quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Só não passa a dor de uma saudade

São Paulo!!! Ah, São Paulo!!!
São Paulo da garoa, São Paulo terra boa!!!

Ir para São Paulo é uma das maiores felicidades do mundo!! Se você nunca foi a São Paulo, deve ir!!

Já não é a primeira vez que vou visitar esta bela cidade com nome de santo e tão belo encanto. São Paulo, terra onde se planta e tudo dá. É uma glória poder visitar esta terra brasileira!

O nervosismo de perder o avião e deixar de ver os amigos na última oportunidade do ano, numa das melhores festas de samba, dos @migos do samba.com, fez com que eu acordasse meio ruim na manhã da viagem. Mas depois de aterrissar em terras paulistanas, já fui me acalmando.

Desde que cheguei, na sexta, não parei. Congonhas, Centro, Fradique Coutinho, Vila Buarque, Rua Augusta, Bom Retiro, Centro. Aí eu descansei. Domingo foi Mauá. Pra não perder o costume.

Sambisticamente falando, a oportunidade de tocar com pessoas como Junior Pita, Adriana Moreira, Alfredo Castro, mesmo que numa canja de 3 músicas, é arrepiante. Adriana Moreira tem um axé inexplicável. Cris, obrigado pela oportunidade! A Ação Educativa é excelente!

José Ramos Tinhorão. O maior, com 1,65m (por aí).
O evento principal do fim de semana, no sábado, no Anhanguera, foi emocionante. Para mim, pelo menos. Conheci e tirei uma foto com o maior de todos, José Ramos Tinhorão, fui homenageado por tabela no troféu Pé de Cachorro e tive a honra de participar da roda do Glória ao Samba na homenagem ao Chatim.

Enquanto se armava a roda do Glória, conglomerado de pessoas com sérios distúrbios e que andam na contra mão da música brasileira, que eu sou fã incondicional, eu conversava com Saci e Gustavão e ele me perguntou se eu não ia participar da roda. Quando me virei, me deparei com Paulo Mathias apontando pra mim e me chamando. Foi o primeiro instante de emoção. Gelei. Mas corri. Peguei o cavaquinho e sentei, todo faceiro.

Na primeira música da homenagem ao Chatim, ninguém me viu chorar, mas juro que chorei. Com a cabeça baixa sem cantar. Se eu abrisse a boca naquele momento, ia abrir um berreiro junto. Depois de me recompor um pouco, pude levantar a cabeça e apreciar o momento.

Siiinooooooo...
Era eu do lado de meus ídolos! Lo Ré, Mateus, Tuco, Marcelo, Jorgera, Paiva, Paulo Mathias, Padeirinho, Zeca, Galego, e demais.

E os sambas inéditos. Cantados com vontade. Como se fossem grandes sucessos da rádio ou tv. Como se fosse o último samba da vida de cada um. E a força do coro. E o lençol de vozes. E a batucada infernal. E o samba se repetindo inúmeras vezes, sem se prender pra padrões de gravações. E zaz... e zaz...

Foi demais! Foi uma Glória!!!

Domingo em Mauá, uma feijoada de primeira, e uma confraternização excelente. Nem precisaria de uma roda. Nem parecia que aconteceria algo expressivo. Mas com Edinho, Baseado, Didi, David, Léo, e o Lo Ré, sempre o Lo Ré, juntos, é inevitável que não aconteça alguma batucada. E a bagunça foi brasa! Por cima de Brasa!

Resumindo tudo isso, eu fico cada vez mais envaidecido e emocionado de estar presente em momentos como esses, com todos esses citados, e mais um pouco. Pessoas que tem troscentos anos de história, um profundo conhecimento de samba e, acima de tudo, um excepcional tratamento com o próximo. Uma vontade e alegria de transmitir o conhecimento que eles adquiriram.

Eu tenho uma eterna gratidão com todos por tudo que eles me ensinam, mesmo sem querer, mesmo sem saber. Cada viagem para São Paulo é uma aula. Volto revigorado.

Posso escrever 412 páginas que não vou conseguir descrever minha alegria, nem agradecer a todos como deveriam e como quero.

A indisposição que eu tive antes de viajar já passou. Só não passa a dor de uma saudade.


quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Agora sim eu sou feliz!

Depois de tanto ficar nessa brincadeira de procurar samba antigo, encher o HD de músicas, catar troscentos dvds de programas Ensaio, shows, documentários, finalmente consegui, junto com meu amigo Dôga, colocar um pouco em prática isso tudo.

Passei anos baixando álbuns do blog Prato e Faca; copiando o HD externo do Vinicius Terror, Fernando Paiva, Fernandinho Pavão; pedindo sambas pro Lo Ré, Tuco, Paulo Mathias, Edinho, Baseado; até que um dia eu pensei: "Não tenho condições de colocar isso em prática. Pra que ficar pedindo sambas inéditos pra eles?". Comecei a ficar constrangido de pedir músicas.

Hoje fico constrangido de não conhecer as novidades que eles encontram de músicas inéditas.

Hoje, quando participo de uma roda de samba com eles, não canto, por não conhecer metade do repertório deles.

Mas a partir de hoje a coisa muda de figura!

Hoje eu e o Dôga conseguimos juntar umas criaturas que não conheciam esse formato de samba, pudemos abrir uma porta para eles, plantar uma semente, colocar uma pulga atrás da orelha, e incentivá-los a executar. Mas antes disso, criamos novos amigos.

Hoje me sinto um pouco mais aliviado de conseguir passar pra frente tudo aquilo que tanto estudava.

Obrigado, velho Aldo, André, Andréia, Caio Elton Medeiros, Caroline, Dôga, Gabriela, Gutorre, Gustavo, Jaque, Leandro, Léo, Lucas Morcego, Mauro, Nilton, Rafael, Sandro.

Foi só o primeiro ano.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

Todo dia é Dia Nacional do Samba

Índio só é índio no Dia do Índio?
Preto só é preto no Dia da Consciência Negra?
Então porque o sambista só deve fazer samba no Dia Nacional do Samba?
Dia do Samba pra mim é todo dia!

Em Florianópolis, há uma Oficina de Samba promovida pelo Instituto Arco Íris e ministrada por mim e pelo meu amigo Dôga. A oficina acontece toda terça-feira na sede do Instituto, na Travessa Ratclif. Dentro do nosso planejamento da oficina, percebemos que, coincidentemente, dia 2 de dezembro caía numa terça-feira. Pensamos: "porque não?". Faríamos uma roda de samba, nosso encerramento oficial com chave de ouro, coroando tudo que foi aprendido durante a oficina.

Eis que no sábado anterior à terça do dia 2 ficamos sabendo que está sendo organizado um evento na mesma travessa, no mesmo horário, pra celebrar a mesma data. A pessoa que está envolvida com isso é a mesma que organizava o Dia Nacional do Samba no terminal de ônibus e no Mercado Público, e que não pagou os músicos nas 2 últimas edições que organizou enquanto possuía um cargo público.

Pois bem. Adiamos o encerramento da nossa oficina para a terça seguinte. De qualquer forma nos encontramos todas as terças. Uma a mais ou uma a menos não nos fará diferença. Não é por causa disso que vamos ficar tristes. Afinal, ainda nos encontraremos na terça do dia 2. Assim como fizemos durante todo o ano de 2014. Assim como continuaremos fazendo frequentemente mesmo quando a oficina acabar. Porque encontrar os amigos é muito mais importante do que qualquer samba.

Não precisamos de Dia Nacional do Samba. Praticamos samba todos os dias. Desde quando acordamos e a primeira palavra que dizemos pela manhã é "Bide", uma das pessoas mais importantes da música brasileira; até dormir, quando fazemos uma oração a Paulo da Portela, nosso deus supremo, agradecendo pelo dia que tivemos.

Aliás. Como já fazemos samba naturalmente, o dia 2 de dezembro teria que ser um dia de folga para nós, e não de trabalho. Por isso, homem, fique! Fique com o seu Dia Nacional do Samba! Pague seus músicos da forma que lhe convém! Alimente seu ego insaciável! Afinal de contas, nunca frequentaste os sambas que acontecem na Travessa, nem a própria Travessa, que tanto idolatras. Eu vou deixar tu curtir teu dia de ilusão. Brincar de gente importante e preocupada com a cultura.

Vá, sambeiro! Seja feliz nesse Dia Nacional do Samba e deixe os sambistas fazerem seus sambas o resto do ano. Porque enquanto distribuis drogas legalizadas disfarçadas de remédios para as pessoas, nós, sambistas, alegramo-as e curamos seus males com música, cultura e alegria.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Gravações raras e inéditas para download

Oportunidade de ouro de ouvir gravações raras!!! Só depende de nós!!! Basta um simples cadastro com nome e e-mail.


Votem no site do selo Legacy Recordings (CLIQUE AQUI) para que o selo disponibilize para download as faixas do histórico álbum ‘Native Brazilian Music’, incluindo os oito registros que nunca foram lançados:
Tristeza (samba do morro de Cartola)
Cartola e pastoras da Mangueira
Afoché (candomblé de Zé Espinguela)
Zé Espinguela e Grupo do Pai Alufá
Samba do Urubu (variações de Pixinguinha)
Pixinguinha e conjunto regional de Donga
Apanhá Limão (samba de Jararaca)
Conjunto regional de Donga
Samba da Lua (batucada de Donga e David Nasser)
Conjunto regional de Donga
Quando uma Estrela Sorri (marcha-rancho de Donga, Villa-Lobos e David Nasser)
Conjunto regional de Donga
Primeiro Amor (samba do morro de Cartola e Aloísio Dias)
Cartola e pastoras da Mangueira
Meu Amor (samba do morro de Cartola e Aloísio Dias)
Cartola e pastoras da Mangueira


Conheça a história do disco por Daniella Thompson, uma americana apaixonada pela cultura brasileira e que luta por ela.

"Era uma vez uma gravadora americana
que pôs suas mãos em algumas músicas raras
e maravilhosas e as tornou ainda mais raras.
Esta é a história de minha busca por Native Brazilian Music."

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Barrados no baile

Com essa maravilha da modernidade, a tal "evolução", as escolas cresceram e passaram a ter quadras com cobrança de entrada, porteiro, segurança, catracas, etc. O mais importante passa a ser o dinheiro, e não mais a convivência da comunidade. Quanto mais gente entrar, mais eles faturam. Só que Velha Guarda nem sempre pensa assim, e vira e mexe algum membro é barrado na porta da escola que ajudou a fazer crescer, ou por vezes fundou.

Foi assim com um compositor da Mocidade. Depois de ser barrado na porta da escola, foi pra casa e compôs um samba de terreiro que diz assim: "Mostrando a minha identidade / Eu posso provar a verdade / A essa gente / Como eu sou da Mocidade Independente".

Marimbondo (foto), da Unidos de Vila Rica, também teve um caso parecido e compôs: "E vou contar / A minha mágoa, minha dor / Fui barrado na porta da escola que sou fundador".



