quinta-feira, 29 de maio de 2014

[HSF] “Samba no morro não é samba, é batucada”

A partir da década de 1970 surgem em maior quantidade os grupos de samba e os detalhes
deles passam a ser descritos com a proporção inversa. Em Florianópolis, até a década de 70,
basicamente, o samba que se ouvia em rádios e se reproduzia, conforme contam os sambistas mais
velhos, era o que se conhece hoje por samba canção, com violões, bateria, órgão, pandeiro, flauta,
pistom e trombone. Na região do Canudinhos, área que compreende o pé, a parte baixa, do Morro
da Caixa na parte insular, se reproduzia mais os sambas enredo, com uma batucada mais acentuada,
com surdos, caixas, tamborins, cuícas, pandeiros, chocalhos, tampinha de garrafa e batucadas na
mesa. Os instrumentos de harmonia eram escassos.

Samba e futebol sempre foram uma “paixão nacional”. Nessa época, Florianópolis possuia
vários times de futebol amador. No Morro da Caixa, próximo da Igreja Nossa Senhora do Mont
Serrat, moravam muitos batuqueiros, boêmios e boleiros. O clube de futebol, homônimo da igreja,
era um dos mais fortes da cidade e sempre depois das partidas de futebol havia uma roda de samba.

Como conta Jorge Nascimento, hoje membro do grupo musical da Velha Guarda da Copa
Lord, as rodas eram armadas em diversos pontos do morro, como a Pedra do Paraíso, que
atualmente abriga um heliponto da Polícia Militar. Eles subiam até a pedra para que nenhum
vizinho se incomodasse com o samba, já que não havia ninguém que morasse lá, e para que nenhum
morador incomodasse quem quisesse fazer o samba. O ponto mais próximo da Pedra do Paraíso era
o Pastinho, um pouco mais abaixo, e que também era ponto de encontro. A área é um antigo abrigo
de famílias quilombolas e fica próxima da Escola Estadual Lúcia do Livramento Mayvorne e da
casa do falecido Gentil do Oricongo, famoso no morro e um dos únicos do país a fabricar e tocar o
oricongo, instrumento africano. O Pastinho foi espaço para as rodas de samba até a década de 1980.
Hoje, o pastinho, o mato que ficava no centro do espaço, com as casas ao redor, já não existe mais.
Toda a região do Pastinho é tomada por casas, ruas e vielas.

Logo abaixo da sede da Copa Lord, na Rua General Vieira da Rosa, havia o Bar do Pelado, hoje Bar dos Amigos. Também ponto de encontro dos batuqueiros. As pessoas que faziam essas batucadas no morro eram Jorge; Adilson, conhecido como Galego; Pacote, um respeitado percussionista do morro; Cuca; Kado; Daniel, pandeirista com um pulso forte, pois ninguém conseguia tocar seu pesado pandeiro; Marciel; Noi, tantanzeiro, com uma batida conhecida como “batida do morro”; e Duni, cavaquinista.

Além disso, as festas de aniversário nos morros sempre foram forradas de memoráveis rodas de samba. Talvez o maior e mais famoso aniversário seja o do Tranca Rua, da família Bittencourt, no Morro do Mocotó.

terça-feira, 20 de maio de 2014

[HSF] “Quem é o dono do baile ou o fiscal do salão?”

Além do samba encontramos no Continente outras expressões musicais e ritmos. Assim, conta o pesquisador Velho Bruxo que foi no Continente que surgiu a primeira gafieira da cidade. Gafieira é onde se tocam sambas cadenciados, com predominância de sopros (flautas, saxofones, pistons), feitos para se dançar em casal. Era a gafieira do Laudelino e do Maneca, na avenida Ivo Silveira, em frente à Igreja São Judas Tadeu. Como se não bastasse o fato de ser inovadora, o Velho Bruxo ainda conta que, a gafieira ficou famosa por causa de um acidente automobilístico, quando um carro Karmanguia perdeu o controle na avenida Ivo Silveira e entrou salão adentro, em meados de 1972.

