terça-feira, 8 de abril de 2014

[HSF] “Pelos salões da sociedade” Florianopolitana

Na história oficial de fundação da Copa Lord, em 1955, os 4 fundadores estariam em frente ao bar ouvindo sambas no rádio. Se tocava samba na rádio, é porque tinha alguém para ouvir. E em Florianópolis havia público que apreciava samba. Sim! A música popular tinha seu público há muitos anos na capital catarinense. Mesmo antes de existirem as escolas de samba, Florianópolis recebeu o flautista Patápio Silva, vindo do Rio de Janeiro. Patápio tocava choro, um gênero musical primo do samba, como bem caracterizou o escritor André Diniz em seu livro “Almanaque do Samba”, escrito em 2006. Vivíamos o longínquo ano de 1907.

Florianópolis, no início do século XX era uma cidade pequena*. Em 1907, quando Florianópolis recebe o flautista Patápio Silva, a infraestrutura era precária. A cidade tinha um péssimo sistema de sanemaneto básico. Basta dizer que em 1909, segundo o blog do pesquisador Velho Bruxo, começa a canalização de água potável, para a capital (leia-se o Centro da cidade). O livro “Patápio, músico erudito ou popular?” diz que, segundo uma estatística feita na Capital Federal, a causa da maior mortalidade em consequência de moléstia infecto-contagiosa, foi, em primeiro lugar, a tuberculose e, em segundo, a gripe. Patápio contraiu uma “hemoptise”, hemorragia no aparelho respiratório, e morreu em poucos dias em Florianópolis.

Reprodução do jornal O Dia, de 14 de abril de 1907, dando destaque à Patápio Silva. Imagem: Artur de Bem.

Muito possivelmente poucos florianopolitanos conheciam a música de Patápio, pois, ainda não havia rádios no Brasil e poucos tinham acesso a discos gravados. O jornal O Dia, da imprensa florianopolitana, em 13 de abril de 1907, registrou com muita ênfase e excitação a vinda do flautista: “Chegou hontem a esta cidade
o exímio flautista brasileiro Pattapio Silva, que dará no proximo domingo o seu unico concerto. Excusado é reproduzirmos o que temos regístrado a respeito d’esse distincto patricio.” A notícia especificava, ainda, o local da apresentação: “Na proxima quinta-feira dará elle o seu 1º concerto, no Club 12 de Agosto, a que é dedicado. Para isso está organisando um programa cheio de atractivos”. Patápio tocaria no dia 18 de abril de 1907, quinta-feira, no Clube 12 de Agosto, mas ficou doente e faleceu no Hotel do Comércio, prédio que atualmente abriga a loja Casas Bahia, na Rua Conselheiro Mafra, em frente ao prédio da Alfândega, no Centro.

Somente 20 anos depois, em 1927, temos registros da vinda de outros músicos do Rio de Janeiro para Florianópolis. Eram Os Batutas classificados por alguns autores como “jazz band”. O grupo era formado por Pixinguinha (flauta e sax), Donga (violão, banjo e cavaquinho), Aristides Júlio de Oliveira (bateria), Alfredo de Alcântara (pandeiro), Ismerino Cardoso (trombone), Bonfíglio de Oliveira (piston), Mozart Corrêa (piano), João Batista Paraíso (saxofone) e Augusto Amaral - o Vidraça (ganzá). O grupo voltava de uma excursão pela Europa e apresentou-se no Teatro Álvaro de Carvalho, no Centro, com um repertório de sambas, marchas, emboladas, maxixes, choros e jazz.

Em 5 de junho de 1932 o grupo Azes do Samba também vem do Rio de Janeiro para tocar no Cine Ritz, que ficava na Rua João Pinto (quando o Cine Ritz parou de operar, ele funcionava na Rua Arcipreste Paiva, ao lado da Catedral Metropolitana). O grupo realizou quatro apresentações em um único dia e era formado: pelo “Rei da Voz” Francisco Alves, Mário Reis (voz), Nonô (piano), Peri Cunha (bandolim) e Noel Rosa (violão). Sim! Noel Rosa** esteve em Florianópolis! E dizem até que ele bebeu umas cervejinhas no bar do João Bebe Água, atual Bar do Miltons, no calçadão da João Pinto.

Três apresentações relativamente importantes para a história da música em Florianópolis. Todas elas antes ainda de qualquer registro de escolas de sambas de Florianópolis.


*Para se ter uma noção do tamanho da capital catarinense na época, segundo o pesquisador “Velho Bruxo” em seu blog, em 1880 havia 8 praças, 47 ruas, 4 travessas, 8 becos, 8 igrejas ou capelas, 2 cemitérios (um público e outro luterano). Segundo o pesquisador Victor Antônio Peluso Junior no artigo “O crescimento populacional de Florianópolis e suas repercussões no plano e na estrutura da cidade”, em 1900 a cidade tinha apenas 13.474 habitantes. Não encheria o estádio do time do Figueirense hoje.

**Antes de Florianópolis, os Azes do Samba estiveram em Porto Alegre. Lá, Noel teria se engraçado com uma moça, e na despedida, no cais, a moça teria dito: “Até amanhã!”. No caminho para a capital catarinense, Noel compôs o samba que leva esta expressão, e teria sido executada pela primeira vez em terras florianopolitanas.

Até amanhã
(Noel Rosa)

Até amanhã se deus quiser
Se não chover eu volto pra te ver, oh, mulher
De ti gosto mais que outra qualquer
Não vou por gosto, o destino é quem quer

Adeus é pra quem deixa a vida
É sempre na certa em que eu jogo
Três palavras vou gritar por despedida
"Até amanhã, até já, até logo!"

O mundo é um samba em que eu danço
Sem nunca sair do meu trilho
Vou cantando o seu nome sem descanso
Pois do meu samba tu és o estribilho

Eu sei me livrar do perigo
No golpe de azar eu não jogo
É por isso que risonho eu te digo:
"Até amanhã, até já, até logo!"

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