E o pior é que essa história não é coisa da modernidade, somente. Em 1941, Paulo da Portela foi barrado no desfile da escola. Em casa, com muita mágoa no coração, compôs: "O meu nome já caiu no esquecimento / O meu nome não interessa a mais ninguém". O caso do Paulo foi um pouco mais complexo, mas está dentro do contexto.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

[HSF] “Teve um tremendo pagode que você nem pode imaginar”

Essa é a última parte da série de postagens com a reportagem que eu fiz pro meu TCC sobre a história do samba de Florianópolis com o título de "Os famosos anônimos na construção do samba em Florianópolis", defendida em dezembro de 2013.


“Pagode” sempre foi definido como uma festa com música. Não necessariamente samba. No nordeste, por exemplo, esse termo também é usado para definir uma festa regada a forró. De “festa onde tem samba” para um apelido para o próprio samba, é um pulo. As pessoas usavam este termo de várias formas: “Fui num pagode bom”, “Eu sou do pagode”, “Fiz um pagode novo, escuta só”.

Foto de 2003 com os sambistas do Morro da Caixa que faziam sambas na década de 1980. De boné branco e óculos escuros na cabeça, Jorge Nascimento. Acervo Jorge Nascimento.

Os anos de 1980 foram uma época de transição. O termo “pagode” começa a ter nova definição. O que era usado como uma festa, ou sinônimo para samba, passa a ser usado como uma variante do samba. Um ritmo mais lento, temas mais românticos, inclusão de outros instrumentos como o teclado e a guitarra. As gravadoras percebem que há um nicho de mercado ainda a ser explorado e começa a investir neste meio e difundir o “pagode” com esse formato mais romântico. Disputando com esse novo formato de pagode, há os que ainda utilizam o termo “pagode” pra designar um sinônimo de samba. Esta confusão persiste até hoje em dia.

Com a popularização do pagode, André Calibrina, da Aeronáutica, Chulapa, da Marinha, e outros marinheiros, trazem este estilo para Florianópolis em fins de 1985. Às sextas-feiras organizavam um pagode (ou samba) no Bar do Petit (atual Bar Canto do Noel), na Travessa Ratclif, no Centro da capital, com uma caixa de cerveja fornecida pelo dono do bar para o grupo. Pela facilidade de poder usar os aviões da Base Aérea, eram trazidos vários vinis do Rio de Janeiro, com as novidades dos sambas de lá: Fundo de Quintal, Zeca Pagodinho, Jovelina Pérola Negra. Maguila, um dos participantes do pagode, sugeriu então montar um grupo. Nascia o Mistura Fina.

André Calibrina conta que o Mistura Fina e demais amigos, iam até a Barra da Lagoa pra fazer um samba descompromissado, sem cobrança de ingresso. Iam de ônibus mesmo. O repertório era recheado de Bezerra da Silva. Passados cerca de 40 anos desde os primeiros registros de samba, com uma quantidade muito maior de músicos, os espaços para sambas ainda eram escassos.

Depois do surgimento do Mistura Fina, vários outros grupos são formados para acompanhar a moda. Segundo o sambista Bira Pernilongo, o “Pagode pra Senti Firmeza”, de Celinho da Copa Lord, foi feito em homenagem a um desses grupos.

No Mercado Público, como tinha movimentação de samba, criou-se o Projeto Fundo de Quintal, de terça a sexta, das 19h à meia noite. O evento terminava, efetivamente, faltando 15 minutos para meia noite, para que houvesse tempo dos músicos e público pegarem o último ônibus que saía do Terminal Cidade de Florianópolis. Os locais afloram: Clube Tiro Alemão, na Avenida Mauro Ramos (atual Igreja Universal do Reino de Deus), onde Frank e Carvalhinho embalavam o público com samba-rock; Bar do Ênio (atual Centro Sul), aos sábados à tarde, onde o “Samba Sete” tocava; Quiosque do Umbu (atual Associação dos Empregados da Eletrosul – Elase), onde o Mistura Fina tocava; próximo da Praça do Saco dos Limões (atualmente há uma Igreja); sede da escola de samba Copa Lord, no Morro da Caixa; sede da escola de samba Coloninha; Bar do Cal, próximo da sede da Coloninha; Clube Barrufa; Sociedade Recreativa e Cultural Limoense, no Saco dos Limões; Cobra Criada, próximo do Shopping Itaguaçu, em São José.

Os concursos de sambas de quadra ainda continuavam sendo realizados, no ginásio da Fundação Atlética Catarinense – FAC, no Clube Umbu ou na ELASE. Neste último, num concurso da Consulado, o compositor Cláudio Caldas chamou a cantora Maria Helena, que se apresentava na Sociedade Recreativa e Cultural Limoense, para participar defendendo o samba “Deixa que te ame”, acabando por se tornar o vencedor do primeiro concurso dessa escola.

André Calibrina conta que o compositor Paulinho Carioca organizava um encontro de grupos de pagode para difundir e divulgar os sambas e os grupos. Eles saíam a pé, tocando pelas ruas, acompanhados de uma caixa de som para amplificar alguns instrumentos e voz. Sem local fixo para se apresentar, a saída era tocar no meio da rua.

Além dos locais fixos citados, o samba acontecia em eventos aleatórios. É nesses lugares que pessoas que não participavam de grupos mostravam seu valor como compositores, cantores, improvisadores, percussionistas ou com instrumentos de corda: Paulinho Carioca; Maguila; Elias Marujo; Maranhão; Dica; Jorge Luis; Serginho Chapadão; Bira Pernilongo, Pireli; Djalma; Lagartixa, o Rei Momo; Carlinhos do Pandeiro; Carlinhos do Pandeiro, do Monte Verde; Carlinhos da Tuba, chamado de Nego Beiçola; Mestre Rato; Pirelli; as cantoras Jane, Fafá, Brenda, Elisah. Alguns destes citados atualmente estão afastados do meio do samba. Outros, infelizmente, já falecidos.

Na década de 1980, os batuqueiros do morro continuam suas atividades. Jesus, no cavaco; Jorge; Gonzaga Boca de Cantor; Adilson; Pacote, no pandeiro e tumbadora; Tonho no violão de 7 cordas; e Nego Fifi, no surdo, grupo de sambistas que se juntavam para tocar sem formar um grupo com nome. O grupo não era acostumado a usar aparelhagem de som, nem “boca de ferro”, como era chamado o microfone. Eram sambas feitos acusticamente e muitas vezes no improviso, usando caixa de leite, que o leiteiro deixava no armazém, garrafa, lata, prato e faca. O que fosse encontrado virava instrumento. Alguns moradores até paravam para ver, ouvir, e apreciar a música, muitas vezes, até de madrugada. É esse grupo que vai dar início às primeiras rodas de samba no Silvelândia, na década de 1990, lembrado até hoje pelos que frequentaram como a melhor roda de samba da história de Florianópolis.

Nos fins de 70 e início de 80, despontam, também, os grupos regionais, com violões, cavacos, bandolins, flautas e pandeiro. Choro, sambas, sambas cançõese serestas estavam em alta.

É nesse embalo que surgem os grupos Vibrações, Nosso Samba, Regional do Paulo Guimarães, do bandolim; Regional do Zequinha, também compositor; e Regional do Chiquinho, segundo Irê Silva, um barbeiro do Morro da Mariquinha, que fechava a barbearia às 18h e ficava tocando na porta do estabelecimento com seu grupo.

Na Beira-Mar Norte havia o Iate Clube Veleiros. Nesse clube, participavam João Medeiros, reconhecido como um grande cantor, manco por conta de um problema na perna; Seu Noca, o do cavaco, que também cantava; Célio, do bandolim; a cantora Cleide Amon; Aldo Gonzaga, no piano; a cantora Neide Maria Rosa; Paulo Padilha; Mazinho do Trombone; Djalma; Wagner Segura, no cavaco; e Alberto Vitor, também cavaquinista.

Wagner Segura, paulista, chegou em Florianópolis ainda criança e já adulto começou a estudar música com Laércio, que também ainda se encontra em atividade. Estudava, também, com o violonista de 7 cordas Eduardo, afastado do mundo do samba por questões pessoais, tio do sambista Dôga, que desponta nos anos 2000.

Laércio, por sua vez, aprendeu muito com o violonista Yvonésio Catão, também cantor de seresta. Yvonésio acompanhou por diversas vezes Neide Maria nas rádios e é avô de George, que viria a ser cavaquinista do samba no Silvelândia, em fins da década de 1990.

Na Lagoa da Conceição, leste da Ilha de Santa Catarina, a cantora Neide Maria Rosa era proprietária do Restaurante Saveiros, também local de encontro de sambistas e chorões. Mais tarde, Neide fundou o bar Lá na Neide, no Centro da capital, que durou poucos meses. Em sua residência também eram organizados encontros.

Por um período, antes da criação do Bar do Tião, aos domingos, depois do futebol, por volta das 19h, na praçinha do bairro Monte Verde, um pessoal, a maioria anônimo, se reunia para tocar choro. Entre os identificáveis, Zequinha; Nilo Dutra, no clarinete; e Carlinhos do Pandeiro do Monte Verde, falecido em 2013.

Mais tarde, foi aberto o Bar do Tião, em 1992, anexo à residência do próprio Tião, no Monte Verde, que se tornou uma referência de samba na cidade até hoje. Esse bar foi criado por alguns motivos: entre eles, por não haver um local para se tocar samba; por pedido da esposa do Tião, que não queria mais o marido nas noitadas da cidade; e, de forma natural, pois a casa do Tião já era um ponto de encontro dos músicos e onde se faziam sambas e serestas.

Outro bom cantor e compositor dessa época é Wilmar Silveira, seresteiro. A família resolveu gravar o áudio de algumas festas em que se executavam suas músicas, a fim de que elas não fossem esquecidas. Esse acervo está com Wagner Segura.

Vez ou outra havia um intercâmbio com músicos cariocas. A história costuma se repetir. É cíclica. Foi exatamente assim que surgiram os primeiros sambistas em Florianópolis. Mas dessa vez, Wagner Segura foi estudar música no Rio de Janeiro e trouxe para Florianópolis o modo de tocar sambas por cifras. Era o início da profissionalização dos músicos na cidade. Na década de 90, Wagner abriria o Centro Musical Wagner Segura, responsável pelo ensino da maioria dos músicos de samba e choro que se tornaram profissionais. Diz-se, até, que Wagner ensinou metade dos músicos de Florianópolis. A outra metade teve aula com os alunos dele.

A década de 1980 foi de experiências. Com o surgimento de uma nova roupagem para o samba e com a popularização do choro em Florianópolis, primo musical do samba, essa geração aproveitou o momento para experimentar novas formas de tocar, cantar, novas músicas, novos lugares, instrumentos. Aproveitaram, também, para estudar. Era tudo muito novo. Quem não acompanhasse as inovações, estaria, fatalmente, fora do ambiente de samba.