Sardá e sua “trupe” eram os músicos que embalavam as noites dessa gafieira. Mulheres ditas “de família” não podiam frequentar. A música de abertura e de encerramento, às 4 horas da manhã, era a mesma: Aquarela do Brasil. Conta Velho Bruxo que outra peculiaridade do lugar era a entrada. Para entrar na gafieira era necessário descer uma escadaria grande e complicada. Não era incomum que os frequentadores descessem a primeira metade da escada degrau por degrau e a outra metade rolando. Nesses casos, se o indivíduo fosse de boa índole, o porteiro ajudava deixando, pelo menos, a porta aberta para que a pessoa não se esborrachasse na porta. Se não, o desavisado encontrava a porta cerrada e o acidente se tornava pior.

É possível perceber que já não estamos mais falando de escolas de samba. Isso porque, com o tempo, o samba passa a se emancipar delas. Duduco, um famoso personagem da cidade, que foi carnavalesco e confeccionador de fantasias, em entrevista concedida em 2011, resumiu bem: “No Rio de Janeiro primeiro começou o samba, pra depois surgirem as escolas de samba. Em Florianópolis primeiro surgem as escolas pra depois surgir o samba”.

E é mais ou menos por aí. O samba surge praticamente com a criação das escolas de samba e vai de desvencilhando com o tempo, adquirindo autonomia. Além do desfile das escolas, das festas de família e bares, que intensificam em quantidade, o samba passa a ser feito nos salões.

Desde a década de 1940 que já existia samba na cidade, porém, a classe social mais baixa e a etnia negra, a maioria dos que faziam samba, não tinham acesso a clubes e boates, como tiveram na década de 1960, 70, quando começaram a criar esses espaços justamente para abrigar os que não podiam entrar em clubes tradicionais da cidade.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

[HSF] “Vai pro lado de lá, vai sambar”

Os sambas na ilha continuavam, enquanto que as primeiras manifestações mais contundentes de samba surgiam do outro lado da ponte, na região continental da cidade, que já foi a região onde se originou a maioria das escolas de samba: Império do Samba, Filhos do Continente, Acadêmicos do Samba, Coloninha, Quilombo, Quilombo dos Palmares e o bloco Lufa-lufa, que virou escola de samba mais tarde.

Apesar de diversas agremiações carnavalescas, que surgiriam com maior ênfase nas décadas de 1970 e 80, nos anos 50 e 60, no continente, havia pouca movimentação de samba fora do carnaval. Somente na Coloninha: basicamente no clube Monte Castelo, aos domingos, meio dia; e no bar chamado de Casinha Azul, que mais tarde seria o local da sede da escola de samba Coloninha. O pessoal se juntava para conversar, beber, jogar um dominó ou um carteado. Sociabilizar. Costumeiramente, um samba acontecia.

Segundo o pesquisador Velho Bruxo, dizem que o bairro Coloninha tem esse nome pelo fato das casas da região serem todas iguais. Dizem os mais velhos que havia um senhor que construía uma casa por dia. Por isso, algumas casas eram meio tortas.

Sabaráh, que tempos depois fundaria o grupo Senti Firmeza, referência na década de 1980, conta como surgiu a escola de samba da Coloninha, ainda como escola mirim. Nas redondezas, num determinado dia, um grupo de crianças andava pela rua, na época de carnaval, batucando alguns sambas e passaram pela casa de Seu Porrete, onde rolava uma partida de dominó. Tita (membro da Velha Guarda da Coloninha), Cizenando e outros senhores abordaram as crianças, e lhes perguntaram se elas gostavam de samba. Com a resposta positiva, os mais velhos resolveram criar uma escola de samba mirim. Nascia, no início de 1962, a escola de samba mirim Unidos da Coloninha. Entre as crianças, estava Sabaráh.

Servidão Buchelle, na Coloninha. Ao fundo, à direita, uma das últimas casas era do “Três Beiço”. Não há registro do ano da foto. Segundo o pesquisador Velho Bruxo, a foto deve ser da década de 1960. Acervo Velho Bruxo.

