a pergunta: quem seriam esses guardiões de "notório saber"?

O sambista tem, por um dos princípios, ser fiel às suas origens.
Nelson Sargento (pessoa de notório saber?), em entrevista a Grande Othello (pessoa de notório saber?), reconhece que não se pode exigir de um sambista(?) de hoje que se faça o mesmo samba que ele fazia na década de 40, 50, 60. É do instinto da pessoa de criar algo novo. Mas não se pode esquecer do passado. Há de se respeitar. O resto é gosto. Mas muita gente peca: esquecem o passado. Aí é que muitos sambistas (de notório saber?) não reconhecem essas novas pessoas como sambistas. E se os sambistas não reconhecem um sujeito como sambista, o que fazer? Sugestão: adotar outro estilo musical e nunca mais tocar samba, até que estude e aprenda samba.
Waldir Azevedo (pessoa de notório saber?) peitou uma banca de chorões formado por pessoas como Jacob do Bandolim (pessoas de notório saber?) ao apresentar "Brasileirinho". Foi rejeitado mas gravou assim mesmo como sendo choro. Agora pergunta pra qualquer chorão que se preze (de notório saber?) se "Brasileirinho" é choro ou fox-trote.

Arlindo Cruz (pessoa de notório saber?), junto com Acyr Marques e Chiquinho, fez um baita de um samba. Segue a letra:
"Mil perdões pelo meu senso de criticar, mas existo e logo penso, e pensando vou falar aos novos compositores, promissores empolgados, reconheço alguns valores realmente inspirados. Mas tem gente forçando barra, gente querendo inventar, fazendo samba na marra, sem ligar pra criação. Dessa gente eu gostaria de atenção, pois nessa terra de ninguém o samba se mantém porque mantém a tradição. Estou querendo criticar pra construir. Pra não deixar quem é do contra criticar. Para acabar com os argumentos de quem diz que o samba não frutificou, só tem raiz. Vamos escrever ouvindo a voz do coração, deixar fluir a verdadeira inspiração. E, assim, novamente criar para continuar o que nos ensinou velhos bambas.  Só assim, sem ter o que falar, eles vão se curvar, vão tocar e cantar novos sambas."

Nessa música o Arlindo, o Acyr e o Chiquinho mataram a pau. Pena que hoje eles fazem o contrário do que eles mesmo disseram. Quer exemplo? "Só no sapatinho, ô ô" (Arlindo Cruz)

Sambista de "notório saber" nenhum no mundo iria fazer samba comercial.
Os sambistas antigos faziam samba e vendiam? Faziam! Faziam samba para ser vendido? Não. Percebem a diferença? O samba não é comercial. Não faz parte da sua essência.
Não falo isso por falar. Digo com a propriedade de quem estuda isso há 9 anos (muito? pouco? foi intenso? foi fraco?).
Infelizmente não convivi com Candeia, por exemplo, que é o maior exemplo que eu posso dar, pra transmitir, palavra por palavra, sua mensagem. Mas do que eu estudei dele, sei que ele pensava isso. Quem estudou Candeia, sabe que eu estou certo. E quem não estudou Candeia não pode se dizer sambista. Sambista preza pela sua raiz, sua origem. É necessário estudar, conhecer o que existe no meio. Não só a música, mas o sambista. E nisso é que muita gente peca, de novo: ouve um samba, decora a letra e diz que conhece.

Existe sambista novo, afinal? Vários! Sambista não é só quem já morreu, ou só quem toca música da década de 30. Sambas novos também são bons. Muito mais raros de se encontrar, porque muita gente deturpa o samba, assim como deturparam o pagode na década de 80.

Um outro detalhe importante é a questão de gosto. Eu não gosto muito dos sambas do estilo Cacique de Ramos, mas ainda considero samba. Tem alguns desse estilo bons? Tem! Assim como também acho alguns sambas antigos ruins. Quase que na mesma proporção.
O que não se pode fazer é cantar "Falsa bahiana" com banjo. Cada macaco no seu galho. Assim como se cantar "Insensato destino" com bandolim também deve ficar ruim. E muita gente hoje grava sambas antigos com instrumentos novos, levada nova... tudo errado. Descaracteriza o samba. Descaracteriza o sambista. Vai tocar samba novo ou samba antigo? Misturar não dá!