No Centro da cidade, o Restaurante Gralha, fundado nos anos 90, passa a abrigar sambas e serestas. Isso porque a proprietária era a cantora Maria Helena, que vinha do Rio de Janeiro e trazia seu irmão Bira 7 Cordas para comandar a parte musical.

Silvelândia em 1999. Jeisson ao microfone, Cachaça de gorro e George no cavaquinho próximo da caixa de som. Acervo Jeisson Dias.

Atrás do Clube 12 de Agosto, na Avenida Hercílio Luz, próximo do Ministério da Fazenda, havia uma pequena garagem, o restaurante Chega Mais. Nesse lugar, reunia-se, nos fins de tarde, um grupo formado por Jesus, Jorge, Gonzaga, Adilson, Pacote, Tonho e Nego Fifi, todos do Morro da Caixa. Cerca de 300 pessoas iam assistir a roda de samba. Foi em um desses encontros que apareceu um “branco metido”, como foi internamente chamado, com um tantã, cujo som abafava a timba que o grupo usava. Era Du Seara, que despontava como percussionista. No local hoje funciona um chaveiro. Próximo do carnaval, em meados de 1994/1995, esse grupo começa a fazer samba no Silvelândia, um bar próximo da Catedral. Foi lá que o grupo conheceu outro “branco metido”, Jeisson Dias, tocando banjo, até ser interrompido por sua má execução na época.

Pouco tempo depois, em 1996/97, Jeisson começa a organizar uma roda de samba no quiosque da Praça Pereira Oliveira (Praça do Teatro Álvaro de Carvalho – TAC). Semanas depois, muda o local e passa a tocar no Silvelândia. O grupo do morro já não tocava mais. Nesse bar, Jeisson organizava, toda quarta-feira, a que é considerada por todas as fontes que frequentaram o local como a melhor roda de samba que Florianópolis já teve. Jeisson Dias, Cachaça e George, no cavaquinho, eram praticamente os únicos fixos. Nessa roda de samba, todos tocavam tudo. Guilherme Partideiro, violonista, lembra que chegava e perguntava ao Jeisson qual instrumento que gostaria que ele, Guilherme, tocasse, pra ajudar. Frequentemente sobrava o repique de mão. Muitos músicos surgiram dessa roda. Jeisson também compunha. Um samba seu era o ponto máximo do Silvelândia, “Meu lar é residência do samba”. Em 2000, houve um incêndio no bar e o samba acabou.

Na mesma época de criação do samba no Silvelândia, em 1997, surgia um grupo no bairro Jardim Dona Adélia, em São José, o Um Bom Partido. O grupo tinha o propósito de cantar sambas antigos. Era um repertório diferente de outros conjuntos da época.

No ano do incêndio do Silvelândia, formava-se, em São José, um movimento de partido alto, modalidade de samba feito de improviso. Nesse movimento, na sede do Centro Comunitário de Forquilhinhas, em São José, surge o grupo Número Baixo. No mesmo ano, no Morro da Caixa do continente, dentro de um programa social, surge o grupo Novos Bambas.

Nessa época, havia ainda os grupos Coisa da Antiga e Kadência do Samba. Esses, e mais os grupos Número Baixo, Novos Bambas e o Um Bom Partido, faziam os Encontros de Samba Raiz no Arte Brasil, no bairro Costeira.

No Casarão, na Praça XV, Maria Helena cantava sambas e sambas-canções. O Casarão também foi palco para apresentações de Um Bom Partido.

Projeto Cultural Mantendo as Tradições no Praça 11, comandado pelo grupo Número Baixo. Registro feito por Artur de Bem em 2006.

Em 2004,é inaugurado o Restaurante Praça 11, em São José, cujo proprietário é o Amarildo, exintegrante do grupo Um Bom Partido. Em fevereiro de 2005, tem início o Projeto Cultural Mantendo as Tradições, todo sábado, organizado pelo grupo Número Baixo. O objetivo principal desse encontro era apresentar sambas locais, incentivar novos instrumentistas, cantores, compositores e partideiros, aqueles que improvisam. Pretendia-se, com o formato de roda de samba, ao invés de palco, facilitar a integração e interação dos músicos com a plateia.

Posso assegurar que o Projeto deu resultado. Eu fui frequentador do Praça 11 por quase 2 anos ininterruptos. A primeira vez foi dia 9 de julho de 2005, no aniversário de um amigo. A partir da segunda visita, comecei a ter contato com os músicos a ponto de me tornar amigo íntimo deles, participar de viagens, ajudar na organização de eventos e interferir, um pouco que seja, na história do samba da cidade. Atualmente assumi o posto de cavaquinista do grupo Um Bom Partido. Com a minha interferência no samba da cidade, termino a minha pesquisa. O que acontece depois disso, já não seria mais necessário fazer pesquisa. Apenas lembrar do que vivi.

A partir de 2005, decidi por não contar mais sobre a história, sobre os personagens, para evitar falar de mim mesmo. Deixemos isso a cargo de um próximo jornalista.


*Pagode pra Senti Firmeza
(Celinho da Copa Lord)

Esse é o pagode pra Senti Firmeza
Vejam, gente, que beleza
Quem quiser pode chegar
Tem samba de Guineto e Pagodinho
Alcione e Martinho
Dona Yvonne Lara
Também tem samba de João Nogueira
Beth, maior pagodeira
Clementina e Guará
Só Preto Sem Preconceito, meu senhor
Lá no Fundo de Quintal teu chamego me ganhou

E tem Bezerra que é fera no partido
No terreno do improviso Jovelina vai versar
Roberto Ribeiro, Marquinhos Sathan e Pedrinho da Flor
Isso é pra Senti Firmeza
Nosso samba arrebentou


*Meu lar é residência do samba
(Jeisson Dias)

Meu lar é a residência do samba
E não adianta a luz se apagar
Que assim mesmo existe um bamba
Balança a massa super tropical
É um ritmo fundamental
Que faz o meu povo cantar e sambar

O samba é um abraço
O samba é a corda
O samba é oração
E quem vem pra uma longa viagem
Até desafia a imaginação
Para o mundo inteiro já posso provar
Na escola de samba ou na mesa de bar
É só o samba que faz a alegria em qualquer lugar

terça-feira, 17 de junho de 2014

[HSF] Produções

Florianópolis não possui uma cultura muito forte de gravar discos, muito menos de samba. A maioria dos vinis ou CDs de grupos do gênero foram gravados no Rio de Janeiro ou São Paulo. Há alguns estúdios na cidade, mas poucos dedicados ao estilo e por vezes falta dinheiro aos grupos para bancar um bom estúdio. Com tudo isso, mesmo quando um CD é gravado em Florianópolis, dificilmente há um trabalho de continuidade e distribuição. Grava-se o CD e passado alguns meses, o CD cai no esquecimento. Do próprio grupo, as vezes. Tudo isso influi no personagem compositor. Não havendo uma cultura de gravação, consequentemente, não há cultura de composição. Até porque, desde o princípio, o samba veio do Rio de Janeiro já pronto, por vezes incluindo as músicas, apenas reproduzidas em Florianópolis.

Em fins da década de 1970, em 1978, 79, a casa da Wânia Farias, da Velha Guarda da Protegidos, na Base Aérea, era muito frequentada por alguns dos sambistas aqui apresentados como Marco do Violão; Sabaráh; Mauro Brito, músico carioca; e jogadores de futebol. É nesse local que Wagner Segura começa a tocar, cavaquinho. Depois passa pelo bandolim e se populariza no violão de 7 cordas.

quinta-feira, 12 de junho de 2014

[HSF] “Assim já posso ser compositor”

Nas rodas de samba de Florianópolis, eram tocados os sambas que vinham principalmente do Rio de Janeiro. Até a década de 1970, não era costume entre os florianopolitanos compor sambas. Mesmo que sempre existindo a figura do compositor, os sambas eram feitos apenas em festas de famílias e não eram registrados de nenhuma forma. Findada a festa, as músicas eram esquecidas, junto com os autores.

Os primeiros compositores que foram reconhecidos como tais eram aqueles que faziam parte das escolas de samba. Mesmo assim, não havia entre eles o hábito de compor para as escolas e nem sempre apresentavam sambas nos carnavais. Havia uma ou outra composição, mas o mais comum era desfilar com sambas de escolas do Rio de Janeiro de anos anteriores. E mesmo quando as escolas desfilavam com sambas locais, nem todos eram catalogados. Em 1956 houve o registro. A Copa Lord desfilou com o samba “Vem forasteiro”, de Avez-vous. Na década de 1970 essa cultura muda, e as escolas passam a desfilar integralmente com produções locais.

Fora do ambiente das escolas de samba, não havia quase nenhum compositor. No fim da década de 1970 e nos anos 80, Aldírio Simões organiza concursos de músicas e de samba de quadra da Protegidos e Consulado, que incentivam os compositores já consagrados, guardadas as devidas proporções, das escolas, e estimulam o aparecimento de novos. É desses concursos que surgem, entre outros nomes, Zuvaldo, João Carlos, Nazareno, Mato Grosso, Josué Costa, Dica e C. Bernard, o Mickey. Este, africano, morou muito tempo no Rio de Janeiro e Porto Alegre antes de fixar residência em Florianópolis. Mickey era conhecido por ser um bom compositor e também por ser briguento. Tinha o costume de impor suas idéias e convicções, mas não aceitava muito uma controvérsia.

Na Copa Lord, o primeiro compositor foi Avez-vous. O hino da escola, “Quem vem lá” é cercado de lendas e boatos. O samba seria da escola de samba Canário das Laranjeiras, do Rio de Janeiro, trazido a Florianópolis por Lambreta, membro de uma das escolas de samba de Florianópolis, e apresentado a Avez-vous e Armandino Gonzaga, presidente da Copa Lord na época. O samba acabou por ser registrado com autoria de Avez-vous e Fogão, ex-goleiro do Botafogo e do Avaí, com breve passagem por Florianópolis. No Rio, na sede da Canário de Laranjeiras, a atual diretoria informou não conhecer este samba. Os fundadores da escola são membros da velha guarda, mas não foram localizados.

Depois de abertas as porteiras, surgiram outros compositores como Nelson Wagner, autor não só de sambas, mas de valsas, choros, canções. Nelson é irmão do Tazo, que foi proprietário do Bar do Segundo depois do Seu Secundino.

Em 1978, quando Armandino Gonzaga, o eterno presidente da Copa Lord, faleceu, o professor Lucas de Jesus, um admirador da escola, compôs um samba de quadra em sua homenagem, cantado até hoje pela Velha Guarda da escola. Não se tem mais registro de outro samba composto pelo professor Lucas.

Tião, que surgiu no Morro da Caixa e colocou o bairro Monte Verde no mapa do samba nacional com seu bar, também compunha, mas não para o carnaval. Suas músicas eram, na grande maioria, sambas-canções.

Além dos concursos, outro fator que contribuiu para o surgimento de novos compositores é o pagode, que explode em todo o Brasil na década de 1980. Leonel Januário, Paulinho Carioca, Bira Pernilongo, Maguila, Jorge Luiz, André Calibrina, Elias Marujo, Mato Grosso, entre outros, são alguns dos mais lembrados compositores de pagode de Florianópolis. Muitos deles já compositores com passagens pelas escolas de samba, que se voltam à produção de sambas para grupos. Não havia motivação, pois as músicas não eram gravadas e nem executadas em rádio.