No bairro da Coloninha, outro personagem do samba relembrado é Mário do Banjo. Um “preto do cabelo bom”, como se costumava chamar os negros que tinham cabelo liso. Todo sábado ele sentava na varanda de casa, ligava o banjo, estilo americano, em uma caixa amplificadora e mandava chamar Sabaráh, que aprendeu a tocar pandeiro com seu pai, para acompanhá-lo durante a tarde tocando sambas.

Além da Casinha Azul e do clube Monte Castelo, no início da década de 60, no bairro, boêmios, sambistas, batuqueiros iam ao Bar do Bugrinho, chamada de Venda do Bugrinho. Venda daquelas de vender saco de feijão, arroz por quilo, com caderneta de “fiado”. Aos sábados, Seu Nelson do Cavaco, do Morro da Caixa, e outros frequentavam esse lugar pra um samba.

A Coloninha também tinha seu batalhão de botequeiros. Tita; Seu Boca; Cizenando; Maneca; Carlito, tocador de trombone; Nego Chico, também conhecido como “Três Beiço”, tocava pistom; seu irmão, Pelé, chamado de Miganga, que tocava pandeiro; Nego César, no cavaquinho. Todos facilmente encontrados nos botiquins mais vagabundos e batucadas da Coloninha.

Muitas dessas pessoas se encontravam também atrás da Venda do Seu Oswaldo ou na casa do Três Beiço, como por exemplo: Seu Bastião, pai do Nego César, e Cizenando. A casa ficava em uma vila da Servidão Buchelle, também na Coloninha.

Outros locais eram frequentados para se ouvir um samba, porém, com menor intensidade: Sociedade Tamandaré, um salão grande, cheio de mesa de sinuca onde menor de idade não podia entrar, por conta dos jogos; Clube do Pau do Meio, cujo nome singular é oriundo do layout. O salão foi construído ao redor de um tronco de árvore, que servia para segurar o forro.

Os pais e tios dos integrantes do grupo Novos Bambas, formado em 2000, hoje com a faixa etária na média de 25 anos, lembram que na década de 1960, aos domingos, eles costumavam organizar festas em sua casa, no Morro da Caixa do continente. Eram os avós do grupo Novos Bambas. Um dos cantores da Unidos da Coloninha hoje, Sabaráh, primo deles, costumava ir, levado pelo seu pai e tio, Nilton, que tocava pandeiro. Nessa casa se reuniam Chico; Velho Charuto, cavaquinhista e avô do cantor Vlademir Rosa, que em 1997 fundaria o grupo Coisa da Antiga; Varela, seu irmão; Guaracy, no pandeiro e cuíca; Nelson do Cavaco; Placidino, também conhecido como Chatim, no cavaco; e Evaristo, o Nito, no violão, avô dos integrantes do grupo Novos Bambas; Amaro, seu irmão e pai do Seu Campos, que tempos depois fundaria o grupo Caximônia; Damião; Genésio; e Didino, pai do Cachaça, uma das figuras centrais do bar Silvelândia, que tornou-se referência de samba em fins da década de 1990. Esses 3 últimos tinham aulas de violão com Nito. As aulas não eram cobradas e eram ministradas de um jeito informal.

Todas essas pessoas se reuniam frequentemente no morro, na casa do Nito. Tudo era motivo para festa: Terno de Reis, Cacumbi, Natal, aniversários, e tudo terminava em “corinho”, como se chamava o samba. Nessas festas se usavam pandeiro, surdo, caixa de fósforo, panela, colheres, pente. Qualquer coisa parada não demorava pra se tornar um instrumento. Quando alguém atravessava o samba, tocando fora do ritmo, alguém berrada: “Te bandera!” e o sujeito parava.

Os pais e tios dos Novos Bambas contam também que Seu Charuto, Nelson, Chatim, Nito, Varela e Guaracy chegaram a formar um grupo e tocavam pela cidade. O grupo não tinha nome e não durou muito tempo.