Por isso que eu sou chato. Não gosto de ninguém. Se é pra fazer, faz direito!

É impossível explicar em texto o que é um sambista.
O objetivo maior é levantar essa discussão sobre quem é sambista. Não é um item apenas. É muito complexo.

Só o que eu queria saber é quem considera os de "notório saber" como tendo "notório saber"? A academia?

"Ah, Artur! Estais dizendo tudo isso hoje. Assim é fácil. Mas um dia, no começo disso tudo, quando não havia samba, alguém resolveu dizer que fazia samba. Quem me garante que o que ele fazia era realmente samba? Tinha alguém pra aprovar ou recusar? Quem regulamentava isso? Já começa por aí." Perguntou minha consciência.
Respondi pra mim mesmo: Alguém reclamou pra si a titularidade do samba? Que eu saiba não. O que aconteceu uma vez foi uma "briga" entre Donga, que dizia que a música de Ismael Silva não era samba, era marcha, e Ismael Silva, que dizia que a música de Donga não era samba, era maxixe. Algum dos dois tem "notório saber"? Lembrando que Donga foi considerado (por quem? pessoas de "notório saber"?) o autor do primeiro samba gravado no Brasil (embora alguns pesquisadores, formados pela academia, questionem) e Ismael Silva é o criador das Escolas de Samba (inquestionável, até então).
Então Ismael esqueceu suas origens ao criar coisa nova (do instinto, como dizia Nelson Sargento)? Acho que não. Acho que ele criou algo novo dentro da linguagem do samba. Acho até que eles frequentavam vários mesmos lugares. Acho que até cantavam os mesmos sambas. Então a discussão pode ter sido intriga pessoal? Ou quem sabe os dois estavam certos? Quem sabe Donga não teria feito um maxixe, e Ismael uma marcha?
Pixinguinha (pessoa de notório saber?) dizia que samba pra ele é de antes de Donga.
Se ninguém discordar desses 3, então os 3 estão certos. Certo?

Minha consciência conclui: o samba, então, sobre mutações. E me pergunta de novo: "Então o samba atual é samba! Se pra cada época um dizia que samba era uma coisa diferente. Hoje samba é com banjo e repique! O que havia antes era outra coisa."
Me respondo: Não. Samba não tem época. Complete a frase: "Meu coração, não sei porque, ......." (Pixinguinha e João de Barro). Isso é música da década de 30. Todo mundo conhece. Pode errar uma palavra aqui, ali, errar um pedaço da melodia, mas todo mundo canta. Detalhe: é um samba-choro.
Quem classifica isso tudo? Pessoas de "notório saber"?
O samba, pelo fato de ter repique e banjo, não deixa de ser samba. Pode ser ruim, mas pode ser samba. Só não pode ser apelativo, como disse antes.

Nos fins do século XIX, início do XX, o samba estava surgindo. Então ele passou, claro, por um processo até tomar forma de samba, que tem uma roupagem mais próxima de Ismael do que de Donga. O samba(?) da Bahia, por exemplo, antes de ir pro Rio e tomar a forma de hoje, era muito diferente do samba de Donga. Pra não negar nossas origens, os sambistas hoje cantam as músicas de Xisto Bahia (antes de Donga), que na verdade fazia muito lundu, de Pixinguinha, que na verdade era chorão, mas sabia fazer samba, de Donga, que também era chorão e fazia muitos sambas amaxixados, e de Ismael.

Confuso? Não ajudou em nada? Eu disse que era complexo.

E pra título de curiosidade de alguns: minha escola de samba foi a rua. E meus professores estão por aí. E antes de ir para a escola eu estudei muito. Aí aprendi que tudo que eu tinha estudado estava errado. Depois aprendi que nem tudo. Formei opinião própria, que pode ser alterada, porque estou sempre estudando, estou sempre aprendendo, e só não muda de opinião quem não raciocina.


E hoje o povo canta as músicas do começo do texto.

Um comentário:

Luize disse...

Eu disse que não gosto de comentar mto em blogs, mas sou obrigada a comentar aqui depois desse texto...
Meeeo Deos, um dos melhores textos, se não o melhor, que já fizesse na vida, e olha que já li teus textos.
Na real, não mto o que dizer, só que... cada dia que passa estais mas "Artur" do que nunca.

Parabéns aí.. ;)