quinta-feira, 12 de junho de 2014

[HSF] “Assim já posso ser compositor”

Nas rodas de samba de Florianópolis, eram tocados os sambas que vinham principalmente do Rio de Janeiro. Até a década de 1970, não era costume entre os florianopolitanos compor sambas. Mesmo que sempre existindo a figura do compositor, os sambas eram feitos apenas em festas de famílias e não eram registrados de nenhuma forma. Findada a festa, as músicas eram esquecidas, junto com os autores.

Os primeiros compositores que foram reconhecidos como tais eram aqueles que faziam parte das escolas de samba. Mesmo assim, não havia entre eles o hábito de compor para as escolas e nem sempre apresentavam sambas nos carnavais. Havia uma ou outra composição, mas o mais comum era desfilar com sambas de escolas do Rio de Janeiro de anos anteriores. E mesmo quando as escolas desfilavam com sambas locais, nem todos eram catalogados. Em 1956 houve o registro. A Copa Lord desfilou com o samba “Vem forasteiro”, de Avez-vous. Na década de 1970 essa cultura muda, e as escolas passam a desfilar integralmente com produções locais.

Fora do ambiente das escolas de samba, não havia quase nenhum compositor. No fim da década de 1970 e nos anos 80, Aldírio Simões organiza concursos de músicas e de samba de quadra da Protegidos e Consulado, que incentivam os compositores já consagrados, guardadas as devidas proporções, das escolas, e estimulam o aparecimento de novos. É desses concursos que surgem, entre outros nomes, Zuvaldo, João Carlos, Nazareno, Mato Grosso, Josué Costa, Dica e C. Bernard, o Mickey. Este, africano, morou muito tempo no Rio de Janeiro e Porto Alegre antes de fixar residência em Florianópolis. Mickey era conhecido por ser um bom compositor e também por ser briguento. Tinha o costume de impor suas idéias e convicções, mas não aceitava muito uma controvérsia.

Na Copa Lord, o primeiro compositor foi Avez-vous. O hino da escola, “Quem vem lá” é cercado de lendas e boatos. O samba seria da escola de samba Canário das Laranjeiras, do Rio de Janeiro, trazido a Florianópolis por Lambreta, membro de uma das escolas de samba de Florianópolis, e apresentado a Avez-vous e Armandino Gonzaga, presidente da Copa Lord na época. O samba acabou por ser registrado com autoria de Avez-vous e Fogão, ex-goleiro do Botafogo e do Avaí, com breve passagem por Florianópolis. No Rio, na sede da Canário de Laranjeiras, a atual diretoria informou não conhecer este samba. Os fundadores da escola são membros da velha guarda, mas não foram localizados.

Depois de abertas as porteiras, surgiram outros compositores como Nelson Wagner, autor não só de sambas, mas de valsas, choros, canções. Nelson é irmão do Tazo, que foi proprietário do Bar do Segundo depois do Seu Secundino.

Em 1978, quando Armandino Gonzaga, o eterno presidente da Copa Lord, faleceu, o professor Lucas de Jesus, um admirador da escola, compôs um samba de quadra em sua homenagem, cantado até hoje pela Velha Guarda da escola. Não se tem mais registro de outro samba composto pelo professor Lucas.

Tião, que surgiu no Morro da Caixa e colocou o bairro Monte Verde no mapa do samba nacional com seu bar, também compunha, mas não para o carnaval. Suas músicas eram, na grande maioria, sambas-canções.

Além dos concursos, outro fator que contribuiu para o surgimento de novos compositores é o pagode, que explode em todo o Brasil na década de 1980. Leonel Januário, Paulinho Carioca, Bira Pernilongo, Maguila, Jorge Luiz, André Calibrina, Elias Marujo, Mato Grosso, entre outros, são alguns dos mais lembrados compositores de pagode de Florianópolis. Muitos deles já compositores com passagens pelas escolas de samba, que se voltam à produção de sambas para grupos. Não havia motivação, pois as músicas não eram gravadas e nem executadas em rádio.

Será no fim da década de 1990, com o surgimento de grupos de samba com uma nova proposta, de cantar sambas mais antigos do Rio de Janeiro, com uma roupagem diferente do que era executado em Florianópolis, é que aparecem compositores novos, como Dinho, Jandira, Fabricio Gonçalves, Jeisson Dias. Nos anos 2000, a lista aumenta: Dôga, Raphael Galcer, Guilherme Partideiro, Marçal do Samba, Rafael Leandro, Marcelo 7 Cordas, Du Kadência.

Alguns compositores como Mirandinha, Cipriano, Waldir Brasil e Zininho compunham e executavam suas músicas para serem tocadas nas rádios locais. Essa turma encontrava-se sempre no Miramar, restaurante que ficava no Trapiche Municipal, na época bastante frequentado por todos os artistas da cidade, e que foi derrubado na década de 70 por conta do aterro. Cláudia, filha de Zininho, relata que ele fez uma carta, assinada por outras pessoas, e entregou ao prefeito, solicitando que o Miramar não fosse derrubado. Tempos depois, alterou uma palavra aqui, outra ali, musicou, e saiu um samba com o nome do restaurante.


*Tributo a Armandino Gonzaga
(Lucas de Jesus)

Mas quem vem lá
De amarelo, vermelho e branco
Assim você cantava
Com seu sorriso franco
Hoje a saudade em verso se transformou
Cantando pra um amigo
Que se foi pra longe
Todo mundo viu e chorou
E quando eu me encontro no morro
Por mais que eu procure
Não vejo você
Amigo, viemos pra avenida
Com lágrimas sentidas pra lhe exaltar
Láláláiá, a Copa Lord vem homenagear
Láláláiá, ao Armandino esse amigo sem par


*Miramar
(Zininho)

Digníssimo senhor prefeito
Mui respeitosamente
Estamos diante de Vossa Excelência
Para pedir humildemente
Senhor prefeito
Por favor, mande recuperar
O nosso velho e querido Miramar
Pergunte ao Waldir Brazil
Daniel, Narciso e Dião
E a outros velhos boêmios
E eles também dirão
Que era ali
Que nasciam as serenatas
Era ali que os sambas nasciam
Ao som de um violão
Senhor prefeito
Por favor, mande recuperar
O nosso velho e querido Miramar

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