No Morro da Caixa do continente o pessoal também costumava fazer samba no bar do Bacatela, na Venda do Cachimbo e no Bar Coringa. Este último ficava na Rua Santos Saraiva e foi por anos o principal ponto de referência da região. O Bar fechou em meados de 2005.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Oficina de samba

Eu e meu amigo Dôga estamos com uma oficina de samba todas as terças-feiras, às 19h, no Arco Íris, na Travessa Ratclif, perto do Terminal antigo Cidade de Florianópolis.


E o que é uma oficina?
Segundo o dicionário Michaelis, oficina significa:
sf (lat officina) 1 Lugar onde se exerce um ofício. 2 Laboratório. 3 Lugar onde trabalham os oficiais e aprendizes de algum ofício ou arte.

E o que seria uma oficina de samba?
Lá a gente vai estudar um pouco de tudo. Percussão, cordas, levadas, prática em conjunto, estudo das vertentes do samba, diálogo sobre o samba e sua história, etc.

A oficina é gratuita e não há período de inscrição. Basta chegar, preencher o formulário e começar a participar.

Tragam seus instrumentos! Se não tiver, não tem problema. Venha mesmo assim!

Todas as terças, às 19h, no Instituto Arco Íris, na esquina da Travessa Ratclif com o calçadão da João Pinto.

terça-feira, 6 de maio de 2014

[HSF] “Não tem placa de bronze, não fica na história”

Os sambistas famosos anônimos, já explicados no começo desta reportagem, são sambistas de rua, que morrem sem glória, depois de tanta alegria que nos deram. Destes, os primeiros, que aprenderam com os primeiros músicos, os marinheiros, eram ligados a algum bloco ou escola de samba. Até porque era um dos poucos lugares onde eles podiam tocar samba abertamente. Tanto a Protegidos quanto a Copa Lord surgiram no Morro da Caixa, mas somente o pessoal ligado à Copa Lord costumava fazer rodas de sambas. Da Copa Lord surgiram vários sambistas como o Seu Bigode, pai do Seu Mário Cesar, atualmente com 65 anos, da Velha Guarda da Copa Lord; Armandino Gonzaga; Azomar; Nelinho; Valdir Táboas; Geraldo; Tião; Toca (pandeirista e irmão do Tião); Vidomar; Ito, percussionista; Lao; Dato; Cainha. Com exceção de Bigode, que não frequentava tão assiduamente a batucada, todos eram muito ligados a samba e participavam das festas no morro. Seu Bigode era o fiscal do salão nos bailes na sede da escola (criada na década de 1970). “Um crioulo alto, que impunha respeito”, como diz Seu Mário César.

Um dos primeiros redutos de samba de Florianópolis foi o Bar do Segundo, na década de 1940, que serviu de palco para algumas batucadas até meados da década de 70, e lugar de frequente convívio dos moradores do morro.

Naquela época, havia no Morro da Caixa muitos músicos que faziam sambas, outros sambas canções, serestas e havia, ainda, os que apenas participavam das boemias, sem envolvimento com o carnaval. Entre elas, Seu Nelson, mais conhecido como Nelson do Cavaquinho, morador da parte de cima do morro. Segundo moradores, vivia sempre bem trajado, mas não andava muito com os que lá residiam. Descia o morro na sexta-feira e retornava no domingo ou somente na segunda-feira pela manhã, ébrio. Seu Nelson andava muito pelas bandas continentais, na Coloninha. Segundo o músico Sabaráh (em entrevista concedida em 2011), Seu Nelson adorava tocar cavaquinho, porém, quem apresentasse o instrumento para ele, ainda sóbrio, iria conhecer o seu lado ranzinza.

Outro músico do Morro da Caixa bastante lembrado nas entrevistas é o Seu Noca, também cavaquinista. Ele tocava com o cavaco afinado em meio tom abaixo. Quem fosse tocar junto e usar como referência os seus acordes, teria, fatalmente, uma dificuldade em acompanhá-lo. Atualmente Seu Noca está doente, prefere ficar resguardado em sua residência e não quer dar entrevistas. Nem ser visto. Uma curiosidade: depois de algumas desilusões com a música, desfez-se de seu instrumento. A pessoa que hoje tem o cavaquinho de Seu Noca conseguiu ter acesso a ele há alguns anos e colheu dele algumas informações. Ela conseguiu comprar o cavaquinho dele em uma transação de terceiro e descobriu por coincidência que o cavaco pertencera ao Seu Noca. Declarou que ele se arrependeu de ter se desfeito do cavaquinho. Diante disso, a pessoa prefere não ser identificada, com receio que ele ou a família possa pedir o instrumento de volta e, pelo fruto da bondade, acabar entregando artefato tão raro.