Será no fim da década de 1990, com o surgimento de grupos de samba com uma nova proposta, de cantar sambas mais antigos do Rio de Janeiro, com uma roupagem diferente do que era executado em Florianópolis, é que aparecem compositores novos, como Dinho, Jandira, Fabricio Gonçalves, Jeisson Dias. Nos anos 2000, a lista aumenta: Dôga, Raphael Galcer, Guilherme Partideiro, Marçal do Samba, Rafael Leandro, Marcelo 7 Cordas, Du Kadência.

Alguns compositores como Mirandinha, Cipriano, Waldir Brasil e Zininho compunham e executavam suas músicas para serem tocadas nas rádios locais. Essa turma encontrava-se sempre no Miramar, restaurante que ficava no Trapiche Municipal, na época bastante frequentado por todos os artistas da cidade, e que foi derrubado na década de 70 por conta do aterro. Cláudia, filha de Zininho, relata que ele fez uma carta, assinada por outras pessoas, e entregou ao prefeito, solicitando que o Miramar não fosse derrubado. Tempos depois, alterou uma palavra aqui, outra ali, musicou, e saiu um samba com o nome do restaurante.


*Tributo a Armandino Gonzaga
(Lucas de Jesus)

Mas quem vem lá
De amarelo, vermelho e branco
Assim você cantava
Com seu sorriso franco
Hoje a saudade em verso se transformou
Cantando pra um amigo
Que se foi pra longe
Todo mundo viu e chorou
E quando eu me encontro no morro
Por mais que eu procure
Não vejo você
Amigo, viemos pra avenida
Com lágrimas sentidas pra lhe exaltar
Láláláiá, a Copa Lord vem homenagear
Láláláiá, ao Armandino esse amigo sem par


*Miramar
(Zininho)

Digníssimo senhor prefeito
Mui respeitosamente
Estamos diante de Vossa Excelência
Para pedir humildemente
Senhor prefeito
Por favor, mande recuperar
O nosso velho e querido Miramar
Pergunte ao Waldir Brazil
Daniel, Narciso e Dião
E a outros velhos boêmios
E eles também dirão
Que era ali
Que nasciam as serenatas
Era ali que os sambas nasciam
Ao som de um violão
Senhor prefeito
Por favor, mande recuperar
O nosso velho e querido Miramar

terça-feira, 10 de junho de 2014

A higienização da cidade

Começo do século XX, década de 1900. Rio de Janeiro. O prefeito Pereira Passos inicia um processo de limpeza urbanística. Derruba todas as pensões, os cortiços, as vilas de moradores pobres do Centro da cidade para abrir espaço para novas avenidas. Sem ter para onde morar, e sem qualquer preocupação da Prefeitura sobre que fim teriam essas pessoas, elas vão para os morros.

100 anos depois, quando a gente pensa que o mundo estaria mais evoluído, mais civilizado, em São Paulo, Porto Alegre e demais cidades do país acontecem vários "acidentes" em diversas comunidades pobres, causando grandes incêndios, que as tira do mapa. De novo o Estado não se preocupando com as pessoas. Coincidentemente, é período de Copa do Mundo.

Em Florianópolis não haverá nenhum jogo da Copa. Nenhuma casa está sendo demolida, nenhuma comunidade está sendo devastada. Quer dizer... bem... Mas a cidade está passando por um processo semelhante. E o Centro da cidade está mudando.

Há muitos anos que os comerciantes pedem que a Prefeitura dê mais assistência para o lado pobre do Centro. Do lado de cá da Praça XV. Do lado dos Correios. Do lado da Rua João Pinto. Do lado da tendinha do Seu Cláudio. Do lado da Escola Estadual Antonieta de Barros. Do lado da Rua Tiradentes. Do lado do Hotel Royal. Do lado do Bar do Milton. Do lado da Travessa Ratclif. Do lado do Bar do Noel.

Alguns desses lugares já não existem mais. A tendinha do Seu Cláudio, que funcionou por uns 30 anos. A Escola Antonieta de Barros, que fechou as portas há uns 10 anos. O Hotel Royal, que agora é um prédio comercial. O Bar do Noel, que já não é mais o Bar do Noel, mas o Bar do Vinícius de Moraes. Moraes e bons costumes.

A Travessa, e arredores, sempre foi um lugar underground. E o que significa underground? Traduzindo literalmente do inglês, um degrau abaixo. Um nível abaixo. Submundo. A região era um local de comunistas, mendigos, vereadores, secretários, jornalistas, bêbados, adolescentes ávidos para mudar o mundo, etc. Sempre vivendo em harmonia.

Mesmo frequentada por pessoas da pior espécie, a escória da nossa sociedade imbecil, malandro não se criava na Travessa. Ela tinha figuras emblemáticas que cuidavam dela: Seu Amilton e o Sandrão, por exemplo. Talvez por serem, eles mesmos, parte dessa escória da nossa sociedade imbecil. Hoje, infelizmente, eles já não mais trabalham lá.

O que acontece agora é uma higienização da Travessa. A cerveja que era vendida a preços populares de R$ 5, R$ 6, agora é vendida a R$ 9. Com os 10% chega a R$ 9,90. Logo, arredonda-se pra R$ 10. E nem é litrão.

A Travessa sofre com um mal que assola vários locais do país: o efeito Veja. Um bar ganha o título de melhor bar do ano da revista e passa a ser frequentado por toda uma classe média. Um degrau acima. Um nível acima. O mundo. Pseudo-comunistas, cocainômanos, universitários, trabalhadores de escritório com ar condicionado.

Pra ajudar a piorar a situação, moradores de rua que moravam ali, na Travessa, João Pinto, Vitor Meirelles, Nunes Machado, na rua, estão sendo "convidados a se retirar" da região. Um deles, com uma barba grande, já foi encaminhado para sua cidade de origem, Porto Alegre. Meio contra a sua vontade, mas se ele saiu das ruas de Floripa é o que importa, né?

Trabalho muito bem realizado a partir de uma força tarefa da Polícia Militar e Prefeitura Municipal de Florianópolis. Só falta remover agora os outros cerca de 500 moradores de rua. Dispostos, PM e PMF?

E o que faz uma pessoa morar na rua? Falta de oportunidade de trabalho, falta de lugar pra morar, brigas com a família, drogas. São cerca de 500 motivos. Mas a solução é uma só: "convidar a se retirar" da rua e encaminhar pra sua cidade de origem. Pra que se importar? Pra que tentar resolver seus problemas? São só moradores de rua. Eles que procurem resolver os seus problemas sozinhos. Fora das ruas. Em casa. E pouco importa se essa casa tem estrutura. Se a família tem condições. Isso é problema deles.

Conheci alguns moradores de rua. Alguns bilíngues, outros com ensino superior completo. Músicos, atores, e demais profissões. Quem diria.

Florianópolis não está devastando comunidades? É uma questão de ponto de vista. Os moradores de rua estão sendo dizimados. O Centro da cidade está sendo devastado, descaracterizado. O Centro precisa de moradores de rua? Não. Mas eles precisam ser tratados, e não simplesmente tirados forçadamente das ruas.

A Prefeitura quer “limpar” o Centro, mas não se preocupa, por exemplo, em arrumar o sistema de esgoto, que mensalmente cisma em querer subir para as calçadas, trazendo à tona, literalmente, a merda toda. É a resistência do underground! Do submundo! E quando tem samba na Travessa, ela lembra a Lapa. Que bonito! Só que o Rio e a Lapa, principalmente, fedem a urina.

Na região, sintetizando tudo isso, tem um espaço que tem um trabalho de quase 20 anos com prostitutas, usuários de drogas, pessoas com problemas de saúde mental, presidiários. Aquela escória da nossa sociedade imbecil. Além disso, o espaço se preocupa, também, há anos, com a parte cultural. Esse ano de 2014 são 8 oficinas sendo oferecidas gratuitamente: dança afro, samba, violão, coral, capoeira, figurino, informática e percussão. Só que isso tudo está perigando acabar porque sofreram uma ação de despejo de uma universidade pública.


E assim, o Centro da cidade – que tem uma história de cultura para os pobres, mendigos, moradores de rua, feito muitas vezes por eles próprios, que todo mundo acha bonito quando vê na TV, mas que ninguém quer por perto – agora vira as costas para a escória da nossa sociedade imbecil, renega seu passado, e passa a fornecer “cultura” para membros da nossa classe média, que entopem o nariz de cocaína, mas são da classe média, aí pode.

sábado, 7 de junho de 2014

Um Toco de choro

O famoso anônimo Toco Preto ganha um cd todo em sua homenagem

Artur de Bem

A primeira rotação do disco passou comigo lendo o encarte. Nunca li um encarte com tanta tranquilidade e serenidade. Mesmo com os tiros que, dizem, terem disparado no morro onde moro na tarde em que me deliciava com o disco.

Na segunda passada do disco, chorei. Chorei por causa da beleza das músicas e com o esmero da execução. Mesmo conhecendo o pouco que conheço de Agnaldo Luz e Luizinho 7 Cordas, sei que o trabalho foi realizado com muito amor e competência, que lhes compete. É o primeiro disco autoral de Agnaldo e o 2º de Luizinho, que tem 54 anos de carreira, e já participou de outros tantos álbuns.


E Agnaldo Luz estreia brilhando. A começar pela escolha do repertório. Todo em homenagem ao grande chorão Toco Preto. Depois, pelo competentíssimo Regional que o acompanha: Luizinho 7 Cordas, Ricardo Cassis no violão, Gustavo Cândido no cavaquinho e Pedro Pita no pandeiro, e as participações de Leonardo Miranda na flauta, Nailor Proveta no clarinete, Yuri Reis no cavaquinho, Oswaldinho do Acordeon, e do próprio homenageado, Toco Preto, fazendo uma participação em uma faixa, no cavaquinho. E como bem disse Pedro Amorim no texto do encarte, “neste disco não tem nota jogada fora”. O CD tem 2 músicas inéditas de Toco Preto: "Malvina" e “Recordando os velhos tempos”, em parceria com Agnaldo.

E quem é esse senhor com apelido de entidade da umbanda? É uma entidade do choro! Toco Preto, nascido Ormindo Fontes de Melo, é um dos maiores cavaquinistas do Brasil. E por ser um dos grandes da nossa cultura, quase que por regra, é um famoso anônimo. O apelido nada tem a ver com a religião. Ganhou ainda criança, quando raspou o cabelo.

Aos 8 anos começa seu interesse pela música, por influência do pai, que tocava cavaquinho. Aos 20, demonstrando muita habilidade em seu instrumento, entra para a Rádio Mayrink Veiga, que na época era uma das principais rádios do país. Já ostentando certo prestígio no meio musical, foi convidado pelo compositor, pianista e radialista Ary Barroso para integrar o conjunto musical do programa de calouros intitulado “A Hora do Calouro”, programa que obteve grande êxito e sucesso por vários anos e até os dias de hoje é copiado pela TV Brasileira.