No samba-enredo da Copa Lord para o carnaval de 1989, “A vez e a voz do morro”, de Celinho da Copa Lord, há um trecho que diz: “Lá vai o Noca pra pura do barril / Na invernada o oricongo do Gentil”. Não se trata do mesmo Noca. No Morro da Caixa havia outro, famoso pelos tragos constantes.

Do bairro Agronômica, outro nome muito lembrado entre os entrevistados mais velhos sambistas é a do violonista Nilton Setúbal. Para quem é músico, pode parecer simples, mas Setúbal chamava atenção na época por transpor tons das músicas com uma facilidade única. Tocava qualquer música em qualquer tom. Nilton tocou muito com Mazinho do Trombone. Mazinho é uma das figuras mais respeitadas no mundo musical em Florianópolis e um dos músicos há mais tempo em atividade. O violonista Guilherme Partideiro conta que, certa vez, tocando com Mazinho, acompanhando a cantora Maria Helena, tentava enganá-lo, escolhendo músicas que Mazinho não conhecia. Na primeira passagem da música, Mazinho apenas ouvia. Na segunda, já vinha tocando nota por nota, sem erro.

No Morro do Céu concentravam-se muitos músicos sambistas, sem relação com as agremiações carnavalescas. Vários foram os entrevistados como Wagner Segura, Jean Leiria, Duduco, Bira Pernilongo, entre outros, que lembraram de sambistas do Morro do Céu com extrema facilidade e saudosismo. Entre os nomes lembrados, estava o do violonista Pinheiro, falecido no final de 2010. Apesar de residir na ilha, Seu Pinheiro frequentava muito a região continental de Florianópolis. Também do Morro do Céu, havia o bandolinista Avícola, que tocava bandolim muito bem. Morava na Rua Cruz e Sousa e costumava bater ponto onde atualmente funciona o Bar da Helô, na mesma rua. A família ainda reside no morro e possui guardado seu bandolim. Conterrâneo de morro, havia Seu Medeiros, um excelente cantor, e que continuou sua trajetória até as décadas de 1970, no Iate Clube Veleiros, na Beira Mar Norte. É do Morro do Céu também o violonista Canhola, um canhoto, que tocava violão de destro. E com uma destreza admirável, segundo os entrevistados.

Um moço que sempre era visto com um sorriso no rosto e um pandeiro na mão, com um bailado singular era Tenente, irmão de Seu Lidinho. Segundo o professor Márcio de Souza, uma roda de samba não estava completa se Tenente não estivesse presente. Já seu irmão, Lidinho, desfila desde o primeiro ano, em 1955, na Copa Lord, e hoje é membro da Velha Guarda da escola. Frequenta os sambas pela cidade e é o primeiro a começar a dançar e o último a terminar. Segundo Avez-vous, “Seu Lidinho é o único que tem perna e autorização para dançar nas apresentações da Velha Guarda”.

Seu Mário César, da Velha Guarda da Copa Lord, ainda lembrou que, no Monguilhote, região da subida do Morro da Mariquinha, no Centro, também havia samba. Infelizmente, os entrevistados não lembraram quem eram os atores dessa manifestação. Apenas se sabe que havia uma roda de samba por lá.

Muitos desses senhores citados acima iam para o continente para frequentar os botiquins de lá. Naquela época, os botequins mais frequentados pelos sambistas era no bairro da Coloninha.

Nenhum deles compunha. Pelo menos não há nenhum registro, seja escrito, seja na memória dos mais velhos, de composições desses músicos citados. Segundo Seu Marinho, da Velha Guarda da Protegidos, até houve alguma composição ou outra, mas não eram registradas. Cantavam no momento e depois ninguém mais dava atenção àquilo. Nem mesmo o compositor.

Durante a pesquisa, os músicos citados pelos entrevistados como tais, eram somente os que tocavam algum instrumento de harmonia, como cavaquinho, violão e bandolim. Os batuqueiros não eram citados quando questionados sobre os músicos de antigamente. Embora muitas rodas, e até mesmo nos desfiles das escolas (até o surgimento do equipamento de som, na década de 1970), somente se usava instrumentos de percussão, mesmo por aqueles que sabiam tocar instrumento de corda.

Esta geração de sambistas foi responsável pelas primeiras rodas de samba, ainda tímidas, nos subúrbios da cidade. Mas exercerão fortes influências para as novas gerações.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

[HSF] “Ninguém quer essa vida assim, não, Zambi”

Nos anos de 1940 e 1950, segundo relatos dos entrevistados, como o Velho Bruxo, as pessoas que gostavam de samba só podiam exteriorizar isso tranquilamente nas escolas de samba. E durante o carnaval. No resto do ano, restavam os botecos, tendinhas e festas de família. Mas quem frequentava os botecos e tendinhas não costumava ser muito benquisto perante a sociedade. Um reflexo da divisão social da cidade. Mesmo que alguns dos músicos de rádio morassem nos morros. Zininho era morador do Morro da Mariquinha. Mas era profissional do rádio. Seu Nelson do Cavaquinho, por exemplo, era morador do Morro da Caixa. Mas era profissional dos “botiquins mais vagabundos”, como diz um samba de Moacyr Luz, fazeno referência aos botequins sem acabamento, com paredes salpicadas, balcões tortos, chão de cimento, mesas pensas, mas cervejas sempre geladas. Zininho e Nelson eram de famílias distintas. Enquanto um tinha um sobrenome conhecido na sociedade florianopolitana, mal se sabia o sobrenome de Nelson.

Florianópolis era uma cidade pequena e que primava muito pelo sobrenome. E quem tinha determinado sobrenome, zelava por ele para manter a sua imagem e a de sua família perante a sociedade e, consequentemente, seu sobrenome. Florianópolis também era uma cidade muito urbana. Boa parte da população era formada por funcionários de órgrãos do governo, prefeitura. Poucos sobrenomes ditavam as regras da cidade. Basicamente ligados à política e aqueles que eles consideravam de bem. Paralelo a isso, os donos de comércio privavam de certa influência. Isso porque todos precisam comer, se vestir, se locomover. No mais, só teriam grande êxito na vida se tivessem sorte. Então quem fazia parte desse ciclo não costumava se misturar com quem não fazia parte. Embora quem não fizesse parte fosse tão ou mais trabalhador quanto as ditas famílias de bem. Talvez até trabalhassem mais.

Além, claro, das disputas políticas entre Arena e UDN, Avaí e Figueirense. Era mais ou menos assim que era dividida Florianópolis. E no carnaval, a elite frequentava a Praça XV, e se dividiam entre as grandes sociedades Tenentes do Diabo e Granadeiros da Ilha, enquanto o povo ia pra Conselheiro Mafra. Por mais que sejam poucos metros de distância.

E é do povo que surge em maior quantidade, e menos conhecidos da grande mídia, os sambistas. Os que tocavam nas rádios são mais famosos. Estavam na mídia. Eram sempre citados. Conhecidos por toda a cidade. Já os que tinham outros empregos e nos fins de semana frequentavam os “botequins mais vagabundos”, só eram conhecidos entre os que tinham outros empregos e fins de semana frequentavam os “botequins mais vagabundos”. No carnaval ajudavam a colocar os blocos ou escolas na rua. São estes sambistas, “famosos anônimos”, que irão contribuir positivamente na influência aos sambistas que surgem depois.

A primeira geração de músicos, os que vieram do Rio de Janeiro trazendo os instrumentos, os sambas e as formas de tocar, incentivou os que criaram as escolas de samba Protegidos e Copa Lord, e serviu de incentivo para os que viam as rodas de samba e tinham interesse em participar dessas confraternizações.