A partir da década de 70 Toco Preto evidencia sua carreira como solista gravando 9 Lp’s. Em 1977, por iniciativa de Hermínio Bello de Carvalho, fundou, ao lado de Zé da Velha (trombone), Josias (flauta), Rubens (piston), Valdir (violão 7 cordas), Jairo (violão 6 cordas), Parada (surdo) e Jayme (pandeiro), o “Grupo Chapéu de Palha” e com o mesmo lançou dois Lp’s: o primeiro em 1977, e o segundo em 1979. Em 1980, com o fim do grupo, Toco Preto muda-se para São Paulo por intermédio de Pedro Sertanejo (pai de Oswaldinho do Acordeon), grande produtor de discos de forró e proprietário da gravadora Cantagalo, com a promessa de realizar inúmeras gravações, e assim foi feito.


Escondido em São Paulo desde a década de 1980, Toco Preto estava quase esquecido. Muitos achavam que ele já tinha morrido. Agnaldo, que mora na capital paulista, soube que o mestre estava morando na mesma cidade e foi procurar conhecê-lo. Depois de alguns dias tentando marcar um encontro, finalmente conseguiu agendar uma visita até a residência do mestre. Chegando por volta das duas horas da tarde e saindo por volta da meia noite. Foi um bom primeiro encontro. Dos encontros que se seguiram, Toco apresentou coisas que Agnaldo nunca tinha ouvido, e Agnaldo apresentou coisas do Toco que nem o próprio tinha.

Toco Preto teve a oportunidade de se apresentar ao lado de grandes nomes da música brasileira além de Ary Barroso; Odete Amaral, Dircinha Batista, Roberto Silva, Ciro Monteiro, Ademilde Fonseca, Gilberto Alves, Orlando Silva, Orlando Correia, Claudete Soares, Luiz Gonzaga, Cartola, Nelson Cavaquinho, Jamelão, Waldir Azevedo, Carmem Costa, Abel Ferreira, Altamiro Carrilho, Otaviano Pitanga, Mario Pereira, Genival Lacerda entre outros.

Toco esteve ao lado de grandes nomes da música brasileira. Luizinho, apesar do diminutivo, é grande! Agnaldo é novo. Mas nem por isso diminui sua importância. Agnaldo é grande! Toco esteve ao lado de grandes nomes da música brasileira e agora, ou já há algum tempo, se torna, ele mesmo, apesar de toco, um dos grandes da música brasileira.

Dentre cerca de 300 músicas, e de um universo musical variado, que permeou por guitarras, bandolins e cavaquinhos, Toco Preto tem composições que vão de músicas pra gafieira até o choro. Para o CD, foram escolhidos os choros, para se tocar por um regional. Foi gravado, basicamente, em 3 dias de seção de estúdio. 18 horas de gravação. No último dia foram gravadas as participações. Ensaiaram, ensaiaram, para poder passar o menor tempo possível no estúdio. Gravando todos juntos. Como deve ser.


Esse CD é um marco na história do choro no país. Não houve nenhum trabalho anterior deste tipo para servir como referência. Agnaldo e Luizinho são a referência. São pioneiros. Medo da responsabilidade de ser pioneiros? “Não. Acho que não. Quando a gente põe o coração e a boa vontade na frente, as coisas acontecem com naturalidade. E a única coisa que a gente esperava era a alegria dele (Toco). E isso a gente conseguiu. Acho que o objetivo foi alcançado. O que vier agora é lucro”, responde Agnaldo.

Mais do que um belo CD, com belas músicas, belas execuções, o CD consegue transmitir a alegria e a emoção do reencontro de velhos amigos como são Toco Preto, Luizinho e Oswaldinho, amigos de longa data, recordando os velhos tempos, e os de pequena data, como Agnaldo e os músicos do regional. É um reencontro e uma reapresentação do Toco Preto aos músicos e ao mundo.

Toco Preto nasceu em 7 de junho de 1933. Hoje ele faz 81 anos.

Parabéns, Toco Preto! Você merece isso e muito mais!




E pra quem quiser adquirir essa preciosidade, pode procurar Agnaldo Luz no facebook ou enviar um e-mail para agnaldo.bandolim@gmail.com. O valor? R$ 25 com frete incluso para todo Brasil! Eu recomendo!

terça-feira, 3 de junho de 2014

[HSF] “Digníssimo senhor prefeito”

Airton de Oliveira, que até o início de 1980 respondia pela Diretoria de Turismo de Florianópolis, a Diretur, quando passou a se chamar Secretaria Municipal de Turismo pelo decreto lei número 1.674/1979, convidou Nilo Padilha, funcionário da Prefeitura, ainda na década de 1970, para trabalhar no órgão, pelo fato de Nilo ter contato com o pessoal das escolas de samba, principalmente a Protegidos. Por haver muita dificuldade de se encontrar um grupo de samba profissional, Airton pediu para Nilo montar um grupo. Criou-se, então, o Nós e o Samba. Com a saída da Airton da Diretoria, o grupo termina.

Com a dissolução do grupo “Nós e o Samba”, Nilo monta outro grupo: Máquina do Lazer Samba Show: ele no reco-reco e prato; Marquinhos do Cavaco; João Antônio, na voz; Pedrinho, no surdo; Tião, no violão; e Beto, que Nilo não se recorda o instrumento que tocava. Em seguida, após uma confusão interna, o grupo se desfez. Na mesma época, surge o grupo “Samba Sete”, que fazia um samba onde era a boate Lupus, localizado na SC-401. Da Lupus, o grupo foi tocar no restaurante que mais tarde pertenceu à cantora Neide Maria Rosa, na Lagoa.

Nilo Padilha conta que, na sequência, surge o grupo “Malícia”, que logo passou a se chamar “Senti Firmeza”, e que se tornou uma referência para os demais grupos que surgiram depois, pois o Senti Firmeza foi um dos primeiros grupos a ir para o eixo Rio-São Paulo gravar um CD. Depois do restaurante que pertenceu à Neide Maria, no começo dos anos 80, o “Samba Sete” começou a se apresentar no Mercado Público, embaixo do relógio, o Ponto 15, o único que pagava os músicos, que ficavam isolados do público por uma corda. Mais tarde, lembra Nilo, o jornalista Aldírio Simões cria o projeto Música no Mercado, com sambas às sextas, com Mazinho do Trombone e seu grupo; e o Samba Sete aos sábados, das 10h às 15h. O Samba Sete era assim composto: Toninho, no violão e voz; Dimas, no cavaco e voz; Alberto Vitor, no banjo e voz; Marinho, no tamborim; Nilo Padilha, no reco-reco, prato e afoxé; Luiz, no pandeiro e cuíca; e Pelé, no surdo.

Os sambas no Mercado Público continuam até hoje às sextas. Mas o investimento já não é mais o mesmo.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

[HSF] “Samba no morro não é samba, é batucada”

A partir da década de 1970 surgem em maior quantidade os grupos de samba e os detalhes
deles passam a ser descritos com a proporção inversa. Em Florianópolis, até a década de 70,
basicamente, o samba que se ouvia em rádios e se reproduzia, conforme contam os sambistas mais
velhos, era o que se conhece hoje por samba canção, com violões, bateria, órgão, pandeiro, flauta,
pistom e trombone. Na região do Canudinhos, área que compreende o pé, a parte baixa, do Morro
da Caixa na parte insular, se reproduzia mais os sambas enredo, com uma batucada mais acentuada,
com surdos, caixas, tamborins, cuícas, pandeiros, chocalhos, tampinha de garrafa e batucadas na
mesa. Os instrumentos de harmonia eram escassos.

Samba e futebol sempre foram uma “paixão nacional”. Nessa época, Florianópolis possuia
vários times de futebol amador. No Morro da Caixa, próximo da Igreja Nossa Senhora do Mont
Serrat, moravam muitos batuqueiros, boêmios e boleiros. O clube de futebol, homônimo da igreja,
era um dos mais fortes da cidade e sempre depois das partidas de futebol havia uma roda de samba.

Como conta Jorge Nascimento, hoje membro do grupo musical da Velha Guarda da Copa
Lord, as rodas eram armadas em diversos pontos do morro, como a Pedra do Paraíso, que
atualmente abriga um heliponto da Polícia Militar. Eles subiam até a pedra para que nenhum
vizinho se incomodasse com o samba, já que não havia ninguém que morasse lá, e para que nenhum
morador incomodasse quem quisesse fazer o samba. O ponto mais próximo da Pedra do Paraíso era
o Pastinho, um pouco mais abaixo, e que também era ponto de encontro. A área é um antigo abrigo
de famílias quilombolas e fica próxima da Escola Estadual Lúcia do Livramento Mayvorne e da
casa do falecido Gentil do Oricongo, famoso no morro e um dos únicos do país a fabricar e tocar o
oricongo, instrumento africano. O Pastinho foi espaço para as rodas de samba até a década de 1980.
Hoje, o pastinho, o mato que ficava no centro do espaço, com as casas ao redor, já não existe mais.
Toda a região do Pastinho é tomada por casas, ruas e vielas.

Logo abaixo da sede da Copa Lord, na Rua General Vieira da Rosa, havia o Bar do Pelado, hoje Bar dos Amigos. Também ponto de encontro dos batuqueiros. As pessoas que faziam essas batucadas no morro eram Jorge; Adilson, conhecido como Galego; Pacote, um respeitado percussionista do morro; Cuca; Kado; Daniel, pandeirista com um pulso forte, pois ninguém conseguia tocar seu pesado pandeiro; Marciel; Noi, tantanzeiro, com uma batida conhecida como “batida do morro”; e Duni, cavaquinista.

Além disso, as festas de aniversário nos morros sempre foram forradas de memoráveis rodas de samba. Talvez o maior e mais famoso aniversário seja o do Tranca Rua, da família Bittencourt, no Morro do Mocotó.

terça-feira, 20 de maio de 2014

[HSF] “Quem é o dono do baile ou o fiscal do salão?”

Além do samba encontramos no Continente outras expressões musicais e ritmos. Assim, conta o pesquisador Velho Bruxo que foi no Continente que surgiu a primeira gafieira da cidade. Gafieira é onde se tocam sambas cadenciados, com predominância de sopros (flautas, saxofones, pistons), feitos para se dançar em casal. Era a gafieira do Laudelino e do Maneca, na avenida Ivo Silveira, em frente à Igreja São Judas Tadeu. Como se não bastasse o fato de ser inovadora, o Velho Bruxo ainda conta que, a gafieira ficou famosa por causa de um acidente automobilístico, quando um carro Karmanguia perdeu o controle na avenida Ivo Silveira e entrou salão adentro, em meados de 1972.

Sardá e sua “trupe” eram os músicos que embalavam as noites dessa gafieira. Mulheres ditas “de família” não podiam frequentar. A música de abertura e de encerramento, às 4 horas da manhã, era a mesma: Aquarela do Brasil. Conta Velho Bruxo que outra peculiaridade do lugar era a entrada. Para entrar na gafieira era necessário descer uma escadaria grande e complicada. Não era incomum que os frequentadores descessem a primeira metade da escada degrau por degrau e a outra metade rolando. Nesses casos, se o indivíduo fosse de boa índole, o porteiro ajudava deixando, pelo menos, a porta aberta para que a pessoa não se esborrachasse na porta. Se não, o desavisado encontrava a porta cerrada e o acidente se tornava pior.

É possível perceber que já não estamos mais falando de escolas de samba. Isso porque, com o tempo, o samba passa a se emancipar delas. Duduco, um famoso personagem da cidade, que foi carnavalesco e confeccionador de fantasias, em entrevista concedida em 2011, resumiu bem: “No Rio de Janeiro primeiro começou o samba, pra depois surgirem as escolas de samba. Em Florianópolis primeiro surgem as escolas pra depois surgir o samba”.

E é mais ou menos por aí. O samba surge praticamente com a criação das escolas de samba e vai de desvencilhando com o tempo, adquirindo autonomia. Além do desfile das escolas, das festas de família e bares, que intensificam em quantidade, o samba passa a ser feito nos salões.

Desde a década de 1940 que já existia samba na cidade, porém, a classe social mais baixa e a etnia negra, a maioria dos que faziam samba, não tinham acesso a clubes e boates, como tiveram na década de 1960, 70, quando começaram a criar esses espaços justamente para abrigar os que não podiam entrar em clubes tradicionais da cidade.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

[HSF] “Vai pro lado de lá, vai sambar”

Os sambas na ilha continuavam, enquanto que as primeiras manifestações mais contundentes de samba surgiam do outro lado da ponte, na região continental da cidade, que já foi a região onde se originou a maioria das escolas de samba: Império do Samba, Filhos do Continente, Acadêmicos do Samba, Coloninha, Quilombo, Quilombo dos Palmares e o bloco Lufa-lufa, que virou escola de samba mais tarde.

Apesar de diversas agremiações carnavalescas, que surgiriam com maior ênfase nas décadas de 1970 e 80, nos anos 50 e 60, no continente, havia pouca movimentação de samba fora do carnaval. Somente na Coloninha: basicamente no clube Monte Castelo, aos domingos, meio dia; e no bar chamado de Casinha Azul, que mais tarde seria o local da sede da escola de samba Coloninha. O pessoal se juntava para conversar, beber, jogar um dominó ou um carteado. Sociabilizar. Costumeiramente, um samba acontecia.

Segundo o pesquisador Velho Bruxo, dizem que o bairro Coloninha tem esse nome pelo fato das casas da região serem todas iguais. Dizem os mais velhos que havia um senhor que construía uma casa por dia. Por isso, algumas casas eram meio tortas.

Sabaráh, que tempos depois fundaria o grupo Senti Firmeza, referência na década de 1980, conta como surgiu a escola de samba da Coloninha, ainda como escola mirim. Nas redondezas, num determinado dia, um grupo de crianças andava pela rua, na época de carnaval, batucando alguns sambas e passaram pela casa de Seu Porrete, onde rolava uma partida de dominó. Tita (membro da Velha Guarda da Coloninha), Cizenando e outros senhores abordaram as crianças, e lhes perguntaram se elas gostavam de samba. Com a resposta positiva, os mais velhos resolveram criar uma escola de samba mirim. Nascia, no início de 1962, a escola de samba mirim Unidos da Coloninha. Entre as crianças, estava Sabaráh.

Servidão Buchelle, na Coloninha. Ao fundo, à direita, uma das últimas casas era do “Três Beiço”. Não há registro do ano da foto. Segundo o pesquisador Velho Bruxo, a foto deve ser da década de 1960. Acervo Velho Bruxo.

No bairro da Coloninha, outro personagem do samba relembrado é Mário do Banjo. Um “preto do cabelo bom”, como se costumava chamar os negros que tinham cabelo liso. Todo sábado ele sentava na varanda de casa, ligava o banjo, estilo americano, em uma caixa amplificadora e mandava chamar Sabaráh, que aprendeu a tocar pandeiro com seu pai, para acompanhá-lo durante a tarde tocando sambas.

Além da Casinha Azul e do clube Monte Castelo, no início da década de 60, no bairro, boêmios, sambistas, batuqueiros iam ao Bar do Bugrinho, chamada de Venda do Bugrinho. Venda daquelas de vender saco de feijão, arroz por quilo, com caderneta de “fiado”. Aos sábados, Seu Nelson do Cavaco, do Morro da Caixa, e outros frequentavam esse lugar pra um samba.

A Coloninha também tinha seu batalhão de botequeiros. Tita; Seu Boca; Cizenando; Maneca; Carlito, tocador de trombone; Nego Chico, também conhecido como “Três Beiço”, tocava pistom; seu irmão, Pelé, chamado de Miganga, que tocava pandeiro; Nego César, no cavaquinho. Todos facilmente encontrados nos botiquins mais vagabundos e batucadas da Coloninha.

Muitas dessas pessoas se encontravam também atrás da Venda do Seu Oswaldo ou na casa do Três Beiço, como por exemplo: Seu Bastião, pai do Nego César, e Cizenando. A casa ficava em uma vila da Servidão Buchelle, também na Coloninha.

Outros locais eram frequentados para se ouvir um samba, porém, com menor intensidade: Sociedade Tamandaré, um salão grande, cheio de mesa de sinuca onde menor de idade não podia entrar, por conta dos jogos; Clube do Pau do Meio, cujo nome singular é oriundo do layout. O salão foi construído ao redor de um tronco de árvore, que servia para segurar o forro.

Os pais e tios dos integrantes do grupo Novos Bambas, formado em 2000, hoje com a faixa etária na média de 25 anos, lembram que na década de 1960, aos domingos, eles costumavam organizar festas em sua casa, no Morro da Caixa do continente. Eram os avós do grupo Novos Bambas. Um dos cantores da Unidos da Coloninha hoje, Sabaráh, primo deles, costumava ir, levado pelo seu pai e tio, Nilton, que tocava pandeiro. Nessa casa se reuniam Chico; Velho Charuto, cavaquinhista e avô do cantor Vlademir Rosa, que em 1997 fundaria o grupo Coisa da Antiga; Varela, seu irmão; Guaracy, no pandeiro e cuíca; Nelson do Cavaco; Placidino, também conhecido como Chatim, no cavaco; e Evaristo, o Nito, no violão, avô dos integrantes do grupo Novos Bambas; Amaro, seu irmão e pai do Seu Campos, que tempos depois fundaria o grupo Caximônia; Damião; Genésio; e Didino, pai do Cachaça, uma das figuras centrais do bar Silvelândia, que tornou-se referência de samba em fins da década de 1990. Esses 3 últimos tinham aulas de violão com Nito. As aulas não eram cobradas e eram ministradas de um jeito informal.

Todas essas pessoas se reuniam frequentemente no morro, na casa do Nito. Tudo era motivo para festa: Terno de Reis, Cacumbi, Natal, aniversários, e tudo terminava em “corinho”, como se chamava o samba. Nessas festas se usavam pandeiro, surdo, caixa de fósforo, panela, colheres, pente. Qualquer coisa parada não demorava pra se tornar um instrumento. Quando alguém atravessava o samba, tocando fora do ritmo, alguém berrada: “Te bandera!” e o sujeito parava.

Os pais e tios dos Novos Bambas contam também que Seu Charuto, Nelson, Chatim, Nito, Varela e Guaracy chegaram a formar um grupo e tocavam pela cidade. O grupo não tinha nome e não durou muito tempo.

No Morro da Caixa do continente o pessoal também costumava fazer samba no bar do Bacatela, na Venda do Cachimbo e no Bar Coringa. Este último ficava na Rua Santos Saraiva e foi por anos o principal ponto de referência da região. O Bar fechou em meados de 2005.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Oficina de samba

Eu e meu amigo Dôga estamos com uma oficina de samba todas as terças-feiras, às 19h, no Arco Íris, na Travessa Ratclif, perto do Terminal antigo Cidade de Florianópolis.


E o que é uma oficina?
Segundo o dicionário Michaelis, oficina significa:
sf (lat officina) 1 Lugar onde se exerce um ofício. 2 Laboratório. 3 Lugar onde trabalham os oficiais e aprendizes de algum ofício ou arte.

E o que seria uma oficina de samba?
Lá a gente vai estudar um pouco de tudo. Percussão, cordas, levadas, prática em conjunto, estudo das vertentes do samba, diálogo sobre o samba e sua história, etc.

A oficina é gratuita e não há período de inscrição. Basta chegar, preencher o formulário e começar a participar.

Tragam seus instrumentos! Se não tiver, não tem problema. Venha mesmo assim!

Todas as terças, às 19h, no Instituto Arco Íris, na esquina da Travessa Ratclif com o calçadão da João Pinto.

terça-feira, 6 de maio de 2014

[HSF] “Não tem placa de bronze, não fica na história”

Os sambistas famosos anônimos, já explicados no começo desta reportagem, são sambistas de rua, que morrem sem glória, depois de tanta alegria que nos deram. Destes, os primeiros, que aprenderam com os primeiros músicos, os marinheiros, eram ligados a algum bloco ou escola de samba. Até porque era um dos poucos lugares onde eles podiam tocar samba abertamente. Tanto a Protegidos quanto a Copa Lord surgiram no Morro da Caixa, mas somente o pessoal ligado à Copa Lord costumava fazer rodas de sambas. Da Copa Lord surgiram vários sambistas como o Seu Bigode, pai do Seu Mário Cesar, atualmente com 65 anos, da Velha Guarda da Copa Lord; Armandino Gonzaga; Azomar; Nelinho; Valdir Táboas; Geraldo; Tião; Toca (pandeirista e irmão do Tião); Vidomar; Ito, percussionista; Lao; Dato; Cainha. Com exceção de Bigode, que não frequentava tão assiduamente a batucada, todos eram muito ligados a samba e participavam das festas no morro. Seu Bigode era o fiscal do salão nos bailes na sede da escola (criada na década de 1970). “Um crioulo alto, que impunha respeito”, como diz Seu Mário César.

Um dos primeiros redutos de samba de Florianópolis foi o Bar do Segundo, na década de 1940, que serviu de palco para algumas batucadas até meados da década de 70, e lugar de frequente convívio dos moradores do morro.

Naquela época, havia no Morro da Caixa muitos músicos que faziam sambas, outros sambas canções, serestas e havia, ainda, os que apenas participavam das boemias, sem envolvimento com o carnaval. Entre elas, Seu Nelson, mais conhecido como Nelson do Cavaquinho, morador da parte de cima do morro. Segundo moradores, vivia sempre bem trajado, mas não andava muito com os que lá residiam. Descia o morro na sexta-feira e retornava no domingo ou somente na segunda-feira pela manhã, ébrio. Seu Nelson andava muito pelas bandas continentais, na Coloninha. Segundo o músico Sabaráh (em entrevista concedida em 2011), Seu Nelson adorava tocar cavaquinho, porém, quem apresentasse o instrumento para ele, ainda sóbrio, iria conhecer o seu lado ranzinza.

Outro músico do Morro da Caixa bastante lembrado nas entrevistas é o Seu Noca, também cavaquinista. Ele tocava com o cavaco afinado em meio tom abaixo. Quem fosse tocar junto e usar como referência os seus acordes, teria, fatalmente, uma dificuldade em acompanhá-lo. Atualmente Seu Noca está doente, prefere ficar resguardado em sua residência e não quer dar entrevistas. Nem ser visto. Uma curiosidade: depois de algumas desilusões com a música, desfez-se de seu instrumento. A pessoa que hoje tem o cavaquinho de Seu Noca conseguiu ter acesso a ele há alguns anos e colheu dele algumas informações. Ela conseguiu comprar o cavaquinho dele em uma transação de terceiro e descobriu por coincidência que o cavaco pertencera ao Seu Noca. Declarou que ele se arrependeu de ter se desfeito do cavaquinho. Diante disso, a pessoa prefere não ser identificada, com receio que ele ou a família possa pedir o instrumento de volta e, pelo fruto da bondade, acabar entregando artefato tão raro.

No samba-enredo da Copa Lord para o carnaval de 1989, “A vez e a voz do morro”, de Celinho da Copa Lord, há um trecho que diz: “Lá vai o Noca pra pura do barril / Na invernada o oricongo do Gentil”. Não se trata do mesmo Noca. No Morro da Caixa havia outro, famoso pelos tragos constantes.

Do bairro Agronômica, outro nome muito lembrado entre os entrevistados mais velhos sambistas é a do violonista Nilton Setúbal. Para quem é músico, pode parecer simples, mas Setúbal chamava atenção na época por transpor tons das músicas com uma facilidade única. Tocava qualquer música em qualquer tom. Nilton tocou muito com Mazinho do Trombone. Mazinho é uma das figuras mais respeitadas no mundo musical em Florianópolis e um dos músicos há mais tempo em atividade. O violonista Guilherme Partideiro conta que, certa vez, tocando com Mazinho, acompanhando a cantora Maria Helena, tentava enganá-lo, escolhendo músicas que Mazinho não conhecia. Na primeira passagem da música, Mazinho apenas ouvia. Na segunda, já vinha tocando nota por nota, sem erro.

No Morro do Céu concentravam-se muitos músicos sambistas, sem relação com as agremiações carnavalescas. Vários foram os entrevistados como Wagner Segura, Jean Leiria, Duduco, Bira Pernilongo, entre outros, que lembraram de sambistas do Morro do Céu com extrema facilidade e saudosismo. Entre os nomes lembrados, estava o do violonista Pinheiro, falecido no final de 2010. Apesar de residir na ilha, Seu Pinheiro frequentava muito a região continental de Florianópolis. Também do Morro do Céu, havia o bandolinista Avícola, que tocava bandolim muito bem. Morava na Rua Cruz e Sousa e costumava bater ponto onde atualmente funciona o Bar da Helô, na mesma rua. A família ainda reside no morro e possui guardado seu bandolim. Conterrâneo de morro, havia Seu Medeiros, um excelente cantor, e que continuou sua trajetória até as décadas de 1970, no Iate Clube Veleiros, na Beira Mar Norte. É do Morro do Céu também o violonista Canhola, um canhoto, que tocava violão de destro. E com uma destreza admirável, segundo os entrevistados.

Um moço que sempre era visto com um sorriso no rosto e um pandeiro na mão, com um bailado singular era Tenente, irmão de Seu Lidinho. Segundo o professor Márcio de Souza, uma roda de samba não estava completa se Tenente não estivesse presente. Já seu irmão, Lidinho, desfila desde o primeiro ano, em 1955, na Copa Lord, e hoje é membro da Velha Guarda da escola. Frequenta os sambas pela cidade e é o primeiro a começar a dançar e o último a terminar. Segundo Avez-vous, “Seu Lidinho é o único que tem perna e autorização para dançar nas apresentações da Velha Guarda”.

Seu Mário César, da Velha Guarda da Copa Lord, ainda lembrou que, no Monguilhote, região da subida do Morro da Mariquinha, no Centro, também havia samba. Infelizmente, os entrevistados não lembraram quem eram os atores dessa manifestação. Apenas se sabe que havia uma roda de samba por lá.

Muitos desses senhores citados acima iam para o continente para frequentar os botiquins de lá. Naquela época, os botequins mais frequentados pelos sambistas era no bairro da Coloninha.

Nenhum deles compunha. Pelo menos não há nenhum registro, seja escrito, seja na memória dos mais velhos, de composições desses músicos citados. Segundo Seu Marinho, da Velha Guarda da Protegidos, até houve alguma composição ou outra, mas não eram registradas. Cantavam no momento e depois ninguém mais dava atenção àquilo. Nem mesmo o compositor.

Durante a pesquisa, os músicos citados pelos entrevistados como tais, eram somente os que tocavam algum instrumento de harmonia, como cavaquinho, violão e bandolim. Os batuqueiros não eram citados quando questionados sobre os músicos de antigamente. Embora muitas rodas, e até mesmo nos desfiles das escolas (até o surgimento do equipamento de som, na década de 1970), somente se usava instrumentos de percussão, mesmo por aqueles que sabiam tocar instrumento de corda.

Esta geração de sambistas foi responsável pelas primeiras rodas de samba, ainda tímidas, nos subúrbios da cidade. Mas exercerão fortes influências para as novas gerações.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

[HSF] “Ninguém quer essa vida assim, não, Zambi”

Nos anos de 1940 e 1950, segundo relatos dos entrevistados, como o Velho Bruxo, as pessoas que gostavam de samba só podiam exteriorizar isso tranquilamente nas escolas de samba. E durante o carnaval. No resto do ano, restavam os botecos, tendinhas e festas de família. Mas quem frequentava os botecos e tendinhas não costumava ser muito benquisto perante a sociedade. Um reflexo da divisão social da cidade. Mesmo que alguns dos músicos de rádio morassem nos morros. Zininho era morador do Morro da Mariquinha. Mas era profissional do rádio. Seu Nelson do Cavaquinho, por exemplo, era morador do Morro da Caixa. Mas era profissional dos “botiquins mais vagabundos”, como diz um samba de Moacyr Luz, fazeno referência aos botequins sem acabamento, com paredes salpicadas, balcões tortos, chão de cimento, mesas pensas, mas cervejas sempre geladas. Zininho e Nelson eram de famílias distintas. Enquanto um tinha um sobrenome conhecido na sociedade florianopolitana, mal se sabia o sobrenome de Nelson.

Florianópolis era uma cidade pequena e que primava muito pelo sobrenome. E quem tinha determinado sobrenome, zelava por ele para manter a sua imagem e a de sua família perante a sociedade e, consequentemente, seu sobrenome. Florianópolis também era uma cidade muito urbana. Boa parte da população era formada por funcionários de órgrãos do governo, prefeitura. Poucos sobrenomes ditavam as regras da cidade. Basicamente ligados à política e aqueles que eles consideravam de bem. Paralelo a isso, os donos de comércio privavam de certa influência. Isso porque todos precisam comer, se vestir, se locomover. No mais, só teriam grande êxito na vida se tivessem sorte. Então quem fazia parte desse ciclo não costumava se misturar com quem não fazia parte. Embora quem não fizesse parte fosse tão ou mais trabalhador quanto as ditas famílias de bem. Talvez até trabalhassem mais.

Além, claro, das disputas políticas entre Arena e UDN, Avaí e Figueirense. Era mais ou menos assim que era dividida Florianópolis. E no carnaval, a elite frequentava a Praça XV, e se dividiam entre as grandes sociedades Tenentes do Diabo e Granadeiros da Ilha, enquanto o povo ia pra Conselheiro Mafra. Por mais que sejam poucos metros de distância.

E é do povo que surge em maior quantidade, e menos conhecidos da grande mídia, os sambistas. Os que tocavam nas rádios são mais famosos. Estavam na mídia. Eram sempre citados. Conhecidos por toda a cidade. Já os que tinham outros empregos e nos fins de semana frequentavam os “botequins mais vagabundos”, só eram conhecidos entre os que tinham outros empregos e fins de semana frequentavam os “botequins mais vagabundos”. No carnaval ajudavam a colocar os blocos ou escolas na rua. São estes sambistas, “famosos anônimos”, que irão contribuir positivamente na influência aos sambistas que surgem depois.

A primeira geração de músicos, os que vieram do Rio de Janeiro trazendo os instrumentos, os sambas e as formas de tocar, incentivou os que criaram as escolas de samba Protegidos e Copa Lord, e serviu de incentivo para os que viam as rodas de samba e tinham interesse em participar dessas confraternizações.

terça-feira, 22 de abril de 2014

[HSF] “Nós somos as cantoras do rádio”

As rádios de Florianópolis tinham seus compositores que, por vezes, cantavam e tocavam suas próprias músicas, como Waldir Brasil e Narciso Lima, por exemplo. Quando não eram eles mesmo a executar suas músicas, e enquanto as rádios não tinham uma banda própria, elas usavam as bandas do Lira Tênis Club ou do Clube 12 de Agosto para executá-las. Seu Mazinho do Trombone, por exemplo, ainda em atividade, foi músico de todas as rádios de Florianópolis como a Rádio Guarujá, Anita Garibaldi e a Diário da Manhã.

Com os programas de samba nas rádios florianopolitanas, surgiam, também, os cantores locais, como Neide Maria Rosa, Waldir Brasil e Narciso Lima.

Waldir Brazil, Narciso Lima, Omar Campos e Pituca. Foto publicada no jornal A Notícia, em 19 de março de 2000. Registro de Artur de Bem feito a partir do livro “Carnaval na ilha”, de Átila Ramos.

Mazinho do Trombone, que foi músico de rádio, ao exemplificar algumas músicas executadas, mostra que eram sambas canções, serestas. Músicas nessa linha. Com bateria, sopros, violões, um andamento mais lento, mais suave. Diferente dos sambas executados pelos sambistas das escolas de samba, que cantavam sambas mais acelerados e usavam mais instrumentos de percussão.

Sempre houve uma certa divisão de classes entre os músicos de rádio e os demais músicos. Eles não se misturavam muito. Segundo o pesquisador Velho Bruxo, os músicos de rádio frequentavam os bares da Rua João Pinto, Miramar e adjacências. Demais músicos frequentavam os botecos dos morros ou iam para a região continental frequentar os botiquins do Estreito e Coloninha.

Tião, pobre, pintor de paredes, oriundo do morro, foi um dos poucos músicos do morro que conseguiu penetrar no meio musical das rádios. Mais tarde, em 1992, segundo Ana, neta de Tião e última proprietária, abriria o Bar do Tião, no Monte Verde, transformado em patrimônio Histórico, Artístico e Cultural de Florianópolis em 2009 e fechado em 2013. Na década de 1960 Tião conseguiu abrir uma fresta da porta do ambiente das rádios. Na década de 1980, um dos primeiros grupos “periféricos” que conseguiu entrar no ambiente das rádios não era um grupo de samba. Foi o Grupo Engenho que, ao entrar, quebrou a maçaneta e deixou a porta aberta para que outros músicos também pudessem entrar nesse meio. Elizeth Cardoso, do Rio de Janeiro, foi uma das maiores cantoras que o Brasil já teve. Neide Maria Rosa tinha grande semelhança com Elizeth, não só no biotipo, mas também na voz. Elizeth convidou Neide para seguir carreira no Rio de Janeiro, mas esta preferiu ficar em terras catarinenses. Neide talvez tenha sido a maior expoente cantora florianopolitana. Seu compositor preferido era Zininho e seu violão preferido era o de Tião. Tião também compunha mas estranhamente não há registro de nenhum samba em parceria dos dois.

Neide Maria Rosa cantando com Tião a acompanhando no violão. Acervo Josué Costa.

Tião, Yvonésio Catão (violonista e exímio cantor de serestas), os grupos Titulares do Ritmo e Vibrações (ambos surgidos em fins de 1970, início de 80, segundo o músico Wagner Segura), talvez tenham sido os que mais, ou melhor, acompanharam Neide. E não era fácil. Certa vez, um jovem violonista foi tocar com ela, que costumava cantar em tons não muito confortáveis para as mãos de um violonista, como um mi bemol. O jovem tentou descer meio tom, para tornar mais fácil os acordes, achando que Neide não perceberia a diferença de meio tom, e feriu um ré maior. Mas Neide percebeu, virou-se para o rapaz e deu-lhe uma bronca. O jovem foi obrigado a tocar a música em posições incomuns.

Zininho começou no rádio em 1949, na rádio Anita Garibaldi, e saiu do ar na década de 1960, já na rádio Diário da Manhã, segundo sua filha Cláudia. Outro programa específico sobre samba em Florianópolis somente vai ao ar na década de 1980, segundo o pesquisador Velho Bruxo, também na rádio Diário da Manhã, com Aldírio Simões, apresentando o programa Clube do Samba. Na década de 90, Aldírio passou a apresentar, também, um programa de televisão o “Bar Fala Mané”, no SBT TV, trampolim para dezenas de sambistas da cidade. Outro programa que tocava músicas locais, na mesma época de Aldírio, segundo lembranças dos entrevistados como Bira Pernilongo, era na Rádio Cultura, apresentado por Fontela, aos domingos.

Aldírio Simões e Fontela abrem espaço para grupos, compositores e cantores que não eram oriundos de rádio mostrarem seu valor. Foram os dois últimos homens da mídia a ter um programa especificamente sobre samba. Aldírio morreu em 2005 e de Fontela não se tem notícia.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

[HSF] A influência do rádio no samba de Florianópolis

A primeira gravação de um disco no Brasil, segundo o pesquisador Adilson Santos, foi feita em 1901 na cidade do Rio de Janeiro, e de acordo com o livro Caros Ouvintes (2005), a primeira emissora de rádio brasileira, também foi fundada no Rio de Janeiro, em 1923, a Rádio Sociedade. O livro, focado na história do rádio em Santa Catarina, relata que, no estado, a primeira rádio foi a Rádio Clube de Blumenau, fundada em 1936. E em Florianópolis a primeira foi a Rádio Guarujá, fundada em 1943.

Ainda segundo o livro, em 1949 estreava em Florianópolis, na Rádio Anita Garibaldi o programa “Gentleman do Samba” apresentado pelo músico e compositor Zininho, que mais tarde tornou-se um renomado compositor, e autor do hino de Florianópolis, “Rancho de Amor à Ilha”. Alguns anos depois, Zininho passou a apresentar o programa “Bar da Noite” na rádio Diário da Manhã. Os programas eram apresentados ao vivo, em auditório, com sorteios de brindes. Antes, os florianopolitanos ouviam os sambas das rádios do Rio de Janeiro, capital federal na época.

O rádio era a melhor forma de aprender os sambas. Ademais, o público não teria outra maneira de ouvir com frequência as músicas e os músicos cariocas. Talvez com um ou outro disco, mas a grande maioria dos relatos indica o rádio como o grande meio difusor deste gênero musical.

Até surgir um programa específico de samba local, o que se ouvia eram os cantores do Rio. Cantores e compositores, sambistas, que influenciaram o país inteiro. Em Florianópolis não foi diferente. A audição de sambas nas rádios fez surgir o interesse em algumas pessoas a fazer samba também. Reproduzindo da forma como eles soubessem. Tocar os instrumentos da forma como eles achassem melhor. Como disseram Carlos Raulino e Jandira, então produtor e cantora do grupo Um Bom Partido (criado em 1997), no documentário “Ali na Esquina”, de Graziela Storto e Rita Piffer (2005): “A gente ouvia os discos e tentava reproduzir. Como era o certo, se batia assim ou assado, a gente não sabia, mas a gente ia tocando”. É assim que surgiam os primeiros compositores, cantores e instrumentistas.

terça-feira, 8 de abril de 2014

[HSF] “Pelos salões da sociedade” Florianopolitana

Na história oficial de fundação da Copa Lord, em 1955, os 4 fundadores estariam em frente ao bar ouvindo sambas no rádio. Se tocava samba na rádio, é porque tinha alguém para ouvir. E em Florianópolis havia público que apreciava samba. Sim! A música popular tinha seu público há muitos anos na capital catarinense. Mesmo antes de existirem as escolas de samba, Florianópolis recebeu o flautista Patápio Silva, vindo do Rio de Janeiro. Patápio tocava choro, um gênero musical primo do samba, como bem caracterizou o escritor André Diniz em seu livro “Almanaque do Samba”, escrito em 2006. Vivíamos o longínquo ano de 1907.

Florianópolis, no início do século XX era uma cidade pequena*. Em 1907, quando Florianópolis recebe o flautista Patápio Silva, a infraestrutura era precária. A cidade tinha um péssimo sistema de sanemaneto básico. Basta dizer que em 1909, segundo o blog do pesquisador Velho Bruxo, começa a canalização de água potável, para a capital (leia-se o Centro da cidade). O livro “Patápio, músico erudito ou popular?” diz que, segundo uma estatística feita na Capital Federal, a causa da maior mortalidade em consequência de moléstia infecto-contagiosa, foi, em primeiro lugar, a tuberculose e, em segundo, a gripe. Patápio contraiu uma “hemoptise”, hemorragia no aparelho respiratório, e morreu em poucos dias em Florianópolis.

Reprodução do jornal O Dia, de 14 de abril de 1907, dando destaque à Patápio Silva. Imagem: Artur de Bem.

Muito possivelmente poucos florianopolitanos conheciam a música de Patápio, pois, ainda não havia rádios no Brasil e poucos tinham acesso a discos gravados. O jornal O Dia, da imprensa florianopolitana, em 13 de abril de 1907, registrou com muita ênfase e excitação a vinda do flautista: “Chegou hontem a esta cidade
o exímio flautista brasileiro Pattapio Silva, que dará no proximo domingo o seu unico concerto. Excusado é reproduzirmos o que temos regístrado a respeito d’esse distincto patricio.” A notícia especificava, ainda, o local da apresentação: “Na proxima quinta-feira dará elle o seu 1º concerto, no Club 12 de Agosto, a que é dedicado. Para isso está organisando um programa cheio de atractivos”. Patápio tocaria no dia 18 de abril de 1907, quinta-feira, no Clube 12 de Agosto, mas ficou doente e faleceu no Hotel do Comércio, prédio que atualmente abriga a loja Casas Bahia, na Rua Conselheiro Mafra, em frente ao prédio da Alfândega, no Centro.

Somente 20 anos depois, em 1927, temos registros da vinda de outros músicos do Rio de Janeiro para Florianópolis. Eram Os Batutas classificados por alguns autores como “jazz band”. O grupo era formado por Pixinguinha (flauta e sax), Donga (violão, banjo e cavaquinho), Aristides Júlio de Oliveira (bateria), Alfredo de Alcântara (pandeiro), Ismerino Cardoso (trombone), Bonfíglio de Oliveira (piston), Mozart Corrêa (piano), João Batista Paraíso (saxofone) e Augusto Amaral - o Vidraça (ganzá). O grupo voltava de uma excursão pela Europa e apresentou-se no Teatro Álvaro de Carvalho, no Centro, com um repertório de sambas, marchas, emboladas, maxixes, choros e jazz.

Em 5 de junho de 1932 o grupo Azes do Samba também vem do Rio de Janeiro para tocar no Cine Ritz, que ficava na Rua João Pinto (quando o Cine Ritz parou de operar, ele funcionava na Rua Arcipreste Paiva, ao lado da Catedral Metropolitana). O grupo realizou quatro apresentações em um único dia e era formado: pelo “Rei da Voz” Francisco Alves, Mário Reis (voz), Nonô (piano), Peri Cunha (bandolim) e Noel Rosa (violão). Sim! Noel Rosa** esteve em Florianópolis! E dizem até que ele bebeu umas cervejinhas no bar do João Bebe Água, atual Bar do Miltons, no calçadão da João Pinto.

Três apresentações relativamente importantes para a história da música em Florianópolis. Todas elas antes ainda de qualquer registro de escolas de sambas de Florianópolis.


*Para se ter uma noção do tamanho da capital catarinense na época, segundo o pesquisador “Velho Bruxo” em seu blog, em 1880 havia 8 praças, 47 ruas, 4 travessas, 8 becos, 8 igrejas ou capelas, 2 cemitérios (um público e outro luterano). Segundo o pesquisador Victor Antônio Peluso Junior no artigo “O crescimento populacional de Florianópolis e suas repercussões no plano e na estrutura da cidade”, em 1900 a cidade tinha apenas 13.474 habitantes. Não encheria o estádio do time do Figueirense hoje.

**Antes de Florianópolis, os Azes do Samba estiveram em Porto Alegre. Lá, Noel teria se engraçado com uma moça, e na despedida, no cais, a moça teria dito: “Até amanhã!”. No caminho para a capital catarinense, Noel compôs o samba que leva esta expressão, e teria sido executada pela primeira vez em terras florianopolitanas.

Até amanhã
(Noel Rosa)

Até amanhã se deus quiser
Se não chover eu volto pra te ver, oh, mulher
De ti gosto mais que outra qualquer
Não vou por gosto, o destino é quem quer

Adeus é pra quem deixa a vida
É sempre na certa em que eu jogo
Três palavras vou gritar por despedida
"Até amanhã, até já, até logo!"

O mundo é um samba em que eu danço
Sem nunca sair do meu trilho
Vou cantando o seu nome sem descanso
Pois do meu samba tu és o estribilho

Eu sei me livrar do perigo
No golpe de azar eu não jogo
É por isso que risonho eu te digo:
"Até amanhã, até já, até logo!"